<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-18644030</id><updated>2012-02-15T05:30:41.126-02:00</updated><title type='text'>Laboratório Literário</title><subtitle type='html'>-¡Cread y compartid!-</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://danielbandini.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://danielbandini.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Daniel Fontana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03210056785320952524</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://1.bp.blogspot.com/_oZVDfUEuReo/SiKM7vZ2bmI/AAAAAAAAAAQ/I4u2Tra0dqw/S220/DSC02719.JPG'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>37</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18644030.post-6764382913605813131</id><published>2010-02-22T17:28:00.021-03:00</published><updated>2010-02-27T06:27:52.135-03:00</updated><title type='text'>[sobre o zumbi apaixonado]</title><content type='html'>&lt;a href="http://vidanamadruga.blog.terra.com.br/files/2009/06/zombie.jpg"&gt;&lt;img style="text-align: center;float: right; margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 10px; margin-left: 10px; width: 242px; cursor: pointer; height: 270px; " alt="" src="http://vidanamadruga.blog.terra.com.br/files/2009/06/zombie.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;em&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-small;"&gt;"E havia o sexo, em tudo, confundindo todo mundo, que nem a fome. Ele criava saudade, ele criava ambição, competição, ele levava pessoas a deixarem suas casas e inventarem automóveis, naves espaciais e bomba atômicas, quando podiam, em vez disso, ficar sentadas no sofá até morrerem. Paixões animalescas. Necessidades inconscientes. O sexo fazia o mundo girar."&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:'times new roman';"&gt;&lt;i&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:'times new roman';"&gt;&lt;i&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;em&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:x-small;"&gt;"Isso tudo já era. O sexo, antes uma força tão universal quanto a gravidade, agora é irrelevante. Ambição e saudade não são mais parte da equação. Meu pênis caiu há duas semanas."&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:'times new roman';"&gt;&lt;b&gt;&lt;br /&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;MARION, Isaac. Eu sou um zumbi apaixonado&lt;br /&gt;&lt;a href="http://vidanamadruga.blogspot.com/2009/07/eu-sou-um-zumbi-apaixonado-traducao.html"&gt;http://vidanamadruga.blogspot.com/2009/07/eu-sou-um-zumbi-apaixonado-traducao.html&lt;/a&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;o conto é meio mórbido, ainda que seja esperançoso. ele supõe que o amor, a liberdade, a paz, etc., só alcança sua plenitude quando reprimido o impulso sexual no homem. é uma denúncia a céu aberto contra o corpo!... não é gratuita, portanto, a escolha dos zumbis como &lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;leit motiv&lt;/i&gt;. o definhamento do impulso sexual representa o triunfo do espírito (em detrimento do culto da carne celebrado por ora em cada mônada do nosso universo). a propósito, só uma ruína devastadora - as cidades ardendo, os homens mutilados, vítimas do canibalismo e da autofagia, o retorno ao pó bíblico! - devolverá uma improvável paz ao infatigável e insaciável apetite do homem. e ele cava até o esqueleto, até a medula, para que a verdade possa refulgir intacta, sob uma luz solar. propõe ser a serenidade uma virtude descarnada e etérea. e, tornado pura energia cósmica, descansa em seu leito meio tedioso, com o estômago empanturrado. no pano de fundo, move-o o adágio de que após a tempestade colhe-se a bonança. etc.! mas o homem, permita-me discordar, é uma ponte! ele é o eterno miserável flagelado com a língua de fora. são a incompletude e a ausência suas substâncias mais próprias. não se pode exigir ao homem que não queira, pois seria o mesmo que ordenar ao vento que não vente. reformar o homem é algo delicado. sei lá, esse idílio de anjos castrados é uma história meio fantasmagórica e realmente assustadora; e é uma moléstia antiga esse desejo enraizado no coração dos infelizes e mal logrados por um paraíso pálido e frígido cheio de eunucos bocejando e abanando o &lt;i&gt;nada&lt;/i&gt;, e frio cortante de deserto congelando os tímpanos. não creio que reprimir sumariamente o elemento sexual seja uma boa saída. porém, um olhar mais sinistro ao nosso futuro!... devemos ampliar a tensão destrutiva no homem e fomentar um apocalipse pra que a roda seja recolocada em seu ponto de partida. não vejo saída além da catástrofe e da hecatombe. e isso pode acontecer só no âmago do indivíduo – talvez no plano celular! atômico! –, sem implicar numa convulsão social. as cidades não precisam virar uma imensa bola de fogo.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="text-align:justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:georgia;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;*&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Times New Roman'; "&gt; essa aura edificante esconde aversão e nojo ao homem; sei lá, para o desavisado, isso pode ser romântico, utópico e desejável, o que não altera em absoluto seu caráter misantrópico; é que, desde o domínio das idéias semitas, outro tipo de mundo passou a prevalecer sobre este mundo existente, um mundo, digamos, antinatural e impossível, no qual o melhoramento do homem foi identificado com a sua domesticação e onde a felicidade suprema coincide com a resignação suprema. e esse pensamento torpe peculiar a escravos, que teve sua semente cultivada na Europa primordialmente pelos estóicos, e tornado dominante pelo cristianismo, consolidou-se de uma forma extraordinária, envenenando e corrompendo as almas sadias (com a inoculação da má-consciência), pois os escravos, em todo o lugar, compõem a imensa maioria do estrato social. relatado em pormenores, iluminando com a lâmpada fria da história as baixezas e traiçoeiros golpes de intelecto engendrados para a consecução dessa obra, isso tudo se assemelha a delírio ou a um pesadelo tolo; porém, os artífices desta perfídia, como os anõezinhos de Gulliver, costuraram com firmeza e tenacidade os cordões desta camisa de força mental que aprisiona o nosso ímpeto e nossa valentia dormentes.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18644030-6764382913605813131?l=danielbandini.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://danielbandini.blogspot.com/feeds/6764382913605813131/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18644030&amp;postID=6764382913605813131' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/6764382913605813131'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/6764382913605813131'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://danielbandini.blogspot.com/2010/02/sobre-o-zumbi-apaixonado.html' title='[sobre o zumbi apaixonado]'/><author><name>Daniel Fontana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03210056785320952524</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://1.bp.blogspot.com/_oZVDfUEuReo/SiKM7vZ2bmI/AAAAAAAAAAQ/I4u2Tra0dqw/S220/DSC02719.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18644030.post-7405398115395464525</id><published>2010-02-15T02:05:00.041-02:00</published><updated>2010-10-14T17:19:06.506-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:'Times New Roman';"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;e, logo, literalmente em chamas, faiscando no vento, espremendo os olhos e enxergando tudo meio que através de um plástico enrugado, de uma vidraça, ou de uma cortina translúcida e esbranquiçada, e, sei lá, emergindo do nada, lembrei de uma borboleta com enormes asinhas azuis fosforescentes presa no pára-brisas se movendo como um pêndulo, e que devia estar suspirando, sob a chuva suave e triste, sobre o capô negro do carro deslizando maciamente no horizonte infinito, meio inabarcável, de um promontório tenro regurgitado por uma cratera no céu tipo um ânus enevoado, uma nebulosa de gás, onde, no cimo friolento, mijei faz dez anos tentando enxergar o oceano longe ribombando contra as rochas, no primeiro dia em que me senti repelido pela humanidade, um estrangeiro forçado, ou um exilado inocente; e eu lançava o rosto para fora da pobre janela poeirenta sentindo uma brisa morna se chocar aos meus ouvidos como uma borracha mole e, num estampido mudo, como o estouro abafado &lt;i&gt;plouft &lt;/i&gt;de uma rolha, mergulho na mais profunda e fria &lt;i&gt;tremilicante&lt;/i&gt; melancolia como um homem-caranguejo engatando marcha-ré no tempo, como apnéia aquática imbecil e suicida no terraço - as derradeiras nuvens no céu dançando antes do céu se escurecer -, ou respirando agitado-ofegante como um piolho semisubmerso como uma mola na água que parece querer afogar na piscina visguenta feito lodo do passado, nadando ao reverso, contra a correnteza devastadora engolindo tudo cheia de espuma rugindo inelutável e definitiva, e olhando pelo retrovisor embaçado da memória só e triste; e o cair da noite cinzenta, no meio da rua suja e ruidosa, me faz lembrar&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="apple-converted-space"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:'times new roman';"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;em&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:'times new roman';"&gt;en passant&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;span class="apple-converted-space"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:'times new roman';"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:'times new roman';"&gt;dos porres santos em floripa - santos! santos! santos! - caindo no chão por um facho de luz débil, eclodindo como holofotes se esgueirando no solo, e cenas inesquecíveis como eu e o gio no inverno no canto oculto e escuro de um bar nos conhecendo com os cotovelos escorados numa mesa de madeira horrível, e cinco noites ébrias oníricas consecutivas em que esvaziamos o&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="apple-converted-space"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:'times new roman';"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:'times new roman';"&gt;congelador&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="apple-converted-space"&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:'times new roman';"&gt; &lt;span style="FONT-STYLE: normal" class="Apple-style-span"&gt;e todo o estoque de cerveja choca &lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:Georgia;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:'times new roman';"&gt;de um bar (assombrando, de verdade, o dono!), e, como um dos piores bêbados trôpegos do mundo, fiquei confinado sem razão no banheiro sufocante de um apartamento, urrando em silêncio, sentado no chão frio e duro, e martelando vagamente a cabeça na parede (os olhos febris e epilépticos-revirados fixos no teto de onde pendia um globo triste fazendo&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="apple-converted-space"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:'times new roman';"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;em&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:'times new roman';"&gt;nhec&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;span class="apple-converted-space"&gt;&lt;i&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:'times new roman';"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:'times new roman';"&gt;em seu ir-e-vir imutável), etc. e, logo, a alma se enegrece absorvida por um tumor medonho; a visão se turva encoberta por uma neblina espessa que devagar vai se diluindo como um trago de maconha subindo e desaparecendo no céu; e lanço murros ingênuos no vazio como bandini pugilista no mojave esbofeteando a ossuda face do Tempo. e vou adiante, deambulando meio errático, e, num bar, no sopé do morro como um túnel, tomo uma caneta por empréstimo e escrevo sobre esse guardanapo horrível, lastimavelmente sentado, incógnito e quieto no fundo do bar deprimente, esfumaçado e claro como a lua, e escrevo essas idiotices lúgubres e mortas com caligrafia horrível e contendo as lágrimas. "ah, a difícil arte de a tempo ir-se embora!" creio que foi isso que nietzsche - santo! santo! santo! - escreveu sobre essa raça negróide de pessimistas, fornicadores da alma e morimbundos envenenadores da vida da qual eu hoje faço parte.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="apple-converted-space"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:'times new roman';"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;em&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:'times new roman';"&gt;fora lamentações! fora elegias e réquiens!&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;span class="apple-converted-space"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:'times new roman';"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:'times new roman';"&gt;tudo passa como vento pela mente. zunindo! e, sei lá, é meio demoníaco, eu bem sei, e não sei porque me calhou vir isso à tona agora, mas se o diabo possuísse como um arremedo a voz santa da giulia me chamando pra jantar com aquele sonzinho inocente, doce, infantil, santo! na noite úmida e agradável! aquela voz sagrada se esvaindo com o vento! e torturando a minha mente rodopiante de bêbado, que quer girar e cair em delírio... ela está aqui comigo na minha ressaca de bêbado deprimido e desprezível como um anjinho beatífico me segurando pelas pernas fracas, caindo no ar que agora está gelado, com os seus cabelinhos encaracolados macios e perfumados (pelos quais eu deceparia essas mãos que escrevem)!. e, de repente, o gio retorna por um buraco no céu, sentado na rede, balançando-se languidamente como em sonho, na varanda, numa noite suave em que bebíamos um vinho forte e seco! (uma talagada de veneno! bendito seja três vezes!), com uma negra com quem eu estava fodendo na época, e que não lembro o nome, me confessando porque jamais viria a ter um filho ("cara, para você ter um filho, deve-se, pelo menos, ter uma opinião favorável a respeito de si próprio; crer que você seja algo digno de ser reproduzido, repetido; mesmo que o seu filho venha a se converter em algo totalmente diferente do que você é, o que vale é essa lógica meio que de espelho destroçado"). e eu acho que talvez nós devíamos ter forjado a respeito de nós mesmos o que cada um sentia pelo outro, etc., e esse papo meio que fraternal e, no fundo, idiota e infrutífero. ah, dane-se! por que eu estava sentado no meio da rua cuspindo nos próprios pés sob a noite enluarada? (por que eu sempre tenho que chorar quando escrevo? por que eu não posso continuar? nunca. nunca. nunca.) a resignação é chave de uma paz doentia desencarnada. &lt;i&gt;você sai na alegria e na tristeza retorna&lt;/i&gt;, eis a verdade.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18644030-7405398115395464525?l=danielbandini.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://danielbandini.blogspot.com/feeds/7405398115395464525/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18644030&amp;postID=7405398115395464525' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/7405398115395464525'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/7405398115395464525'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://danielbandini.blogspot.com/2010/02/entao-estava-so-sob-noite-enluarada-com.html' title=''/><author><name>Daniel Fontana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03210056785320952524</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://1.bp.blogspot.com/_oZVDfUEuReo/SiKM7vZ2bmI/AAAAAAAAAAQ/I4u2Tra0dqw/S220/DSC02719.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18644030.post-6829971921740776166</id><published>2010-01-19T19:12:00.017-02:00</published><updated>2010-02-06T11:39:47.307-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style=" ;font-family:'Times New Roman';"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-size:small;"&gt;doente carrancudo caminhando cabisbaixo como se o queixo fosse uma bola de bilhar de chumbo reluzindo em um beco frio e solitário sob uma nuvem noturna cinzenta diáfana se dissipando em direção ao sul, e cada carro é uma faísca ondulando como corrente elétrica, relampejando e engolindo a estrada como uma mandíbula enorme, vendo deprimido a velha e triste moradia de um amigo onde, na infância tenra e doce, brincamos com jogos de tabuleiro sobre o piso da sala abaulado, sentindo o cheiro de mofo da madeira podre e molhada exalando das paredes, e o estômago embrulhado com o vômito balouçando em golfadas no vazio com o abominável odor e os jatos sibilantes de fumaça que partiam de um velho e decadente fogão à lenha meio caído, tenebroso, no fundo da cozinha decrépita e nauseabunda empurrando o teto baixo para o alto, e a mãe dele, uma velha gorda muito desengonçada e com um nariz inchado e gordo que lhe parecia ter sido jogado à face como um grande cocô de muar, nos dirigindo caretas réprobas nojentas, risíveis que dava vontade de explodir em uma gargalhada supersônica de fazer voar e sumir as moscas que esfregavam suas patinhas tortas sobre a casca de um enorme queijo roquefort dormindo em cima de um relógio verde que nem musgo tiquetaqueante vertiginoso e inverossímil, e pensar que esse meu amigo faleceu não muito tempo depois disso fazendo sua mãe torcer o grande nariz em prantos como uma torneira cartilaginosa, quando seu caminhão furioso tombou e rolou para dentro do poço eterno, igual a uma tarde quente, em uma primavera rósea e santa, em que caiu nosso carrinho de picolés no abismo íngreme da vila operária que era como a garganta de satã, fazendo sons tétricos e melancólicos como milhares de homens agonizando presos à gosma elástica e ranhenta de satã, degustando picolés incríveis que nunca mais existirão e indo vender os que restaram mais deteriorados e indegustáveis deles que só o louco e besta ubíqua do tobias poderia mesmo comprar, tirando dos bolsos de feltro cada níquel fodido que seu velho pai, bêbado-feliz e ciclópico velho caçador &lt;i&gt;a la mahatma ghandi&lt;/i&gt; de avezinhas amestradas, havia espremido de seu surrado e sujo bolso com aquele olhar úmido, delirante e santo, que só os pais têm; e agora eu estava verdadeiramente amuado e caído como um anjo, pesando uma tonelada invisível, vendo tudo meio embaciado como numa viseira de escafandro, ouvindo um murmúrio &lt;i&gt;blorgh &amp;amp; blrurgh&lt;/i&gt; ribombando e distantes bolhas maleáveis como gelatina saltitando no vazio, como uma esponja-cristal voadora mas submarina, e cada ridícula pedra levantada naquela cidade só me falava de morte e de dissolução, porque cada pedrinha foi minha quando criança, e elas não foram só coisas minhas, coisas que eu podia agarrar com as mãos e quando quisesse arremessá-las fora, tudo era &lt;i&gt;eu&lt;/i&gt;, tudo era um fragmento e extensão sagrada da minha infinitesimal essência de aranha que era a mesma de &lt;i&gt;deus&lt;/i&gt;; lembrando das manhãs de invernos congelantes, enquanto ía com o pulmão pleno de ar pra escola, passando na frente da casa dele, numa calçada cheia de tijolos esfumaçados lisos como sabão molhado, soltando baforadas de vapor que subiam pro céu cinzento se dispersando e esvoaçando como em um sonho, e ali na frente, no chão, por conta da poeira de gelo, era possível deslizar e patinar em cima dele, e ver o sol pálido se levantando bem na minha cara rompendo o nevoeiro pelo meio, abrindo um imenso buraco no centro pustulento do meu fígado como uma grande lanterna iluminando o subterrâneo da alma cheia como um pão, e tudo ao redor sendo esvaziado do crânio de &lt;i&gt;deus &lt;/i&gt;como uma tragada de shisa profunda. ah, e quanto mais eu poderia cantar com essa boca de sapo! inundando de lama essas reminiscências fosforescentes como algas verdes e fosforescentes tremulando em vagalhões nas cristas tristes e soturnas das ondas do oceano, nessas noites cuspidas vivas pelo grande vento e que morrem em um lamento sorrateiro, em um uivo silencioso, e que aparecem refletidas nas lentes de uns óculos inesquecíveis que se apagaram para sempre quando eu era só uma criança; e um homem meio sorumbático com uns olhos cinzas e gélidos apoiado no espaldar desprezível da janela afundada numa luz azul fraquinha acompanha receoso e literalmente borrado o fluído de lesma pensante que desliza e emana como gás pelos meus ouvidos e se funde com o ar denso flutuante soprado como uma flauta através de uma fissura no chão rachado, ávido e insaciável, se abrindo sob os pés e exibindo pra fora os seus dentes escarlates sangrentos que durante eras abocanham homens, plantas, aranhas, elfos, arranha-céus, e tudo o mais, e que para nada vão permitir remissão, para nada concederão trégua, com sua máquina devoradora de mastigar coisas e idéias, pondo fim e esmagando o desfilar oco e desolador de milhares de gerações perdidas, e que arremessará num imenso cesto de lixo, depois de mastigá-los como chicletes, esses supostos anjos esqueléticos e anêmicos com cara de defunto nos bares, brandindo suas caveiras suspensas por um instante da grande centrífuga eterna como a bolinha girando  no ar sobre a roleta, embaixo, aguardando com seu estômago flácido de baleia pronto para triturar e moer os seus ossos virando uma pasta pardacenda, etc, etc, etc, e, de repente, galgando os quarteirões quadrados de cem metros por cem metros, como um sonho de gêometra, cada edificação me relatava uma história de dor e êxtase, surgindo de uma fenda em um céu de cartolina parda, por uma mão enluvada avulsa sem braço, e cada célula escura como carvão bruto era dotada de eletricidade brilhando e espoucando no céu como uma estrela, atravessando e arrebentando o tempo através de uma membrana translúcida fina tipo uma placenta, como um plástico viscoso enrolado na cabeça de um garoto que se suicidou (cuja infelicidade me foi contada para amenizar o sentimento impronunciável e indescritível da morte do gio que está sempre ardendo e sangrando o meu coração)&lt;br /&gt;etc.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18644030-6829971921740776166?l=danielbandini.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://danielbandini.blogspot.com/feeds/6829971921740776166/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18644030&amp;postID=6829971921740776166' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/6829971921740776166'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/6829971921740776166'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://danielbandini.blogspot.com/2010/01/doente-carrancudo-caminhando-cabisbaixo.html' title=''/><author><name>Daniel Fontana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03210056785320952524</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://1.bp.blogspot.com/_oZVDfUEuReo/SiKM7vZ2bmI/AAAAAAAAAAQ/I4u2Tra0dqw/S220/DSC02719.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18644030.post-6856502903936612300</id><published>2009-05-30T17:45:00.005-03:00</published><updated>2010-07-03T21:29:01.076-03:00</updated><title type='text'>[rosário infantil]</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;(num sonho iluminado) com os olhos semicerrados pelo estreito túnel, a passarela que une a ilha ao resto do continente, de onde se podia inalar merda e sentir o cheiro do oceano, lendo nos lados meio triste os enigmas e diagramas regurgitados no muro, as exortações excitadas estéreis e ingênuas à revolução social impossível, as trêmulas e desesperadas e ridículas declarações de amor (caquéticas!), e tudo mais um pouco sem esmero, etc., toda esta rebeldia ingênua e suicida da juventude – e romântica! –; e onde é impossível não desejar cair no oceano como um alfinete e desaparecer nas profundezas, inundado de água por todos os poros, e tentar, lá embaixo, ver os rostos de todos os entes queridos que viraram pó e dos fantasmas do passado que nos mordem a alma com seus dentes de chumbo, e falar com eles num idioma feito de bolhas e gestos lentos estourando contra o turbilhão de ondas submarinas, um balbuciar mímico morto no silêncio em meio ao caos espectral, e dizer tudo o que devíamos ter dito alto enquanto ainda estavam vivos e respirando, e recitar um tomo inteiro de poesias desesperadas que estão ardendo confinadas nos nossos cérebros, e jogar pra fora num ruído inaudível todo o lixo degradável e podre que está nos comendo como um câncer, com um grito tonitruante e potente como um dínamo estrelado que vai morrer no silêncio puro, um grito que está enterrado como uma medula seca em nossos ossos, que não liberta, porém, alivia e esfria um pouco o caldeirão borbulhante e insuportável do nosso vazio, forjando uma frase perfeita atrás de outra, vê-las explodindo e se chocando contra o papel como uma bola de fogo, destampando o cérebro debaixo da sombra de uma nuvem cinzenta e fria, e ver a terra devorando e engolindo os arranha-céus com sua garganta sagrada, e o vento devastando os monumentos e estátuas e símbolos arcaicos da nossa civilização espiritualmente atrofiada e mórbida, etc., uma história própria que parecesse digna de ser escrita e conhecida, lida, incorporada, repetida, copiada, espelhada, refletida, por todos os homens e por todos os animais e vermes rastejantes que oscitam sob o sol, suprimindo toda a suspeita sobre o caráter horrendo e a fealdade do mundo, uma idéia que está caindo no esgoto; e descortinar a barreira de ferro que nos impede de dar o próximo passo pra frente, e levar esta mensagem ao mais recôndito buraco, repartir o pão com os huguenotes, os persas, os sumérios, os amonitas, os eleatas (etc.), em todas as épocas, uma foda &lt;i&gt;transtemporal&lt;/i&gt; entre os povos, escrever na luz azul o surgimento de uma palavra, o fim de uma era de entorpecimento, o levantar da cama do século XX(I), o banho santo de um vulcão furioso, como um rio de sêmen vivificante, fazendo ressoar como música no ar aquela matéria ígnea morta e inerte, preguiçosa e lânguida como barro no fundo do ser, jorrando como um gêiser essa porra seca da mente, e andando com os pés cheios de sangue sobre o chão nevado, fissurando e derretendo a camada de gelo fino que se alonga como um lago cristalizado no meio do deserto, e o sonho de ser um homem ilustre escoando pela privada como um cocô obsoleto, fluindo, desaparecendo, deslizando para dentro da Criação, como se estivesse se fundindo ao plano, à natureza, etc. e a ísis surgiria de dentro do crânio de um arcanjo exibindo seu torso desnudo e serpenteando seus braços como um deus indiano içado do Ganges esparramando amor sobre a terra, borrifando jovialidade e sarcasmo de dentro dos seus pulmões, como quando eu fecho os olhos bêbado sentado no chão cheirando flores, e o gio cantando tristemente o kaddish em cima de um túmulo sórdido (o calor indescritível subindo dos esquifes repletos de ossos esquecidos) - e cimento velho rachado e fosco -, com arbustos sujos da altura de um homem, saltitando nas lápides, lamentando os irmãos e indigentes perdidos em manicômios, sofrendo choques elétricos, amarrados por tiras de couro em leitos deprimentes, doentes, caídos em desgraça, derrotados, murmurando para o teto no topo de seus cárceres um sopro de clemência, de serenidade, uma pausa na máquina de vomitar fatos, tudo isto para poder contemplar a obra imóvel e eterna que paira na consciência do Buda, e vendo o leo arrancar do seu ânus fumegante um poema latino remoto (com seu hálito de vinho barato adquirido a duras penas com seu ordenado miserável de guardião dos livros) discorrendo sobre nossa ruína moral, nossa desordem política, a decadência de nossa arte, e nossas profecias e sonhos impuros virando excrementos no tempo, soterrados nus na torrente dos fatos que se sucedem e rodopiam vertiginosamente como um tipo de droga paralisante penetrando nas narinas, e mitigando o frio sentimento de perplexidade do indivíduo, só no centro da maquinaria como um pernilongo na cerveja choca, perdido no meio da fumaça das fábricas, subindo ao céu plúmbeo desmaiado do inverno, vendo a triste estrela do oriente calmamente se apagar e desaparecer ao raiar da manhã, e descendo, na sombra das aléias verdejantes, em um rio miserável que ruge e corta em dois pedaços grandes a cidade onde eu nasci,  assombrando-me para sempre, e onde o joca empunhava um cajado como um pastor velho e sábio ou um dos doidos desbravadores e assassinos de civilizações meio hernán cortez, e nós o seguíamos peregrinando e roubando frutas, escalando montes cheios de terra dura que grudava nas botas só para pôr os olhos cansados no panorama pálido de inverno da nossa pobre cidade, ver os velhos esqueléticos deslizarem como formigas para o interior dos bares fedidos, como magnetismo amaldiçoado, escarrando no solo pedrinhas duras oriundas dos seus pulmões e delirando ao beberem os seus venenos para o fígado, morrendo como moscas eletrocutadas em uma luz púrpura; e, no topo gelado dos montes, víamos coelhinhos brancos como as nuvenzinhas do céu voarem e submergirem nos arbustos e se enlearem nas sebes densas soltando guinchos suaves que morriam no espaço e confluíam em espirais invisíveis ao peito de Buda, e ficávamos na névoa suspirando e esperando o orvalho cobrir as folhas ao entardecer, com a mente conectada ao cosmos contemplando o sol do crepúsculo definhar fracamente, até descermos o monte com o frio penetrando nossos ossos e o sangue congelando nas veias; e no início da noite, indo contra o vento cortante para o casarão obscuro caindo aos pedaços, onde, na soleira da porta, pelo vidro embaçado, eu enxergava mamãe exausta preparando o jantar, decifrando-a no meio do vapor quente espargido da frigideira, com os olhos brilhantes, recebendo-me de soslaio com afetuosidade e compreensão, enquanto papai cofiava o bigode negro e espesso ante um cálice de vinho, com o pensamento longe, num cômodo mal iluminado pelo lustre sujo e empoeirado – ah, prenhe de futuro! o futuro se abrindo numa torrente vertiginosa; e o único empenho que se exigia de mim, o mais difícil e crucial de todos, consistia em liberar os meus impulsos, dar asas aos meus cavalos, e fundarem, no meio desse caos, a base do comando perfeito da natureza, da &lt;i&gt;profundis natura&lt;/i&gt;, e aguardar com paciência, como um sortilégio, o meu justo lugar na escala dos seres; afastar-me, de todos os modos, de subordinar o meu destino, de apagar os meus dotes, de sufocar os meus anseios, em nome de qualquer idéia, de qualquer instituição, de qualquer homem: eu só obedeceria ao que a natureza ditasse como um X guiado pelo cheiro. e, na noite profunda, titia tomada pelo câncer, ofegando e murchando, e nós prostrados ao pé do seu leito, orando e rogando na penumbra para que fosse poupada do sofrimento e vivesse em paz, com os olhos fundos e o cenho franzido, invocando a clemência mais profunda, a piedade mais doce e sincera que um coração poderá conceber. em vão! deus é uma calopsita defecando no sofá; é um viciado apertando um baseado à meia luz – vibrando o monocórdio drama da aniquilação suprema com seus dentes amarelos: pobre homem, com a boca repleta de espuma, rodando como um cão ao redor do próprio rabo, caindo na desgraça, entoando só o urro dos moribundos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18644030-6856502903936612300?l=danielbandini.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://danielbandini.blogspot.com/feeds/6856502903936612300/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18644030&amp;postID=6856502903936612300' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/6856502903936612300'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/6856502903936612300'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://danielbandini.blogspot.com/2009/05/rosario-infantil.html' title='[rosário infantil]'/><author><name>Daniel Fontana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03210056785320952524</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://1.bp.blogspot.com/_oZVDfUEuReo/SiKM7vZ2bmI/AAAAAAAAAAQ/I4u2Tra0dqw/S220/DSC02719.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18644030.post-2247934053866783681</id><published>2009-03-17T17:42:00.029-03:00</published><updated>2010-10-15T20:38:58.364-03:00</updated><title type='text'>[ísis]</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;eu estava sentado em um caminho de madeira refrescando os pés na água, olhando as gaivotas planarem em vôos rasantes sobre a lagoa calma e imóvel, e pensando por que diabos estava eu ali tão longe e tão remotamente só. enxuguei os pés para calçar os sapatos e levantei esfregando as minhas calças que estavam imundas e ásperas. era uma calça jeans de um azul claro velha e gasta. o chão estava totalmente salpicado de areia e formava uma enseada meio inverossímil em plena margem da rua e lhe cingia um contorno delicadamente fantástico. errei para cima e para baixo um pouco perdido e estonteado à procura de um bar no qual pudesse permanecer anônimo e sem ser perturbado por ninguém. escolhi um bar amarelo com uma mesinha vaga no fundo que, a despeito de ser bem movimentado, jazia completamente escuro e apagado entre uma série de outros bares deprimentes com letreiros em gás neon. suas paredes ainda cheiravam a tinta fresca. percorri o cardápio com os olhos, entretanto, estava alheio e sem fome e só desejava beber um bom trago. deixei o pensamento voar longe e desconectar-se da realidade; os braços pendiam, caídos, mortos e pesados sobre a mesa dura e fria; o olhar fixo e opaco, concentrando num ponto longínqüo. o gio veio de bicicleta. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;logo, ficamos ébrios e meio deprimidos. refletimos melancolicamente acerca de nossas vidas inúteis; sobre o destino ridículo e mesmo incompreensível que tivemos, em que fomos ultrapassados e superados, em todos os quesitos, por seres que, segundo nosso juízo, eram ínfimos e repugnantes, cujo &lt;em&gt;sucesso&lt;/em&gt; era obra da boa consciência da sociedade, um tipo de prêmio à moralidade. nossos sonhos tinham morrido! sim, nos convertemos em párias e canalhas, desprezando e cuspindo na cara da sociedade - num gênero &lt;em&gt;só para raros&lt;/em&gt;. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;a noite desceu por completo. tínhamos que voltar para a costa e o próximo barco era o último. andamos até o barco enfrentando as luzes esbranquiçadas dos carros e, com medo de perdê-lo, chegamos uma hora adiantados. sob os postes, com uma sonolenta luz alaranjada, erguia-se o píer. lá havia toda a sorte imaginável de desajustados esperando para serem transportados para casa: trabalhadores fedendo à peixe; mulheres levando no colo criancinhas pálidas e inquietas, jovens selvagens loucos para vomitar, e velhos com o tédio colado na fronte, etc. exalava um fétido e insuportável odor de algas. a superfície da água parecia grossa e pardacenta. dane-se! era o único meio de retornarmos. a alternativa restante consistia em caminhar quatro quilômetros por uma vereda aberta na margem lateral da lagoa (o que, por evidência, rechaçamos de imediato). assim, o gio encostou a bicicleta em um muro e adormeceu. eu pedi para uma senhora negra que me parecia tristemente simpática e humilde para nos avisar no momento em que o barco fosse zarpar. enquanto isso, tive um excelente sono no chão gelado. a esta altura, o calor havia se dissipado e o ar era macio e azulado. a senhora negra nos alertou e subimos ao teto do barco onde se amarravam as bicicletas. abaixo, sob o teto ou na borda do barco, todos se espremiam sentados como pulgas. a noite estava incrivelmente agradável e sem nuvens. o reflexo da lua boiava na água tênue e plácida da lagoa delimitando a área observável na escuridão. na orla havia raras casas penetrando o breu espesso com uma pequena lâmpada opaca na floresta densa. sonhávamos olhando pro céu frio, deitados com as costas no teto de madeira do barco, quase a levitar suspensos por uma cama de fumaça, inalando um aroma de incenso que boiava em círculos, expelidos por turíbulos de prata que oscilavam e balouçavam-se sobre os nossos crânios, em um silêncio pavoroso unicamente interrompido pelo choque constante das ondas. e posso jurar que a ísis estava lá, em algum lugar do céu, na noite estrelada, como um arcanjo iluminado derramando seu amor e sua graça em cascatas que jorravam de dentro dos seus olhos e desciam direto ao nosso pobre chão rachado. então subitamente o gio saltou produzindo um estrondo no assoalho e com uma manobra brusca fez o barco parar. e, quando descemos no posto 8, ermo e desolado, com um sentimento estranho e inconcebível de solidão e plenitude, na rampa do trapiche, ou monte acima, no barro e na trilha fechada, eu ainda sentia que ísis estava ali sussurrando e lambendo o meu ouvido com seu hálito doce e perfumado.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18644030-2247934053866783681?l=danielbandini.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://danielbandini.blogspot.com/feeds/2247934053866783681/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18644030&amp;postID=2247934053866783681' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/2247934053866783681'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/2247934053866783681'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://danielbandini.blogspot.com/2009/03/gab.html' title='[ísis]'/><author><name>Daniel Fontana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03210056785320952524</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://1.bp.blogspot.com/_oZVDfUEuReo/SiKM7vZ2bmI/AAAAAAAAAAQ/I4u2Tra0dqw/S220/DSC02719.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18644030.post-3201361777148998794</id><published>2009-03-13T15:18:00.006-03:00</published><updated>2009-05-31T11:26:33.017-03:00</updated><title type='text'>[avant la haine]</title><content type='html'>&lt;p align="center"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;em&gt;&lt;object width="320" height="266" class="BLOG_video_class" id="BLOG_video-4107c299dc79c441" classid="clsid:D27CDB6E-AE6D-11cf-96B8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/get_player"&gt;&lt;param name="bgcolor" value="#FFFFFF"&gt;&lt;param name="allowfullscreen" value="true"&gt;&lt;param name="flashvars" value="flvurl=http://v14.nonxt1.googlevideo.com/videoplayback?id%3D4107c299dc79c441%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1331474542%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D3A02D4F5EFD98E4057C3E598BEDE937764133C95.B0BC87A67E861BB5720FE0B6074D679BF7B11BF%26key%3Dck1&amp;amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3D4107c299dc79c441%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3D9P_vLGeXkFjG5V2mt2T6Ph_A6Nw&amp;amp;autoplay=0&amp;amp;ps=blogger"&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/get_player" type="application/x-shockwave-flash"width="320" height="266" bgcolor="#FFFFFF"flashvars="flvurl=http://v14.nonxt1.googlevideo.com/videoplayback?id%3D4107c299dc79c441%26itag%3D5%26app%3Dblogger%26ip%3D0.0.0.0%26ipbits%3D0%26expire%3D1331474542%26sparams%3Did,itag,ip,ipbits,expire%26signature%3D3A02D4F5EFD98E4057C3E598BEDE937764133C95.B0BC87A67E861BB5720FE0B6074D679BF7B11BF%26key%3Dck1&amp;iurl=http://video.google.com/ThumbnailServer2?app%3Dblogger%26contentid%3D4107c299dc79c441%26offsetms%3D5000%26itag%3Dw160%26sigh%3D9P_vLGeXkFjG5V2mt2T6Ph_A6Nw&amp;autoplay=0&amp;ps=blogger"allowFullScreen="true" /&gt;&lt;/object&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;em&gt;- Dans Paris [Em Paris], do diretor Christophe Honoré. -&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;isto é ao que eu chamo de Arte!... a raras obras posso classificar o filme como pretexto à uma só cena; como um contexto pálido composto para o apogeu comovente condensado em um intervalo. uma escalada aos céus! não há como não arrepiar os pêlos! - e não soltar uma lágrima cálida. eis um filme que me surgiu ao acaso: e para o qual permaneci totalmente despreparado. uma fortuna aleatória! quando rumei hoje cedo para o depósito, um pouco triste e melancólico, sentado em um ônibus sujo e recitando mantras, parecia ver alguém através dos vidros empoeirados, do outro lado da linha de telefone imaginária, sob os delicados vapores da manhã encobrindo o sol pungente, diluindo as nuvens baixas, recordando essas imagens inexprimíveis que parecem espargir sonhos fumegantes, embriagar a mente com gim - a arte é a bela petrificação da alma -, e que têm o mesmo som ao de uma noite em que minhas lágrimas frias caíam em um copo cheio d'água na penumbra. só o amor possui tal esperança sombria: que subtrai o horror inevitável pelo sentimento sublime; só o amor é esse puro heroísmo ante a tragédia, e antepõe a paixão ao inelutável, levando no dorso a &lt;em&gt;bela morte&lt;/em&gt;. eu sussurava &lt;em&gt;non, je t'embrasse et ça passe... - &lt;/em&gt;perdido no zumbido dos automóveis - e um murmúrio morria no silêncio do ar tépido (como um trem penetrando um túnel).&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18644030-3201361777148998794?l=danielbandini.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='enclosure' type='video/mp4' href='http://www.blogger.com/video-play.mp4?contentId=4107c299dc79c441&amp;type=video%2Fmp4' length='0'/><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://danielbandini.blogspot.com/feeds/3201361777148998794/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18644030&amp;postID=3201361777148998794' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/3201361777148998794'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/3201361777148998794'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://danielbandini.blogspot.com/2009/03/avant-la-haine.html' title='[avant la haine]'/><author><name>Daniel Fontana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03210056785320952524</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://1.bp.blogspot.com/_oZVDfUEuReo/SiKM7vZ2bmI/AAAAAAAAAAQ/I4u2Tra0dqw/S220/DSC02719.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18644030.post-3746834528937056673</id><published>2009-01-26T23:09:00.008-02:00</published><updated>2009-01-29T16:16:25.820-02:00</updated><title type='text'>[mi próximo movimiento]</title><content type='html'>&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;"voy a subir al techo a ver,&lt;br /&gt;a mirar el desastre&lt;br /&gt;bajo la luz de la luna gigante.&lt;br /&gt;e&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;llos lloran abajo del árbol,&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;arriba del árbol,&lt;br /&gt;detrás del árbol&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;tuve miedo pero ya se fue.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;a&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;em&gt;hora estoy arriba de mi casa con un rifle.&lt;/em&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;haré mi próximo movimiento."&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;* El Mato A Un Policía Motorizado&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;é impressionante a força e o lirismo emanados por "El Mato...". uma música como esta perturba qualquer indivíduo e o deixa estático e sem palavras. quando eu cruzava os antros de porto alegre meio bêbado jamais tive um vislumbre propriamente profundo inspirado pelas bandinhas tristes que aqui são ovacionadas. no extremo, permanecia imóvel em contemplação, deprimido e decepcionado; porém, sem mergulhos e sem poesia, seco e literalmente sugado por um aspirador de serragem. com os argentinos do "El Mato..." há algo completamente diferente! - como se eu fosse lançado no fundo de um oceano - e de lá pudesse enxergar algo real sobre as coisas, rodeado de um silêncio profundo e absoluto, vivendo só na &lt;em&gt;mente&lt;/em&gt;, ou sutilmente interrompido por um zumbido distante, longínqüo, como o som de um diapasão oxidado, um ruído contínuo e abafado vindo de fora do tempo, ou, sei lá, de um local ermo e perdido que existe, sempre existiu, desde a eternidade e os primeiros símios, mas para o qual estamos terrivelmente surdos. acho que é uma sensação de harmonia total. eu sinto que sou um átomo dormente reduzido a pó, e, enterrado no colchão, eu miro o teto do meu quarto, quase levitando, em um estado flutuante e esplêndido, e posso enxergar através dele, atravessar todos os apartamentos assentados sobre o meu teto, e penetrar todo o firmamento e ir além dele, caindo com as estrelas; ou então eu observo inerte a paisagem pela janela e tudo fica subitamente escuro e pacífico, o breu profundo mais aprazível que alguém puder imaginar, e posso ficar mastigando por dias inteiros esta goma do &lt;em&gt;nada&lt;/em&gt;, e soprando bolhas invisíveis que explodem no ar e emitem um &lt;em&gt;ploc &lt;/em&gt;murmurante. eu não sei se isto é elevado, divino, ou qualquer coisa que o valha, mas particularmente creio que seja a experiência mais agradável que eu já tive com a arte depois de sonhar com nietzsche dançando com deus.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18644030-3746834528937056673?l=danielbandini.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://danielbandini.blogspot.com/feeds/3746834528937056673/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18644030&amp;postID=3746834528937056673' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/3746834528937056673'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/3746834528937056673'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://danielbandini.blogspot.com/2009/01/mi-prximo-movimiento.html' title='[mi próximo movimiento]'/><author><name>Daniel Fontana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03210056785320952524</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://1.bp.blogspot.com/_oZVDfUEuReo/SiKM7vZ2bmI/AAAAAAAAAAQ/I4u2Tra0dqw/S220/DSC02719.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18644030.post-4779446909186967055</id><published>2008-10-17T19:46:00.008-03:00</published><updated>2010-02-06T12:56:05.150-02:00</updated><title type='text'>[o fanatismo]</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;com muitas razões nobres e princípios sagrados adornamos a prática do assassinato em todos os tempos. a história da verdade é uma longa sucessão de homicídios e rituais de trucidamento. enquanto as gerações se sucedem, aumenta excepcionalmente o rastro de sangue. a arquitetura macabra de cemitério, de túmulos e tumbas corroídas, é a culminância e consumação da história. é muito comum, ao longo da história, surpreendermo-nos, da língua de nossos ídolos, ofensas como &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;em&gt;queimem, bruxas, no fogo demoníaco do fundo do inferno!; ordálio a vós, falsos cientistas!; guilhotina aos traidores do povo!; apedrejamento em praça pública para sacerdotes do diabo! difamação! difamação!... &lt;/em&gt;e tais ofendidos não raramente constituem uma nova casta de homens faróis, uma estirpe que servirá de lume à geração que aguarda na semente. suspeito de todos os &lt;em&gt;grandes humilhados - &lt;/em&gt;se um&lt;em&gt; &lt;/em&gt;homem vê a necessidade de provar a verdade amarrando-se em uma corda, aí já há muito de questionável, de &lt;i&gt;intenções&lt;/i&gt; secretas, de astúcia subterrânea - embora esteja normalmente pronto a segui-los por suas trilhas fechadas e a subir com eles suas montanhas inverossímeis - talvez pelo &lt;i&gt;prazer &lt;/i&gt;existente nas trilhas fechadas e no ar das montanhas: jamais pela &lt;i&gt;verdade &lt;/i&gt;mesma. só os que os seguem saberão que lagos gélidos e belos jazem debaixo da névoa cinzenta que cobre os vales - é preciso tirintar de frio para enxergar a &lt;i&gt;verdade&lt;/i&gt;! seus sermões inflamados são como um pequeno orifício onde atrás se acumulam ocultas muitas maravilhas - existem olhos para tais prodígios? sobraram narizes sadios para suportar tais fendas? e, se puder compor uma fábula a partir disso, digo que não é necessário, e tampouco sábio, impressionar-se com os grandes vultos, com as grandes sombras ou grandes explosões de estrelas na noite. para nós, ainda vale aquela antiga divisa grega, surgida sobre o vacilante alçapão da dúvida, que exprimia a verdadeira educação para a filosofia: &lt;i&gt;nil admirari&lt;/i&gt;. isto deve estar escrito à nossa porta quando saírmos de casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;[engana-se quem vê na morte o eterno cambiar de homens no tempo. a história da morte é o enredo invisível sangrento da dizimação de idéias - de embriões mentais! isto é uma luta contra um tipo de aborto que valeria a defesa. mas é isto mesmo: é aqui a natureza - sempre! - que reina. para cada expressão, para cada ninharia do destino no vento ser percebida, resvalada, notada, para cada soluçar do espírito se fazer ouvir, uma incontável - inexprimível, inconcebível, vertiginosa! - série de &lt;i&gt;possibilidades&lt;/i&gt; são mortas sendo destiladas no útero, como uma guerra prévia na porta do que intuímos ser o &lt;i&gt;acontecer&lt;/i&gt;. tudo - coisas da qual jamais se ouvirá falar! - &lt;i&gt;ocorre, ocorreu e ocorrerá &lt;/i&gt;movido por uma filigrana &lt;i&gt;imperceptível&lt;/i&gt; que sopra o universo (pra onde?! pra quê droga de fim?!), sobre a qual não podemos nos referir sem utilizar aspas. boiamos em um mundo de fantasmas forjados pela nossa arte incorrigível de generalizar. não existe nada que não tenha ultrapassado a grande vagina do Tempo. no entanto, o que é este maldito soprar?! será possível que não desabemos na crença?! não é verdade então que, em círculos, retornamos sempre ao pó?!]&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18644030-4779446909186967055?l=danielbandini.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://danielbandini.blogspot.com/feeds/4779446909186967055/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18644030&amp;postID=4779446909186967055' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/4779446909186967055'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/4779446909186967055'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://danielbandini.blogspot.com/2008/10/o-fanatismo.html' title='[o fanatismo]'/><author><name>Daniel Fontana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03210056785320952524</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://1.bp.blogspot.com/_oZVDfUEuReo/SiKM7vZ2bmI/AAAAAAAAAAQ/I4u2Tra0dqw/S220/DSC02719.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18644030.post-7490323558237436525</id><published>2008-09-24T22:43:00.008-03:00</published><updated>2009-11-03T21:32:07.764-02:00</updated><title type='text'>[a desolação]</title><content type='html'>&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;oh, &lt;em&gt;vaga&lt;/em&gt;, lança outra vez este filho à terra!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;de onde jamais haveria de deixá-lo livrar-se...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;diga, irmão, uma só razão para permanecer,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;e, então, eu permanecerei!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;como hei de suportar?!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;não está tudo caindo?!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;não está tudo desmanchando?!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:'times new roman';"&gt;não são sepulturas que tremulam ali adiante?!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:'times new roman';"&gt;oh, obscenas miragens!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:'times new roman';"&gt;não é puro deserto o destino que me aguarda?!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:'times new roman';"&gt;sim - de deserto! -, exulta acelerado o meu coração&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p align="center"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;***&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:'times new roman';"&gt;qualquer idiota vence neste mundo,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:'times new roman';"&gt;todo bufão é apto a fazê-lo,&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:'times new roman';"&gt;e eu, no entanto, julgo-me incapaz.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:'times new roman';"&gt;sou um verme entre sete bilhões;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:'times new roman';"&gt;sou o pior entre todos!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:'times new roman';"&gt;- e isto lá diz respeito a homens racionais!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18644030-7490323558237436525?l=danielbandini.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://danielbandini.blogspot.com/feeds/7490323558237436525/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18644030&amp;postID=7490323558237436525' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/7490323558237436525'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/7490323558237436525'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://danielbandini.blogspot.com/2008/09/desolao.html' title='[a desolação]'/><author><name>Daniel Fontana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03210056785320952524</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://1.bp.blogspot.com/_oZVDfUEuReo/SiKM7vZ2bmI/AAAAAAAAAAQ/I4u2Tra0dqw/S220/DSC02719.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18644030.post-7141459466615547255</id><published>2008-09-24T22:24:00.006-03:00</published><updated>2008-10-10T09:10:18.742-03:00</updated><title type='text'>[a vaidade]</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;o autêntico sinal entre nossos &lt;em&gt;gênios&lt;/em&gt; é&lt;em&gt; &lt;/em&gt;um modo pervertido de vaidade, e inversão da vontade [ou &lt;em&gt;fraqueza de vontade&lt;/em&gt;]. neles o grau de humilhação amplia o orgulho e, atingir a lama e a podridão, corresponde a um máximo de bem-estar. em cada sinistro exemplar desses ratinhos urbanos pulsa tal crença [ou tal niilismo!]. portanto, &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;não é propriamente um deprimido o &lt;em&gt;gênio&lt;/em&gt; de nosso tempo: seu &lt;em&gt;modus vivendi&lt;/em&gt; é antes a reflexão da velha má-consciência, o gozo particular do ressentimento, a reserva individual de sofrimento como posse de uma riqueza sobre-humana - é ainda o&lt;em&gt; "abandono de si"&lt;/em&gt;. são os envenenadores do século! sobre eles, cairia perfeitamente bem aquela fábula do crucificado:&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;"vejam como sofro, vejam como suporto! não será um deus quem suporta tamanho martírio? não deve haver nele um monstruoso saber? estará guardando um grande segredo? - não serei, por acaso, o alvo e a expiação suprema de vossos pecados? eis o rio onde desagüam vossas faltas! a pura superfície de punição e penitência de toda uma época! - isto! admirem-me! louvem-me! posso resistir a todas as privações e castigos; não posso, entretanto, viver sem vosso amor e honra! - e aqueles por quê não olham? por quê justamente aqueles não tomam a sério? não está aqui algo digno a rebaixar-se? - pois a vocês estão reservados piores sofrimentos e piores labutas! e tarde será para arrependimentos! e, é certo, não neste plano baixo e aparente (que tenho eu com mundos inferiores?)! não, aqui as penas ainda são terrivelmente brandas! como tenho piedade deste vosso desprezo e arrogância! pobres almas!"&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;[e, talvez no íntimo, após suspirar, sussure de si para si: "mal sabem que a mim só a cruz causa prazer! só pregado na cruz inspiro afeto! como os invejo, tais desprezadores e superficiais! e a minha inveja é do tamanho da minha cruz.]&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18644030-7141459466615547255?l=danielbandini.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://danielbandini.blogspot.com/feeds/7141459466615547255/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18644030&amp;postID=7141459466615547255' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/7141459466615547255'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/7141459466615547255'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://danielbandini.blogspot.com/2008/09/vaidade.html' title='[a vaidade]'/><author><name>Daniel Fontana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03210056785320952524</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://1.bp.blogspot.com/_oZVDfUEuReo/SiKM7vZ2bmI/AAAAAAAAAAQ/I4u2Tra0dqw/S220/DSC02719.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18644030.post-8688553556150391107</id><published>2008-09-24T21:46:00.006-03:00</published><updated>2008-10-10T09:14:37.666-03:00</updated><title type='text'>[o verme]</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;estou definhando. tenho o tamanho de um besouro pequeno. todos sentem nojo de mim. não me surpreende, uma vez que vivo sujo e famélico. não sou um escritor, e tampouco sou qualquer coisa. a vaidade impediu-me a educação para a virtude. estou flutuando no mundo sem noção moral, sem respeito e sem deus. não existe nenhum deus a quem eu possa humilhar-me de joelhos. eu observo a cidade desde a minha pequena janela e não enxergo nada; é como se o mundo tivesse se desintegrado, como tudo houvesse sido eliminado, e restasse apenas a &lt;em&gt;mente&lt;/em&gt;. uma &lt;em&gt;mente&lt;/em&gt; doentia!... e a morte se recusasse a colher-me. é possível sentir a covardia correr entre as veias e formar coágulos enormes como cogumelos a ponto de explodir e destruir o teto sobre o meu crânio.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;***&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;só posso escrever em tom de despedida. um homem triste vive a lamentar-se e a dizer adeus a tudo: à amada, à poesia e à vida. e tudo é insuportavelmente hipócrita! em seu eu profundo quer dizer sim a tudo – até ao mais pequeno e ao mais desprezível. quando escreve, em terrível depressão, deseja afagar a si mesmo. na solidão, no desespero, na iminência do ato final, o poeta faz amor. seu discurso à humanidade é falso e alegórico. fala todo tempo como que diante de um espelho – e não se fala diante dos espelhos sem falsear. tudo, portanto, é exagerado [e, no fundo, excessivamente teatral]. no limite da expressão estética encontra-se o macaco. o simiesco é o fruto da expansão desmedida da consciência deprimida. a ordem perfeita exige do &lt;em&gt;homem&lt;/em&gt; o suicídio – mas o &lt;em&gt;homem&lt;/em&gt; é meramente um sonho...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;***&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;a morte me surpreendeu muito prematuramente. mas mil vezes seria preferível o túmulo a esta morte vil: a morte social. houve uma época em que o pressentimento da extinção era motivo para belos dramas: o sofrimento valia a tragédia. hoje não há mais beleza ou fruição estética no aniquilamento, só existe o frio e o vazio... para onde desabaram as cores e as metáforas?! para onde embarcaram os sóis?! sobrou unicamente uma rocha dura, uma pedra gelada e cinza: um mineral morto. o que deixo aos homens além de meus ossos?! é tudo o que, no fim, a terra requer desta passagem vã.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;***&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;em que contexto o homem abandona o mundo e entrega-se à dissipação?! eu pressinto o álcool comendo-me aos grãos, e nada me é capaz de impelir contra isto. é já a fatalidade quem brinca com o meu destino.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;se a &lt;em&gt;ordem&lt;/em&gt; trabalhasse no mesmo sentido; se a &lt;em&gt;ordem&lt;/em&gt; desprezasse a morte do indivíduo, por exemplo, como a ordem cósmica; se eu não nadasse contra a corrente; sim, então tudo estaria consumado – e, talvez, não houvesse mais sofrimento. porém, a &lt;em&gt;ordem&lt;/em&gt;, através de seus simulacros, sob a aparência do amor e a face da fraternidade, impõe a morte moral contra a destruição corpórea pura e simples.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;antes uma vontade de nada do que nada de vontade&lt;/em&gt; - na opinião do homem fraco, a &lt;em&gt;ordem&lt;/em&gt; é a verdadeira culpada da sua contínua amplificação de tibieza. ele, no limite de sua covardia, não mais admite em si um único indício de saúde; recusa-se a reabilitar-se e, por fim, só pode sobreviver da transgressão. o enigma vital do deprimido, e, no extremo, sua última possibilidade de existência como ordenação da vontade, é a morte voluntária - e a consciência de contribuir para sua própria danação.&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18644030-8688553556150391107?l=danielbandini.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://danielbandini.blogspot.com/feeds/8688553556150391107/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18644030&amp;postID=8688553556150391107' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/8688553556150391107'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/8688553556150391107'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://danielbandini.blogspot.com/2008/09/o-verme.html' title='[o verme]'/><author><name>Daniel Fontana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03210056785320952524</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://1.bp.blogspot.com/_oZVDfUEuReo/SiKM7vZ2bmI/AAAAAAAAAAQ/I4u2Tra0dqw/S220/DSC02719.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18644030.post-778573292777567267</id><published>2008-09-24T12:46:00.006-03:00</published><updated>2008-09-25T19:12:47.273-03:00</updated><title type='text'>[a arte pictórica]</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;o verdadeiro artista demonstra a fina percepção de que a arte pictórica pode cobrir o acontecimento histórico e retratar o cotidiano, e que, entretanto, para torná-la uma obra de arte universal, precisa preservar o fundo mítico do tema, conservar a onipresença do mito, que paralisa o Tempo e suspende a História, içando o homem a uma posição sobrenatural e divina; então, nestes acasos raros, a pintura não só enrijece e petrifica o acontecimento histórico, por natureza fugaz, porém o interpreta sob uma ótica elevada, ultrapassando o destino dos homens palpáveis e concretos, e atira um manto sobre todos os seus ancestrais e descendentes, para que estes, no futuro, repitam a dança eterna que emerge da tela.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18644030-778573292777567267?l=danielbandini.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://danielbandini.blogspot.com/feeds/778573292777567267/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18644030&amp;postID=778573292777567267' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/778573292777567267'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/778573292777567267'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://danielbandini.blogspot.com/2008/09/arte-pictrica.html' title='[a arte pictórica]'/><author><name>Daniel Fontana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03210056785320952524</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://1.bp.blogspot.com/_oZVDfUEuReo/SiKM7vZ2bmI/AAAAAAAAAAQ/I4u2Tra0dqw/S220/DSC02719.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18644030.post-5580647838121424533</id><published>2008-09-23T13:16:00.001-03:00</published><updated>2008-09-23T13:18:52.355-03:00</updated><title type='text'>PABLO NERUDA do "Poema 20" de "Veinte poemas de amor y una canción desesperada"</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;"De otro. Será de otro. Como antes de mis besos. Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos. Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero. Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido. Porque en noches como esta la tuve entre mis brazos, mi alma no se contenta con haberla perdido. Aunque éste sea el último dolor que ella me causa, y éstos sean los últimos versos que yo le escribo."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18644030-5580647838121424533?l=danielbandini.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://danielbandini.blogspot.com/feeds/5580647838121424533/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18644030&amp;postID=5580647838121424533' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/5580647838121424533'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/5580647838121424533'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://danielbandini.blogspot.com/2008/09/pablo-neruda-do-poema-20-de-veinte.html' title='PABLO NERUDA do &quot;Poema 20&quot; de &quot;Veinte poemas de amor y una canción desesperada&quot;'/><author><name>Daniel Fontana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03210056785320952524</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://1.bp.blogspot.com/_oZVDfUEuReo/SiKM7vZ2bmI/AAAAAAAAAAQ/I4u2Tra0dqw/S220/DSC02719.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18644030.post-7990338559315478559</id><published>2008-09-23T13:09:00.001-03:00</published><updated>2008-09-24T13:08:32.167-03:00</updated><title type='text'>[os mártires]</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;é como se eles expurgassem sozinhos as dores da Humanidade; protagonizassem sob a iluminação dos holofotes o drama que ocorre na penumbra e no subterrâneo dos seres, encarnando a tragédia de todos nós. Jamais existirão homens inteiramente imaculados. Os homens santos são aqueles que vencem a si mesmos, que conseguem superar a si mesmos. A nódoa que por ventura manche a história de um homem varia de indivíduo para indivíduo. Não existe uma referência que vigore para a totalidade do gênero humano e que possa medir a moralidade de todos os seus atos e suas idéias. No meu modo de enxergar as coisas, cada ser humano, logo que nasce, é dotado de uma balança específica e individual a qual durante todo o período de sua existência ele esforça-se por ajustar, tateando o seu próprio instrumento como um cego. Não existiu um só homem santo que tenha atravessado o mundo incólume, completamente imune ao desmedido, que em alguma oportunidade não tenha também sujado as mãos...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18644030-7990338559315478559?l=danielbandini.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://danielbandini.blogspot.com/feeds/7990338559315478559/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18644030&amp;postID=7990338559315478559' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/7990338559315478559'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/7990338559315478559'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://danielbandini.blogspot.com/2008/09/os-mrtires.html' title='[os mártires]'/><author><name>Daniel Fontana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03210056785320952524</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://1.bp.blogspot.com/_oZVDfUEuReo/SiKM7vZ2bmI/AAAAAAAAAAQ/I4u2Tra0dqw/S220/DSC02719.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18644030.post-8715192455050015619</id><published>2008-09-23T13:05:00.001-03:00</published><updated>2008-09-24T13:09:04.552-03:00</updated><title type='text'>[os poetas modernos]</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;Os historiadores da literatura transformaram os poetas modernos em homens diabólicos, difundiram uma concepção ectoplasmática em que os poetas são verdadeiros injustiçados dos céus. Eu posso imaginar estes historiadores elaborando suas teses onde os poetas aparecem como mártires que agonizavam numa cruz imaginária, como mendigos imundos e maltrapilhos com crânios maravilhosos, ou homens muito magros que tinham vermes enormes nos estômagos, etc. Por serem um pouco necrófilos, os historiadores invocam essas imagens em que homens de carne e osso passeiam como mortos-vivos, como cadáveres andantes e etc. Eu não acho que isto seja verdadeiro: porque o poeta é um burguês, e um burguês nunca é totalmente honesto. Se por um lado é verdade que mergulharam nas profundezas, e conheceram a maldição de viver onde não existe luz, nunca arriscaram verdadeiramente suas vidas. Os burgueses nunca mergulharam muito fundo no oceano. Podemos sinteticamente dividi-los em três classes – imagine, como disse um filósofo grego, que a água é a vida: alguns, dentre eles, correm na praia e atiram-se na água rasa, onde ficam se desviando das ondas maiores, ora enfiando a cabeça para debaixo d’água, ora subindo a superfície assombrados; outros, mais curiosos e mais espirituosos, desabam no alto-mar cheios de paixão com escafandros e com cápsulas de oxigênio nas costas, contemplando o universo marinho encerrados na sua proteção hermética; enquanto a maioria, legitimamente denominados os superficiais, permanece deitada na areia da orla, com a pele untada de protetor solar, espantando um enxame de insetos que bóiam no ar. Os burgueses! – eles vivem com medo de se afogar... Os poetas que suportaram as profundezas são raros, geralmente eles aprendem a nadar e movimentam os braços na direção da praia; a imensa maioria sucumbe aos seus instintos de classe, e vai ensinar poesia na academia ou declamar versos em bares. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18644030-8715192455050015619?l=danielbandini.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://danielbandini.blogspot.com/feeds/8715192455050015619/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18644030&amp;postID=8715192455050015619' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/8715192455050015619'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/8715192455050015619'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://danielbandini.blogspot.com/2008/09/os-poetas-modernos.html' title='[os poetas modernos]'/><author><name>Daniel Fontana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03210056785320952524</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://1.bp.blogspot.com/_oZVDfUEuReo/SiKM7vZ2bmI/AAAAAAAAAAQ/I4u2Tra0dqw/S220/DSC02719.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18644030.post-9085390153838063317</id><published>2008-09-23T13:02:00.001-03:00</published><updated>2008-09-24T13:09:25.880-03:00</updated><title type='text'>[esperança]</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;Indiscutivelmente Mandy sabia como me deixar deprimido. Tinha um prazer mórbido e dilatado em relembrar a minha esterilidade. Jamais vou compreender porque, justamente para ela, sempre me esforçava para me mostrar mais luminoso ou mais genial do que era na verdade. Se por um lado era visível que alguma parte minha apodrecia e que era pura carne putrefata – como se estivesse morta, como ela dizia –, eu juro que existia também uma outra parte, talvez imperceptível, insignificante, semi-oculta, minimamente quantificável, e que ela evidentemente desprezava, mas que se mantinha acesa, que ardia e crepitava entre os escombros, e que suficientemente friccionada, no futuro, explodiria como mil foguetes de artifício. Esta fração sobrevivente não tolerava que Mandy me espezinhasse. Embora fosse exteriormente incognoscível, a partícula de vida, o elemento de força e potência resistente em mim brilhava e reluzia como uma pira irreprimível e inesgotável.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18644030-9085390153838063317?l=danielbandini.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://danielbandini.blogspot.com/feeds/9085390153838063317/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18644030&amp;postID=9085390153838063317' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/9085390153838063317'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/9085390153838063317'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://danielbandini.blogspot.com/2008/09/esperana.html' title='[esperança]'/><author><name>Daniel Fontana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03210056785320952524</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://1.bp.blogspot.com/_oZVDfUEuReo/SiKM7vZ2bmI/AAAAAAAAAAQ/I4u2Tra0dqw/S220/DSC02719.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18644030.post-3610988188758965276</id><published>2008-09-23T13:00:00.002-03:00</published><updated>2008-09-24T13:09:56.661-03:00</updated><title type='text'>[a perdição]</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;Quando o vejo – perdoe-me a franqueza –, posso vê-lo extinguindo-se como a cabeça de um palito de fósforo: muito cedo veremos a sua hora derradeira. Sim, você agora está como que inutilizado em um leito de hospital alojado no seu próprio cérebro, e repleto de enfermidades até o pescoço. Não é possível que não perceba as mãos de enxofre da História em volta de seu pescoço lhe estrangulando! As pessoas o abominam – eu preciso dizer – porque você é uma espécie de inválido moral, de libertino paraplégico que não se dispõe a dar o menor dos passos em direção a Deus ou ao seu próximo. Que monstro você é! Tanto o seu corpo como a sua alma se converteram em uma câmara escura. Você se transformou em uma caverna na qual é impossível um resquício de luz poder penetrar; nesse seu intelecto satânico, me parece, nenhuma chama de luz é capaz de freqüentar ou vigorar estavelmente – eliminando, por assim dizer, a sua densa partícula negra – a não ser que seja inevitavelmente um fogo destrutivo e amaldiçoado. Você é um homem perdido, eis a verdade! Nunca irá exclamar, como Goethe no fim da vida, que deseja mais luz, mas suspirará algo como ‘mais trevas e mais tormentas’... Eu juro por tudo que me é sagrado que jamais compreenderei a razão pela qual você ainda se julga um poeta! – embora creia que esta seja apenas uma parte da arrogância comum a todos os seus ‘anjos’ que caem do céu renegando a Deus.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18644030-3610988188758965276?l=danielbandini.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://danielbandini.blogspot.com/feeds/3610988188758965276/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18644030&amp;postID=3610988188758965276' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/3610988188758965276'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/3610988188758965276'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://danielbandini.blogspot.com/2008/09/perdio.html' title='[a perdição]'/><author><name>Daniel Fontana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03210056785320952524</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://1.bp.blogspot.com/_oZVDfUEuReo/SiKM7vZ2bmI/AAAAAAAAAAQ/I4u2Tra0dqw/S220/DSC02719.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18644030.post-7265409266850360389</id><published>2008-09-23T12:57:00.001-03:00</published><updated>2008-09-24T13:10:19.351-03:00</updated><title type='text'>[objeção]</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;Eu prefiro imaginar os meus deuses voando no ar como serafins. Você não se comove com a visão daqueles anjos inocentes e puros pintados por Rafael? Não, é claro, você não deve se comover! porque detesta a paz, o amor, a beleza, a justiça, e tudo o que vem de Deus. O seu problema é a sua queda pela indecência. Não suporto a sua adoração ao que é horrendo e podre, sua predileção doentia às coisas que estão se degradando, se decompondo, se degenerando... Todo homem entretanto que for um perdedor completo, você o terá em alta conta. É por isso que você me odeia, porque não estou com você e seus ratos na cova de Satã!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18644030-7265409266850360389?l=danielbandini.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://danielbandini.blogspot.com/feeds/7265409266850360389/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18644030&amp;postID=7265409266850360389' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/7265409266850360389'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/7265409266850360389'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://danielbandini.blogspot.com/2008/09/objeo.html' title='[objeção]'/><author><name>Daniel Fontana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03210056785320952524</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://1.bp.blogspot.com/_oZVDfUEuReo/SiKM7vZ2bmI/AAAAAAAAAAQ/I4u2Tra0dqw/S220/DSC02719.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18644030.post-4231447979955461773</id><published>2008-09-23T12:27:00.003-03:00</published><updated>2008-09-24T13:10:33.512-03:00</updated><title type='text'>[o poeta corcunda]</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;em&gt;para bêbados&lt;/em&gt; - o significado de uma cerca para o ébrio, por exemplo, não é evidentemente o mesmo de um homem lúcido. No cérebro do bêbado, tudo está pendurado de cabeça para baixo; as idéias que faz das coisas dormem em seu teto como morcegos negros. Sim, ele altera o seu sono, o seu período de vigília – ele modifica o próprio ciclo da natureza! O bêbado não pode viver sem deformar, sem distorcer ou destruir o mundo; ele é o desagregador, o pária, a força individual em combate contra os elementos de coesão social, subvertendo a ordem superficial a serviço de uma divindade esquecida.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;***&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;[O bêbado é uma &lt;em&gt;segunda natureza&lt;/em&gt; do poeta. O poeta é aparentemente o bêbado primitivo - ou o ébrio com o estômago cheio. Em certas aparições, o poeta é somente uma farsa (uma fantasia incorporada ao bêbado original), ou a ausência de limites procurando expressão. Mesmo os bêbados têm &lt;em&gt;ereções&lt;/em&gt;...]&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18644030-4231447979955461773?l=danielbandini.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://danielbandini.blogspot.com/feeds/4231447979955461773/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18644030&amp;postID=4231447979955461773' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/4231447979955461773'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/4231447979955461773'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://danielbandini.blogspot.com/2008/09/o-poeta-corcunda.html' title='[o poeta corcunda]'/><author><name>Daniel Fontana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03210056785320952524</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://1.bp.blogspot.com/_oZVDfUEuReo/SiKM7vZ2bmI/AAAAAAAAAAQ/I4u2Tra0dqw/S220/DSC02719.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18644030.post-6017630509145458285</id><published>2008-09-23T12:08:00.005-03:00</published><updated>2009-05-14T12:54:52.193-03:00</updated><title type='text'>[o grande desgosto]</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;Às vezes eu penso que o Homem é como uma vela acesa na História; sim, uma vela com uma chama impetuosa e voraz numa montanha alta onde ela bruxuleia e ameaça extinguir-se e que será, num dia muito frio, definitivamente apagada pelos ventos congelantes do Tempo. Então tudo o que consideramos como sólido, como duradouro e definitivo, e que foi construído por nossa civilização durante os últimos milênios, será simplesmente apreciado como um sonho perdido na grande noite da História.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;***&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;È um erro estabelecer a regra do movimento da História como sendo uma polarização entre a civilização e a barbárie, ou uma dualidade entre o pensamento racional e o caos embriagado, que o solapa e o dilui de tempos em tempos. A ausência de uma explicação teleológica para o desenrolar da história, para o fundamento do universo, marca uma divisão cega entre a grande noite, na qual o homem inexistia, aguardando confinado em uma semente, e o intervalo mínimo em que nos foi propiciado um estreito facho de luz e no qual nós bocejamos sob o sol. É parte de nosso orgulho e de nossa arrogância conceber o mundo do modo como até o momento o concebemos, pretendendo que à toda complexa regulação da galáxia corresponda alguma área do nosso domínio intelectual. Imagine se uma lhama ou um antílope, por exemplo, emergissem por um instante de seu silêncio e nos dirigissem uma única frase – nosso mundo não explodiria de imediato? (e quantos lhamas e antílopes ainda falam em nosso tempo!)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;***&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;Estamos à beira da ruína, é o que eu pretendo afirmar! A presunção de que trajetória do homem é uma eterna e contínua evolução não resiste à menor aferição isenta. O conhecimento dessa verdade dolorosa, o conhecimento da natureza perecível, curta, mesquinha e egoísta, que possuímos como se fosse a jóia mais delicada que existe, deve nos orientar nos próximos séculos como uma bússola do Ser. Não podemos temer quebrá-la! Estamos por demasiado tempo acorrentados na rocha em que se transformou o Iluminismo. O objetivo final da existência não pode ser unicamente a conservação doentia de nossa civilização, ou nossa satisfação com nós mesmos, uma vez que não é a nossa civilização que está em jogo na História, mas nós mesmos. Não é mais possível suportar tanta repressão e tantos crimes contra nós próprios em nome da civilização. Viver não é a conservação ridícula da vida, não se trata meramente de uma questão de sobrevivência. Como dizia Nietzsche, é chegado o momento de viver perigosamente, sempre para frente, rugindo, como um rio.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;***&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;Eu desejo, do fundo do coração, que os jovens que nos substituirão sejam mais felizes do que fomos até agora, e que a próxima geração possa martelar os próprios cérebros e dançar sobre a carcaça da nossa sociedade atual.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18644030-6017630509145458285?l=danielbandini.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://danielbandini.blogspot.com/feeds/6017630509145458285/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18644030&amp;postID=6017630509145458285' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/6017630509145458285'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/6017630509145458285'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://danielbandini.blogspot.com/2008/09/o-grande-desgosto.html' title='[o grande desgosto]'/><author><name>Daniel Fontana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03210056785320952524</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://1.bp.blogspot.com/_oZVDfUEuReo/SiKM7vZ2bmI/AAAAAAAAAAQ/I4u2Tra0dqw/S220/DSC02719.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18644030.post-5332170886476055711</id><published>2008-09-23T12:00:00.003-03:00</published><updated>2008-09-24T13:11:32.159-03:00</updated><title type='text'>[o disfarce da Natureza; para Mandy]</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;Não me permitirei dar vazão ao impulso à verdade. Para quê? ‘Eis a vitória da lógica, o descanso da verdade... a dialética!’? A finalidade da dialética é a terra arrasada. O segredo da verdade é que ela não constrói. Não foi a verdade ou a razão quem erigiu os supostos “benefícios da civilização”, que você tão orgulhosamente celebra e difunde, porém, a ilusão da verdade. O trabalho de construir é sempre realizado pela arte, que é fundamentalmente enganadora. Todos os nossos monumentos estão sedimentados sobre a pedra essencial do erro. Em si, a verdade destrói, devasta e arruína; o procedimento da verdade, que pode ser comparado ao comportamento do pensador, é puramente de inspeção, de desconfiança, de suspeita e de exame. A lupa natural do filósofo serve para sondar e limpar o caminho, não para preenchê-lo: eis o método do Norte! Não é fortuito, por exemplo, que ali tenham crescido godos, visigodos, ostrogodos, vândalos, anglos, saxões, lombardos, vikings e borgundios. Na natureza, Mandy, nada é completamente aleatório, tudo surge por uma grande necessidade (uma necessidade que, entretanto, até agora, nos está oculta e que apenas tateamos). Na minha opinião, o destino do Homem é reconstruir Roma por toda a Eternidade – neste ponto, minha cara, somos tão infantis quanto aquela criança de Heráclito que erigia castelos de areia na orla; apesar de seu esforço jesuítico, ninguém alcançará maturidade suficiente para contemplar este reino completo, perfeito e acabado, que você julga nos esperar no futuro. A &lt;em&gt;Civitate Dei&lt;/em&gt; prosseguirá um sonho irrealizável, especialmente porque, em meu juízo, a divindade não caminha igual ao macaco, como vocês supõem, mas gira, roda, dança em torvelinho, flutua em círculos esvoaçantes, e retorna. O paraíso não é apenas uma visão! Ele não está parado no horizonte. O paraíso é real e se movimenta dentro de uma enorme cápsula cilíndrica manejada pela Natureza; e nela a Humanidade desfila rodopiante e inebriada tal qual uma hélice sagrada e inteligente, onde dança e estremece, geme e solta um murmúrio frêmito. Acredite, Mandy, o Éden não está desenhado em uma tela estática, previsto ou esboçado em algum livro santo; o Céu não está pendurado na parede dura do futuro: ele não é o sítio no Tempo e no Espaço onde nos isolaremos da Vida – o paraíso, ao invés disso, é o mergulho profundo e demorado no mundo, no que há de podre e santo na Vida. O paraíso, ao meu ver, é o próprio trabalho do homem de compor a si mesmo, a sua construção incessante; ele existe e impera, em uma escala flutuante e variável, dentro de cada ser. Em cada comunidade, vigora um grau particular de níveis paradisíacos; e, em cada mônada do universo, a parte luminosa da Natureza brilha e fulgura incandescentemente – sim, é lamentável, apesar de tudo, que a fração observável, o grau visível, curto e restrito, de nossa jornada, demonstre-nos precisamente o inverso e realce, por todos os lados, o impreciso, o inacabado, o imperfeito: talvez tenha sido este o truque, o golpe e o subterfúgio, que a Natureza encontrou – truque para o qual contribuiu a nossa crença nos sentidos: e porque acreditamos tão solidamente em nossas impressões momentâneas. Porque não pesamos adequadamente os nossos frutos, temos esta idéia niilista e desfavorável acerca do homem, e, como castigo, colocamo-lo a trabalhar (como se ele já não tivesse trabalho o suficiente!). Em um enigma:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;Em verdade vos digo que o Homem é um sopro. Não tocarás com as mãos jamais naquele que sopra.&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18644030-5332170886476055711?l=danielbandini.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://danielbandini.blogspot.com/feeds/5332170886476055711/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18644030&amp;postID=5332170886476055711' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/5332170886476055711'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/5332170886476055711'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://danielbandini.blogspot.com/2008/09/o-disfarce-da-natureza-para-mandy.html' title='[o disfarce da Natureza; para Mandy]'/><author><name>Daniel Fontana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03210056785320952524</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://1.bp.blogspot.com/_oZVDfUEuReo/SiKM7vZ2bmI/AAAAAAAAAAQ/I4u2Tra0dqw/S220/DSC02719.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18644030.post-7189886764622221856</id><published>2008-09-23T11:28:00.006-03:00</published><updated>2009-11-21T21:48:40.220-02:00</updated><title type='text'>[o pessimismo do Norte; diálogo imaginário]</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;Mandy analisava tudo atentamente, com sua sobrancelha arqueada, de dentro de seu frigorífico mental. Evidentemente, sob a sua temperatura ártica, eu sabia que ela era portadora de uma verdade e que, logicamente, minha elucubrações inflamadas não se sustentariam ao seu sopro de gelo: mas eu tinha o Sonho! Este fato lhe aterrorizava, porque, durante a sua vida inteira, Mandy se ocupou para que os sonhos infantis e inocentes da humanidade se dissipassem. Ela trabalhava para o engrandecimento moral do Homem – e tal caminho, segundo ela, só poderia ser alcançado através da repressão ao elemento individualista, desagregador e sonhador do homem. Possuía uma espécie de mantra interior: “ao Norte habita a Verdade! avante para o Norte, soldados da Razão!”.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;Embora o Norte esteja por toda a parte, inconcluso e precário, disfarçado entre o Caos universal, sob a bandeira da Lei e da Ordem, o Sul permanece pulsante e latente, nos escaninhos de nosso desejo. Entretanto o Sul, apesar de representar uma tentação constante (talvez indestrutível!), é um abismo ao qual poucos homens sucumbem. Outrora, lembro, eu marchei junto àquele exército pálido seguindo o Norte; porém, enquanto todos dormiam como pedras, eu lutava contra a minha alma desertora. E os sonhos não têm pescoço, não se pode estrangulá-los! O sonho é impalpável e etéreo, não pode ser liquidado ou extraído da mente de um homem como se procede, por exemplo, com relação a um tumor. Eu estava cansado de dormir sobre o chão frio, sob o cobertor de neve da Razão, sonhando com meu cérebro de gelo. ‘Foda-se o futuro! Foda-se o imenso sol que se levanta no horizonte inalcançável! Prefiro ser um extravagante vagando entre as nuvens a um mendigo na terra!’. Por ventura me perguntarão ‘para onde seguir?’: ora, para qualquer lugar, para o fundo do Inferno, desde que não seja para frente e contanto que não marchemos mais. Não existe mais uma só causa que valha a nossa marcha! Sinto no rosto o vento morno do Sul, penetrando-me através de meus poros e me carregando embriagado nos seus braços invisíveis; posso espiar Helena dançando seminua na clareira de uma floresta; contemplar Ísis fumando um cigarro numa varanda de Floripa (sorvendo aquele perfume inesquecível!) ou ouvir Nietzsche declamando versos na baía de Nápoles numa tarde chuvosa de verão:&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;em&gt;O Mediterrâneo jaz num sono branco&lt;br /&gt;A não ser por uma única vela púrpura.&lt;br /&gt;Rochedo, figueira, torre e porto mantêm&lt;br /&gt;A sua inocência pagã; as ovelhas&lt;br /&gt;Balindo nesta paz que nada quebra.&lt;br /&gt;Cansado de todo o Norte estava eu&lt;br /&gt;E do seu lento e metódico passo.&lt;br /&gt;Pedi ao vento que me elevasse&lt;br /&gt;E aprendi com todas as aves a voar&lt;br /&gt;E para Sul sobre o oceano me apressei.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;E, por alguns instantes, permaneci imerso nestes pensamentos. Embora a atração irresistível dos ventos do Sul tenha me suspendido os neurônios por certo tempo, Mandy ainda estava postada no centro do hall, ereta e concentrada, expressando com o canto da boca o seu descontentamento e o quanto zombava do meu ar sonhador. Eu percebi que a minha aptidão mongol para devastar não encontrava consentimento em seus olhos, que Mandy personificava o totem da velha sociedade (um imenso espantalho com o rosto da Morte!). Sob sua ótica, de seu observatório nortista, eu havia me desligado à veneração do templo, corrompido os ícones sagrados, dissolvido os monumentos simbólicos e renegado à minha descendência primordial: era um filho bastardo, um desviado. Ela pensava em silêncio: “oh, pobre órfão!”. Via-se na penosa e dilacerante obrigação do juiz e do sacerdote de nosso tempo. “Afinal somos todos irmãos! Gostaria de abrigá-los todos sob o calor de meus braços, mas definitivamente não posso. É a Lei! A Lei sob a qual todos estamos subjugados, a qual todos devemos respeitar – e com o máximo de zelo. Não pense que é fácil julgá-los! Mas não sou surda ao dever... Saiam, saiam daqui, seus corvos assassinos!”. Isto transparecia em seu semblante, simultaneamente severo e duro, tão pesado quanto deve ser o Norte, porém, misturado a uma compaixão indolente, que reconhece o quão impotente é perante as coações do Norte. Todavia, ela despertou de seu silêncio complacente e austero, recuperando a expressão que &lt;em&gt;a férrea mão da Necessidade&lt;/em&gt; supostamente exigia dela – com uma voz rouca e aveludada, saída de uma gruta escondida no espaço:&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;“Era o que eu imaginava: sua descrição do Poeta corresponde a de um vagabundo luminoso! Deus, como você é previsível (e asqueroso)! Você despreza o trabalho, o raciocínio regrado e a responsabilidade coletiva; rejeita a possibilidade do poeta, como um camelo, carregar algo nos ombros, é avesso a todo o tipo de opressão; não vê uma importância social no ofício do poeta – ao invés disso, você determina unicamente que ele fique distanciado da massa, protegido, isolado em um apartamento de marfim imaginário. E ainda assim considera-se moderno! É por isso que você é uma nulidade! Considera-se um poeta – e verdadeiramente o é, na sua concepção da poesia. Porque, na sua concepção de poesia, o poeta está liberado de escrever, está autorizado a se calar. Não é incrível? Eu sinceramente acredito que tudo o que você disse é muito belo, mas é estúpido e não faz o mínimo sentido. Entre as suas proezas não consta razoabilidade. Você defende uma vertente de anarquismo que idolatra o ócio e a preguiça, e não a Poesia! Está no século errado ou será que é cego - e não pode remover os seus antolhos? Não é possível que não veja em toda a volta os benefícios oriundos do trabalho organizado, o triunfo da Razão em cada vitória de nossa civilização... Imagine que sua representação do poeta se generalizasse: não desabaríamos no Caos? Sim, pois posso prever, nessa condição, homens e mulheres lutando uns contra os outros dentro de uma bacia, no fundo de uma cratera, trocando ofensas e matando-se mutuamente pelos bens mais comuns e pelas migalhas mais desprezíveis. É a sua visão do Paraíso! É o seu Natal sobre a Terra!”.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;Eis revelado o pessimismo sobre o homem! – a propósito, subjacente à toda consciência burguesa do mundo. O ideal burguês que ordena: ‘Não deixai o homem livre! Somos todos responsáveis pela segurança e preservação do coletivo!' Cada um deve impedir que se materialize a máxima &lt;em&gt;bellum omnium contra omnes&lt;/em&gt;. O homem solitário e livre, que dança nos sonhos dos poetas, é um verdadeiro lobo – o qual devemos exterminar! Temos a missão, como rebanho, de evitar a formação destes predadores. O &lt;em&gt;contrato &lt;/em&gt;está em jogo. Nada pode ser mais repugnante, para quem vem do Sul, do que tais fórmulas mortais, tais premonições negras e doentias proclamadas com ares catilinários.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18644030-7189886764622221856?l=danielbandini.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://danielbandini.blogspot.com/feeds/7189886764622221856/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18644030&amp;postID=7189886764622221856' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/7189886764622221856'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/7189886764622221856'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://danielbandini.blogspot.com/2008/09/o-pessimismo-do-norte-dilogo-imaginrio.html' title='[o pessimismo do Norte; diálogo imaginário]'/><author><name>Daniel Fontana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03210056785320952524</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://1.bp.blogspot.com/_oZVDfUEuReo/SiKM7vZ2bmI/AAAAAAAAAAQ/I4u2Tra0dqw/S220/DSC02719.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18644030.post-2919820529385938005</id><published>2008-09-23T11:19:00.001-03:00</published><updated>2008-09-24T13:12:22.076-03:00</updated><title type='text'>[as igrejas modernas]</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;O comércio da ilusão não é mais exclusividade de Roma. As igrejas se multiplicaram na era da propaganda. Onde o homem se sentar poderá ver o paraíso desenhado no teto.&lt;br /&gt;Os mercadores de sonhos estão camuflados e diluídos na imensa fauna social originada pelas teses liberais. Tudo é interpretado sob a ótica dos mercadores / Tudo cheira à feira!... E quanta coisa é em vão desperdiçada!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;Onde reina a democracia, reina a bagunça. O platonismo popular se terrificou. Forjam-se ídolos artificiais projetando sombras na rocha gelada do nosso cérebro. Os nossos melhores poetas, os poetas perdidos, estão submersos pela imensa camada de bosta cultural que a indústria caga sobre nós.&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18644030-2919820529385938005?l=danielbandini.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://danielbandini.blogspot.com/feeds/2919820529385938005/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18644030&amp;postID=2919820529385938005' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/2919820529385938005'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/2919820529385938005'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://danielbandini.blogspot.com/2008/09/as-igrejas-modernas.html' title='[as igrejas modernas]'/><author><name>Daniel Fontana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03210056785320952524</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://1.bp.blogspot.com/_oZVDfUEuReo/SiKM7vZ2bmI/AAAAAAAAAAQ/I4u2Tra0dqw/S220/DSC02719.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18644030.post-8371427487435981306</id><published>2008-09-23T11:04:00.003-03:00</published><updated>2008-09-24T20:12:00.733-03:00</updated><title type='text'>[gio]</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;Ele sentava e permanecia em completo silêncio. Sempre lendo e bebendo café preto. O cara necessitava tanto de café quanto de oxigênio. Juro que se ele permanecesse um dia inteiro sem café preto, no outro dia o encontraríamos morto no chão, como um peixe que passasse o dia do lado de fora do aquário. Assumia uma postura eloqüente e, dali a pouco, estava certo que ele emitiria um grande juízo sobre a existência. Tinha esta impressão todos os dias, mas ele sempre se manteve mudo. Nunca me disse nada. Não sei se ficou calado por humildade ou qualquer coisa que o valha. A verdade é que ele tinha uma expressão de quem realmente ia ao fundo das coisas, de alguém que não se deixava levar pelos nevoeiros. Quando ele despertava da profunda imersão em que se metia, dizia algo pela metade, soluçava, suspendia o pensamento em pleno desenvolvimento e se concentrava na parede, como se estivesse lendo algo escrito nos tijolos que somente ele era capaz de enxergar. Eu era pródigo em teorias, exemplos e viagens mentais. Perdia-me nadando entre a espuma, enquanto o Gio parecia querer morrer afogado lá no fundo. Tenho certeza de que ele é um grande gênio da nossa época. Só eu vou saber disso. Ele nunca saberá disso: é muito sábio pra ter uma conclusão desta espécie.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18644030-8371427487435981306?l=danielbandini.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://danielbandini.blogspot.com/feeds/8371427487435981306/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18644030&amp;postID=8371427487435981306' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/8371427487435981306'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/8371427487435981306'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://danielbandini.blogspot.com/2008/09/gio.html' title='[gio]'/><author><name>Daniel Fontana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03210056785320952524</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://1.bp.blogspot.com/_oZVDfUEuReo/SiKM7vZ2bmI/AAAAAAAAAAQ/I4u2Tra0dqw/S220/DSC02719.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18644030.post-3479026619049096925</id><published>2008-09-22T18:08:00.004-03:00</published><updated>2008-09-24T13:13:32.905-03:00</updated><title type='text'>[espasmo]</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;eu soube que precisava relatar o meu passado, que eu não possuía talento para criar estórias, que o relato autobiográfico era um desejo profundo do meu inconsciente, que era impossível, para mim, escrever sobre os movimentos abolicionistas e golpes militares e guerras de libertação, e que, na História, os mártires, os santos, os rebeldes e todos os heróis vítimas de injustiças e que morreram em vão existem no nosso tempo, perdurando em inércia, que estão caindo como moscas, sofrendo de diabetes e se drogando e cuspindo enormes pedaços de seus pulmões no chão frio e duro, morrendo de doenças hepáticas e tendo overdoses irreversíveis de cocaína, e que, portanto, é difícil de compreender, mas os grandes homens ainda vivem entre nós e estão se borrando nas calças em hospitais e manicômios, vomitando nos fundos dos botecos, em banheiros sujos e fétidos, e vivendo isolados e deprimidos como vira-latas magros, com os corações transformados em um tubérculo mortal, e que eles, os nossos heróis, não estão só petrificados nos parques, nos monumentos e nas igrejas, sendo alvos de excrementos de pássaros; sim, todos os gênios estão tomando cocô de pomba nos ombros e pisando em merda de cachorro, e estamos desolados porque as peças fabulosas que eles criam, seus sonhos de Shakespeare, se desenrolam na mente, porque a criação permite que o gênio mova o mundo com o seu intelecto, e estamos afundando sozinhos num mundo individual e egoísta e falecendo sem criar coisa alguma, vivendo num mundo ilusório que não legará absolutamente nada às gerações futuras. e, afinal, o que é a criação? eu sinto que é estar em cima de um muro e rodeado de nada e que criar é antes um ato de coragem e loucura do que de composição, não é como pegar barro e ficar amassando. arremessar-se e voar, sem asas, sobre o nada imenso, numa queda constante e interminável, desabando para o fundo de um abismo, incognoscível e infinito... sim, uma viagem! e o passado também é um vazio que não deixa ruínas. os escombros são já a forma do presente. eu preciso curtir o meu passado, sei lá, como uma viagem de ácido e não só fotografá-lo com olhos de peixe morto. e por que os nossos deuses pirados não escrevem? por que justamente eu que tenho um cérebro de repolho preciso escrever? porque eles estão todos fascinados com suas fossas, lá sozinhos, renunciando, envoltos com suas neuroses psicanalíticas, deprimidos com tudo tipo Holden Caulfield, porque, desde Freud, alguém razoavelmente inteligente é fissurado e obcecado e viciado em análise e auto-análise, e tudo vira matéria de erudição e conhecimento e nada, definitivamente nada, se transforma em vida. eu não quero escrever mais um romance pequeno-burguês-entediado. a nossa classe social está coberta de tédio e desolação, e a saída para ela se esconde na miséria e na privação. só a feiúra é capaz de nos abalar. tudo o que é feio é ovacionado. tudo o que é ridículo e simples é aplaudido. a beleza agora fede. o apogeu do capitalismo nos tornou o belo insuportável. eu cansei da paz. tudo dá sono e vontade de beber. nunca mais existirá aquela satisfação transbordante da nobreza. nada agora merece reverência. não há no mundo algo similar a uma arte imperial. nenhum homem a quem se prostrar, nenhuma obra, nenhum ideal! precisamos escalar os fatos como alpinistas. quem não está cercado de montes? quem se encontra só com o vento entre as cordilheiras? quem pode enxergar algo lá do alto? cada indivíduo percorre a vida com uma bicicleta imaginária cortando o espaço. flutuando no vácuo. em frente! em frente! como se o tempo não existisse. como Henry Miller no Brooklyn observando o outono despencar das árvores como páginas de calendário. eis um sonho fabuloso! dançando com os cães como os mendigos loucos de Amsterdã. dormindo na margem do Sena, sob as intempéries e as rajadas de ventos inclementes. contemplando Paris fervilhar ao fundo, boiando sobre tubos de néon coloridos que explodem feito estrelas cintilantes... os nossos intelectuais passeiam meio ébrios diante dos cabarets luxuosos, nos largos bulevares que parecem levar ao paraíso. arquitetando uma idéia de vida extra-terrena, talvez sobreterrena. o intelecto burguês! mergulhado na lama e na podridão. mais miserável que um piolho sujo. assolado pela depressão congênita. a plenitude material se revelou diabólica. nosso espírito ocidental se assemelha àquele viajante que sonhando atravessar os continentes tocava o mapa com os dedos das mãos. e quão imprecisa é nossa cartografia! ignoramos a escala louca da mente. no fim das contas, estamos sós, dedilhando primitivamente os nossos instrumentos, acreditando erroneamente dominá-los, que neles somos instruídos e providos de técnica e providos de virtuosismo. não somos virtuoses, e nem sequer somos eruditos. não temos ciência alguma das cordas que vibram em nós. nós, os desafinados! não compreendemos nada sobre o que ocorre no íntimo do nosso corpo e da nossa alma. tudo o que temos agora é um punhado de músculos e nervos e ossos. inversamente ao que cremos, nós, os vaidosos, nossa razão é superficial. nosso conhecimento das coisas é ilusório e decepcionante. conhecemos os nossos órgãos interiores e a finalidade de nossas ações como um caixa de música entende de Beethoven, e o fato de executarmos uma sinfonia, de darmos forma e andamento nela, não significa que compreendemos o seu objetivo, ou que seja obrigatório que venhamos a conhecê-lo no futuro. tudo o que fazemos se restringe a descrever em minúcias e em fórmulas os processos. não suspeitamos, em absoluto, o Quê anima. um sonho miserável e sujo é preferível à nossa ciência. eis o gênio carregando sua casa nas costas. o desespero oriundo da pobreza espiritual... é o pressuposto único da miséria material que acompanha ao gênio asceta. o sábio detém em si todas as chaves e pode abrir a porta que desejar. veja-se, por exemplo, os avanços superiores de Maquiavel. ele só não subiu mais porque já enxergava o suficiente de sua posição. as paisagens que nos descreveu são amplas e grandiosas, e tudo o que se estende abaixo de si parece estar localizado em um abismo muito longínquo. naquele tempo havia esperança. hoje os homens valorosos ambicionam o chão. deitam-se na sarjeta como porcos. todo o nosso ouro está imiscuído à lama e ao lodo. nossos gênios peregrinam através da massa urbana entoando hinos franciscanos, exaltando a pobreza e elevando os indigentes ao trono universal. tanto a beleza como os valores foram corrompidos. a missão da igreja expirou. os bispos estão nadando em dinheiro. a moeda é o novo corpo de Cristo. a idéia do catolicismo fracassou. nada temos mais a oferecer senão os ossos. tudo o que continha vida foi sacrificado. a natureza santa foi dissecada. por tudo que é sagrado, temos que acabar logo com deus! os deuses foram uma invenção fascinante. no teatro da História, os deuses representaram o apogeu sísmico do coro metafísico que flutua no firmamento como uma sonata eterna que envolve o plano do Homem. um triunfo da Arte que só poderá ser comparado à sua derrocada. a idéia cumpriu o seu ciclo. os povos se excederam com a piada, e hoje a idéia se encontra demasiadamente séria. a imagem do novo paraíso é como “a noite estrelada no Ródano”, do deus louco Van Gogh. rompe com a nossa visão calcificada do mundo. eu vejo ali o prenúncio do apocalipse de nossa época. e um poeta cantando: “brotam no firmamento dezenas de medianos sóis. são sóis amarelos. como fogos de artifício sobre uma cortina sombria”. e o retrato do abismo do mundo é uma cidade ardendo sob a órbita incrível dos sóis, e os edifícios queimando como imensas labaredas e refletindo no denso oceano os fogos embaçados e deformados pela dança frenética das ondas, e uma série de colunas incandescentes serpenteando numa chapa negra de água, e mesmo que fixos no céu, os sóis contraindo-se como um acordeão velho alucinado, e num intervalo do céu negro, revela-se um demônio gigante no horizonte longínquo da tempestade, o mar funde-se à terra até não se distinguir o imenso plano líquido do apertado corredor de areia que ondula junto com as águas coloridas. o reflexo dos sóis projeta no mar uma constelação de cometas e o espaço restrito de areia, triangular, avança confusamente num torvelinho, com o chão trespassado por uma densa cabeleira de algas, amparando um casal exótico e soturno, trajando roupas de festa, como se o ponto extremo do triângulo fosse culminar em alguma derradeira profundeza.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18644030-3479026619049096925?l=danielbandini.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://danielbandini.blogspot.com/feeds/3479026619049096925/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18644030&amp;postID=3479026619049096925' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/3479026619049096925'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/3479026619049096925'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://danielbandini.blogspot.com/2008/09/eu-soube-que-precisava-relatar-o-meu.html' title='[espasmo]'/><author><name>Daniel Fontana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03210056785320952524</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://1.bp.blogspot.com/_oZVDfUEuReo/SiKM7vZ2bmI/AAAAAAAAAAQ/I4u2Tra0dqw/S220/DSC02719.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18644030.post-8060203897807713541</id><published>2008-09-22T15:03:00.006-03:00</published><updated>2008-09-24T21:43:43.937-03:00</updated><title type='text'>[o filantrópo - fruto de uma boa digestão]</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;em&gt;filantropia&lt;/em&gt; - obedecemos hoje o hábito não muito tolo de julgar a filantropia um comércio interesseiro, e, conforme a moda liberal, em um pensamento atual, consideramo-na um duplo cálculo: em um sentido religioso, e, deve-se dizer, também político, influi como purificação da má-consciência e eliminação da culpa social; enquanto, em um plano individual, menos simbólico, mostra-se um estratagema de dependência pessoal. tais considerações, é certo, são naturais à &lt;em&gt;alma&lt;/em&gt; moderna, e ignoram os efeitos concretos para se concentrar exclusivamente na &lt;em&gt;idéia&lt;/em&gt;, naquilo que é a possessão coletiva de uma época, de sorte que o filantrópo tornou-se hoje mau e egoísta, e seus atos, expostos sob a luz do cálculo frio, são reputados tiranos. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;em contrapartida, e ainda sob o domínio do grande olho da moral, o miserável socorrido e assistido em sua pobreza, supostamente por &lt;em&gt;maus instintos&lt;/em&gt;,&lt;em&gt; &lt;/em&gt;é convertido em vítima; contraiu, sem o querer, uma dívida, de um único lance, material e moral.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;para o &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;liberal, e no limite para o materialista, não há grandeza em o homem ajudar o homem; entretanto se os homens forem sujeitos à sua própria sorte, não existirá possibilidade de reconciliação total, não haverá jamais algo como união mística.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt; o coração dos homens há de ser terno - nem que o seja somente em superfície! e, exista a alma ou só o oxigênio, creio que o senso de gratidão está presente em todos os seres. mesmo que uns sejam dotados de menor benevolência do que outros, a bondade dos demais os contamina positivamente; e, assim como um acontecimento depende de outro, através da lei de causa e efeito, ocorre igualmente que todos acontecimentos dependem do menor deles, em uma cadeia infinita: &lt;em&gt;o bem colherá o bem&lt;/em&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;o tempo, pode-se dizer, é tal teia cobrindo como um véu todas as épocas; uma “festa sempiterna” para a qual cada instante contém uma reserva insondável de força, uma energia inextingüível, e onde cada homem procura conhecer o seu espaço. assim, contra toda a ciência, um ato não se desmaterializa totalmente no presente, porém está como que condenado pela eternidade a se fazer ressoar. o que realmente importa é a existência eterna desta porta para todos os seres, sem o saberem, tornarem-se grandes.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;a boa ação, em unidade com a boa consciência, aproxima os homens; é a caridade, e não o egoísmo, que os multiplica e os torna fortes; à indiferença, só correspondem o desdém e o desprezo. o filantropo não é mais um, mas torna-se dois e, às vezes, mais homens (por participação!) – e todas as coisas grandes, por sua própria enormidade, só se pode sustentá-las por diversos homens.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18644030-8060203897807713541?l=danielbandini.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://danielbandini.blogspot.com/feeds/8060203897807713541/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18644030&amp;postID=8060203897807713541' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/8060203897807713541'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/8060203897807713541'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://danielbandini.blogspot.com/2008/09/o-filantrpo-fruto-de-uma-boa-digesto.html' title='[o filantrópo - fruto de uma boa digestão]'/><author><name>Daniel Fontana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03210056785320952524</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://1.bp.blogspot.com/_oZVDfUEuReo/SiKM7vZ2bmI/AAAAAAAAAAQ/I4u2Tra0dqw/S220/DSC02719.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18644030.post-5139491720232461503</id><published>2008-09-22T15:01:00.001-03:00</published><updated>2008-09-24T13:13:58.243-03:00</updated><title type='text'>[arte da fome]</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;O homem assolado pela miséria é terminantemente incapaz de escrever; a meu ver, o artista faminto é o criador da arte moribunda. Os mendigos, entre os grandes criadores da História, não foram além das religiões mórbidas. A boa digestão e a saúde do corpo, um certo ócio satisfeito do estômago, são sumamente necessários, uma vez que a arte é a plenitude do espírito e do corpo. A beleza não advém da escassez e da penúria – o belo é fruto da abundância e da boa fortuna. Há fossa demais no mundo, talvez como em tempo algum, e nem por isso possuímos uma boa literatura; muitos homens bons sucumbiram por tal erro de juízo, impondo-se disciplinas cadavéricas; e quanto mais se arruinavam em benefício da arte, mais eram absorvidos pelo enigma da morte, consumidos pela necessidade, sem escrever um só livro elevado; e, segundo tal lógica, o fracasso era atribuído genericamente ao mundo, ao mundo que não compreende o gênio, que não tem nervos suficientes para o sofrimento, que possui a mente estreita e limitada. O gênio desajustado é fruto da perversão da arte, da antilógica sombria que converte o homem degradado e infame em homem superior; de algum modo, em razão da preponderância do ressentimento e da inveja, da cobiça mais hostil e baixa aos bens dos afortunados, é o caminho aberto para o homicídio – e, em um acesso de humilhação orgulhosa, também para o suicídio.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18644030-5139491720232461503?l=danielbandini.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://danielbandini.blogspot.com/feeds/5139491720232461503/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18644030&amp;postID=5139491720232461503' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/5139491720232461503'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/5139491720232461503'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://danielbandini.blogspot.com/2008/09/arte-da-fome.html' title='[arte da fome]'/><author><name>Daniel Fontana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03210056785320952524</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://1.bp.blogspot.com/_oZVDfUEuReo/SiKM7vZ2bmI/AAAAAAAAAAQ/I4u2Tra0dqw/S220/DSC02719.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18644030.post-969120389015247873</id><published>2008-09-22T14:59:00.002-03:00</published><updated>2008-09-24T13:14:18.337-03:00</updated><title type='text'>[autocrítica]</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;A cavalaria jamais romperá a fronteira enquanto não se desligar da retaguarda, parar de olhar para trás, e dormir descansada na piscina do passado. O homem de ação determinará os olhos duros e fixos no limiar do horizonte. O historiador, por exemplo, é o arquétipo perfeito do homem mórbido com antenas de inseto. Os grandes profetas do futuro não serão como mosquitos rondando a água parada. A rebelião não manterá o pacto com a verdade, não lembrará nada deste desenterrar e deste exumar que constituem o juramento sacrossanto ao contrato universal dos fracos.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18644030-969120389015247873?l=danielbandini.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://danielbandini.blogspot.com/feeds/969120389015247873/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18644030&amp;postID=969120389015247873' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/969120389015247873'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/969120389015247873'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://danielbandini.blogspot.com/2008/09/autocrtica.html' title='[autocrítica]'/><author><name>Daniel Fontana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03210056785320952524</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://1.bp.blogspot.com/_oZVDfUEuReo/SiKM7vZ2bmI/AAAAAAAAAAQ/I4u2Tra0dqw/S220/DSC02719.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18644030.post-6257767962070318990</id><published>2008-09-22T14:55:00.004-03:00</published><updated>2008-09-24T13:14:39.231-03:00</updated><title type='text'>[no princípio]</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;... ainda quando criança, eu sonhava ser possível conhecer toda a História Universal. Ela estava inteiramente condensada em densas enciclopédias e não mais do que uma dezena de sábios tinha acesso ao seu manancial inesgotável. Estes senhores não conviviam em sociedade, não tinham nada, e até desprezavam a civilização. Estavam tão integrados à ordem do mundo que, podia-se dizer, estavam ali desde sempre, escondidos, e em cada ponto do universo eles vigoravam e sopravam em consonância. Os mestres com os quais eu sonhava eram anciãos à beira da morte, com a idade do Tempo, com a pele descascando e caindo no solo, eram indianos marrons que entendiam todos os idiomas vivos e extintos em seus pormenores, em suas sutilezas, com todas as suas derivações e dialetos, e etc. Eu tinha verdadeira fascinação por homens afastados ou marginalizados; tinha em alta conta todos os humilhados. Os meus gênios viviam em existência paupérrima no deserto, nas selvas, nas montanhas ou no fundo do mar... Considerava-os, a qualquer instante, a ponto de desvendar o mistério da Criação. Em um intervalo luminoso, eles recitariam um poema eterno, ao som de cítaras, em escalas impossíveis, revelando o início e o fim de todas as coisas onde a própria vida exalaria de seus versos descrevendo espirais de incenso no ar e impregnando a natureza inteira com seu véu de energia...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18644030-6257767962070318990?l=danielbandini.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://danielbandini.blogspot.com/feeds/6257767962070318990/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18644030&amp;postID=6257767962070318990' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/6257767962070318990'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/6257767962070318990'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://danielbandini.blogspot.com/2008/09/no-princpio-ainda-quando-criana-eu.html' title='[no princípio]'/><author><name>Daniel Fontana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03210056785320952524</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://1.bp.blogspot.com/_oZVDfUEuReo/SiKM7vZ2bmI/AAAAAAAAAAQ/I4u2Tra0dqw/S220/DSC02719.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18644030.post-7403924324347810923</id><published>2008-09-22T14:51:00.007-03:00</published><updated>2009-11-21T21:50:36.464-02:00</updated><title type='text'>Esboço para um Romance Natimorto</title><content type='html'>&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;Maint joyal dort enseveli&lt;br /&gt;Dans les ténèbres et l’oubli,&lt;br /&gt;Bien loin des pioches et des sondes;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mainte fleur épanche à regret&lt;br /&gt;Son parfum doux comme un secret&lt;br /&gt;Dans les solitudes profondes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;BAUDELAIRE&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;CENA I&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;Um okapi flutua no centro do hall seguido por uma imensa cauda flamejante. O crânio azul-esverdeado gira em rotações inquantificáveis e torce e estrangula o pescoço. Escalando o ar como uma máquina desgovernada. Escondido no fundo remoto e cego onde um cálice gigantesco e borbulhante mergulha em vapores. A grande neblina se espalha. E uns caras índios-astecas-maometanos, totalmente doidos tipo Isaac Lee, inalam a fumaça vinda de um narguillé.&lt;br /&gt;... Encenando a Dança dos Camponeses, de Rubens! Os seres amalgamados em união cósmica. Já eram, na época, as mulheres a força motriz da humanidade. Latem, latem! A flauta ressoa – em marcha, em marcha... Girando. Hesitam sobre o chão movediço que engole os seus pés e avança sobre suas tíbias. L’amour! A grande valsa da eternidade afogando os seres.&lt;br /&gt;O enredo de um filme pornográfico desfila na camada visível da Mente. A imagem da História é a fornicação. Ininterruptamente eras penetram eras. Não é a Vida uma puta insaciável (ou o Tempo um pênis colossal em seu pleno exercício imemorial e eterno)? Exilado no porão do Tempo Napoleão está fodendo Vercingetorix.&lt;br /&gt;... Sonhando com a calcinha de renda vermelha-rosada-crua que paira sobre a altura dos joelhos dela. A imagem de seu sexo desnudo e resplandecente descola vagarosamente do meu cérebro e sucumbe, vaza e escoa entre a corrente nervosa, umedecida e espremida nos meus testículos, arfando, gemendo, uivando, ganindo, como uma locomotiva perdida engolindo o abismo. E, de súbito, o Tempo morre, os continentes desaparecem, as florestas são engolidas, os livros queimam, e tudo, completamente tudo, todas as coisas perecem e caem fulminantemente no Nada.&lt;br /&gt;... Ísis dançante através de um frasco cheio d’água, deslizando como uma lesma na câmara ocular, e seus olhinhos dançam e vibram. No extremo, isto é uma despedida; é um último olhar desesperado e triste; uma elegia velha e mofada. Aos poucos, como uma música distante, içando-se sobre círculos de fumaça, ela ressurge com o olhar mais misterioso e febril e mortificado que eu jamais vi, como os olhos fúnebres de um corcel abatido, com o pescoço inclinado em diagonal, morto sobre o meu tórax, em um infindável inverno ártico, nos dias mais frios e congelantes que já existiram sobre a terra, em que eu estive sepultado vivo sob uma superfície de gelo. Ísis, doce Ísis! Um suspiro morre lentamente no passado como a fumaça do cigarro...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;***&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;Ah, Lua! aspiração imutável do poeta. Eleva-se sobre densa névoa. Canta e bóia sob o disco cintilante pendurado no teto do céu. Ilumina os seios fartos da negra. É impossível não lhe dirigir uma canção! Todo o homem dedica uma vez na vida um poema à Lua. Um poema sublime à negra que cresce como um cancro à parede firme do membro. Um poema sifilítico, no sentido profundo do termo. Um poema amargo e funesto. Um poema tétrico. Um poema autocanibalesco e suicida.&lt;br /&gt;O aracnídeo negro-aveludado escala o muro do presente erguido sobre o tapete da Miséria. Além do limite, numa janela sem fim, contempla o futuro com seu periscópio vítreo. Em camadas finas surgem os espectros do Tempo, mais sólidos e reais, e se desfazem e desfiam como barbantes de plástico até completamente desaparecer.&lt;br /&gt;Na madrugada, com uma fina luz, marchando em florestas à beira da Lagoa. Hey, Gio! O suave conhaque que nos espera sobre uma mesa velha e isolada. Eis o derradeiro veneno, o derradeiro néctar. Uma lamparina acesa, entre os livros comidos pelas traças, e as paredes de madeira despedaçadas e quentes nos guardam o conforto do futuro, a enorme catarata do crepúsculo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;***&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;O Homem desmaiado e nu sobre os ladrilhos gelados, e sozinho igual a um cadáver podre nadando no próprio sangue espesso como a noite, disfarçado na escuridão inviolável, imóvel e silencioso, mergulhado no agradável e caótico lago azul-madrepérola do tédio. “Está tudo escrito! Nada há mais a escrever!”.&lt;br /&gt;Estou em cima do alçapão de barro assentado sobre a loucura. Tão inerte quanto uma estátua. E as luzes estão se apagando...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;***&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;Schlap! Schlap! Um dálmata que havia adormecido junto ao meu corpo.&lt;br /&gt;“Outono já”! (Mandy com O Homem Revoltado, de Camus)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;***&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;“Eles divinizaram a blasfêmia!”. As palavras se derramaram sobre o meu cérebro como gotas de ácido sulfúrico. Eu nunca escreveria uma frase como esta. Quando imaginava escrever tratados aduladores sobre os supostos poetas malditos que infernizaram a eufórica burguesia dos séculos anteriores, muitos adágios surgiram na minha mente, e toda a espécie de ofensas e provocações, mas jamais me ocorreu que estes amaldiçoados formavam um tipo raro de endeusadores. Eu previa me tornar um destes flautistas na velhice assim que deixasse de tomar conhaque e pensar em vaginas. Eles transcenderam a calúnia. Só pode ser um Deus o condenado que compõe sonatas! - e tais poetas compuseram músicas perfeitas, e harmoniosas, sobre seu cadafalso; eles encenaram peças diabólicas, transfigurados e dopados, para transmitir a beleza. A respeito de nossos dias, eu penso que a indústria transformou a beleza em uma matéria suburbana ou ultraurbana [eis a opinião de um condenado]. Quem não pode consumir a beleza que circula na esfera burguesa, e quem não pode conceber a beleza reproduzida sob o signo da uniformidade, da repetição e da previsibilidade, e quem não pode respirar o ar do método da ciência natural, refugia-se no crime. Empresta ao crime um nome sagrado. Os comportamentos marginais, agressivos, criminosos, anti-sociais, de pura aniquilação, são cobertos de conteúdo artístico. Os antigos valores nobres de ordem e simetria tornaram-se obsoletos e repugnantes – e hostis à beleza moderna. A atmosfera viciada, depravada, torpe, devassa e profana que me circunda, e envolve toda a massa de perdedores, justifica porque o ladrão é o meu herói predileto neste Navio dos Loucos que se tornou nosso tempo. Enquanto os nossos próceres infames copulam bêbados e disputam um faisão ilusório suspenso no anzol da Morte, o verdadeiro herói periférico e imoral lhes toma as últimas migalhas sobre sua pobre balsa flutuante, e naufraga sozinho e delirante levando nas mãos os últimos resquícios com os quais é possível sobreviver com dignidade. Sim, hoje todos morremos solitários e melancólicos no fundo de um poço individual, deslizando no interior de um longuíssimo cano cilíndrico como num escorregador, experimentando um coquetel interminável de drogas mortíferas. Eu mesmo sinto que estou cruzando um daqueles túneis de esgotos fétidos, que estou em uma parte subterrânea de Paris ou de Londres, mas, ao mesmo tempo, também estou em um recanto além delas, abaixo delas – talvez como um rato?...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18644030-7403924324347810923?l=danielbandini.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://danielbandini.blogspot.com/feeds/7403924324347810923/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18644030&amp;postID=7403924324347810923' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/7403924324347810923'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/7403924324347810923'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://danielbandini.blogspot.com/2008/09/esboo-para-um-romance-natimorto.html' title='Esboço para um Romance Natimorto'/><author><name>Daniel Fontana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03210056785320952524</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://1.bp.blogspot.com/_oZVDfUEuReo/SiKM7vZ2bmI/AAAAAAAAAAQ/I4u2Tra0dqw/S220/DSC02719.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18644030.post-115081960622126490</id><published>2006-06-20T13:01:00.004-03:00</published><updated>2008-09-22T15:47:20.052-03:00</updated><title type='text'>[a alma do poeta]</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;Os poetas não são canários, são homens! Por que cantariam o tempo inteiro? Imagine-se um homem que vivesse a declamar: ele não nos pareceria estúpido e arrogante? Se a Poesia nos arrebata, é justamente por seu caráter episódico e singular. O poeta nos dá um mundo onde nos apetece viver; suspende-nos por um instante acima da Terra, içando-nos a um ponto de onde podemos contemplá-la estática e maravilhosa: e assim a Poesia nos fornece uma Helena pela qual nos sacrificamos. Com as pontas dos dedos, pinçamos um tesouro inesgotável através do qual a Vida torna-se mais digna; seguimos para o túmulo com uma majestosa impertinência e abrindo mão de todas aquelas jóias que encerrávamos em nosso coração; cada pequena fração do tempo, por mais ridícula e medíocre que pudesse parecer, é revestida de uma nobreza inédita e assombrosa, como se fôssemos carregados por uma brisa fresca e inebriante.&lt;br /&gt;Ah, o poeta é um comerciante de sonhos!... Através de suas mãos generosas nos fornece uma profusão exuberante de mundos ilusórios sobre os quais ondulamos em êxtase; retira de sua arca encantada um milhão de diamantes do Espírito. E que esplêndida abundância jorra de seus versos! A verdadeira poesia, como o poeta essencial, é irredutível e interminável. Um poeta mede a altura do incomensurável. Por mais que os interpretemos e tentemos penetrá-los através das diversas portas de que são providos, esbarramos sempre num alçapão. O ideal é que os deixemos quietos, sem serem molestados. Mas não tenhamos medo: eles ainda cantarão! Eles naturalmente romperão seu silêncio e nos dedicarão uma Nova Música. Se hoje não a compuseram ainda, isto se deve estritamente à necessidade permanente de cantar que reclamamos deles. Outorguemo-los então o direito ao sigilo, e a um segredo passageiro: é imprescindível que hibernem durante o tempo necessário, para que depois no-lo revelem belo e luminoso!&lt;br /&gt;Observando-os percebe-se um frêmito murmúrio na sua quietude, há como que uma súplica por paz temporária e descanso às suas cordas vocais – e talvez para que vibrem no futuro mais fortes e mais harmoniosas do que nos soam agora... Quiçá então se nos estendam tapetes reais sob nossas botas! Pois não são por coroas ou cetros que se distinguem os nobres e os monarcas, mas pelo quanto de poesia que lhes infla o espírito.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;***&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;E onde estariam os nossos reservatórios e os nossos compressores para a Poesia?... Seremos porventura finos como agulhas, e por isso explodimos o balão do Espírito? Ou senão onde estaremos abrigando o nosso Espírito – estará ele vagando como espectro?...&lt;br /&gt;A Poesia é hoje uma flor exótica no jardim de nosso tempo. Em nossa época, tão logo se descobre um poeta, como atrás de um marginal criminoso, se estende igual a uma sombra uma taxionomia repugnante, e o classifica na mais baixa e vil categoria. O poeta é algo semelhante a um delinqüente social. Para ele o direito e a moral que compõem as nossas muralhas se tornaram intoleráveis, e como um selvagem ele não cessa de se dirigir à floresta, cada vez mais isolado como um ermitão no meio da metrópole. Paira, assim, sobre sua cabeça, uma nuvem negra, como uma espécie de aura maligna e diabólica, prestes a desabar... O poeta é um demônio urbano!... que atrai para dentro de seu peito todo o Mal que germina nos subúrbios das cidades, e como num liquidificador o dissolve e o purifica em um fluído mais homogêneo e apetitoso. O poeta é nesse caso um encantador. Ele ludibria a Justiça através de seus versos perfeitos, envolvendo-a por uma densa névoa de olvido.&lt;br /&gt;Quando emite sua poesia, adormecida nos seus pulmões, é como se finalmente abandonasse o fundo de sua caverna, onde jazia até ali nas trevas reprimindo o seu Instinto. A história luminosa do Zaratustra é reencenada – e o Único Poeta reencarna! Como um sátiro, peregrina pelo mundo com seus cascos de bode ensinando sobre a animalidade do homem; traz a sabedoria da natureza para o palco onde macaqueia o homem civilizado, recordando-lhe encantos que este havia recalcado. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;***&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Porém onde se escondem os nossos poetas – estarão eles extintos?! Outrora se exumou o cadáver da Poesia, e no entanto não havia falecido. Não deveremos desprezar jamais o poder de ressurreição desta deusa. Por ora, temos de desvendá-los (nós, os mineiradores da arte), estes homens-toupeiras, camuflados na terra, estes poetas sombrios de nossa época, com lanternas acopladas aos nossos capacetes, rompendo o eclipse que apagou o sol como uma esponja. O nosso ofício será durante os dias e as noites esquadrinhar os céus e os subterrâneos, e entre os escombros do velho mundo, assim como a um minério raro, com uma sonda localizar os nossos gênios – porque nos valerão igualmente um tesouro.&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;***&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Hoje os cômodos de nossos apartamentos se transformaram em cárceres privados; e a praça pública nos parece um ninho de ratos – tal é o pensamento mórbido do Poeta de nosso tempo. Em delírio, ele percorre a Terra com sua flauta celestial espalhando réquiens; descreve com minúcias o espetáculo inaudito de seu desespero. O pobre maldito cruza o seu horizonte anódino, pelos becos e centros fedorentos, rastejando seu esqueleto anômalo, ofendendo o olfato da sociedade com sua moralidade podre e degenerada. Como desejaria estrangular-se, este Poeta!&lt;br /&gt;O que olham, não crêem [e, inversamente, sobre o que depositam fé, não podem ver!]. Tudo os repugna e tudo é indiferente à sua adoração e ao seu respeito. Cada objeto que eventualmente os esbarra é mergulhado num oceano de ácido sulfúrico, e nada sobrevive intacto ao seu bafo corrosivo; nada bóia nele sem sair dali enrugado e velho, ou com a aparência disforme e assimétrica. Quando falam, é como se borrifassem napalm sobre a carne flácida-desgastada de seus pares.&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;***&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;(é um rebelde formal este poeta!... – não derrete nunca algo verdadeiramente sólido. Frágil e inofensiva condição de nossa Poesia! Do interior de nossos parques, no centro da urbe, ouve-se o brado do perdido na Selva, urrando aos céus enquanto as saídas estão desenhadas no chão.)&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18644030-115081960622126490?l=danielbandini.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://danielbandini.blogspot.com/feeds/115081960622126490/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18644030&amp;postID=115081960622126490' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/115081960622126490'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/115081960622126490'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://danielbandini.blogspot.com/2006/06/alma-do-poeta_20.html' title='[a alma do poeta]'/><author><name>Daniel Fontana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03210056785320952524</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://1.bp.blogspot.com/_oZVDfUEuReo/SiKM7vZ2bmI/AAAAAAAAAAQ/I4u2Tra0dqw/S220/DSC02719.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18644030.post-114986139712233492</id><published>2006-06-09T10:41:00.009-03:00</published><updated>2008-09-22T17:02:07.928-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;em&gt;"Esta manhã, antes do alvorecer, subi numa colina para admirar o céu povoado,&lt;br /&gt;E disse à minha alma: Quando abarcarmos esses mundos e o conhecimento e o prazer que encerram, estaremos finalmente fartos e satisfeitos?&lt;br /&gt;E minha alma disse: Não, uma vez alcançados esses mundos prosseguiremos no caminho."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;WALT WHITMAN&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;O cometa...&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;Ah, os seres criativos que dormem em seus aposentos tétricos;&lt;br /&gt;os gênios que formulam suas filosofias sob tetos precários, cercados por paredes duvidosas e precárias e repletas de infiltrações;&lt;br /&gt;e os artistas doidos que se arrastam exaustos pelas ruas imundas, em trapos igualmente imundos, sob o sol escaldante dos trópicos;&lt;br /&gt;a gente humilde que ignora para onde desce o sol quando mergulha nas profundezas do Guaíba;&lt;br /&gt;os superdotados que preferem o isolamento carcerário a sobreviver sob a tutela dessa sociedade decadente;&lt;br /&gt;as naturezas religiosas que desapareceram totalmente sob a névoa libertina do final do século passado -&lt;br /&gt;por favor, um gás claustrofóbico para salvar nossos deuses!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a burguesia embriagada, sob efeito de vapores ordinários;&lt;br /&gt;as drogas sublimes que nos transportaram para o centro da Terra, onde o fedor é absolutamente divino e podre;&lt;br /&gt;e os artistas convencionais que um dia ainda eliminarão completamente as criaturas incríveis, liquidando-os com seu aborrecimento burguês;&lt;br /&gt;o proletariado que procriará até a insuportabilidade total seus próprios porcos, e seguindo a onda herege permanecerá cristão até os ossos, e na fogueira invocará o nome de Cristo!...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a Arte prosseguirá firme, sob a luz duvidosa de um apartamento frio, onde um perdedor qualquer se elevará aos céus, dopado e em êxtase profundo, escrevendo cometas incandescentes sobre o céu negro da Terra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;Daniel Fontana&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;strong&gt;“o cometa porto-alegrense...”&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;Esta poesia, que a princípio seria denominada de "Cometa porto-alegrense", foi escrita sob uma tempestade "tétrica" (como sugere seu primeiro verso), no início de novembro de 2005, após uma tarde fervilhante típica da capital gaúcha. Trata-se, no fundo, de uma auto-homenagem que se estende a todos os fabulosos artífices da Arte que são perdedores completos.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Pode-se sustentar que foi a minha primeira reflexão genuinamente porto-alegrense. Naqueles primeiros dias, recordo-me da impressão profunda que o Sol de Porto Alegre me causou – daí a atmosfera abafada dos versos. No limite, ela não é tecnicamente uma poesia, mas apenas um delírio visionário. Escrevi-a de um jato, tentando vertiginosamente captar os fantasmas que brotavam espontaneamente e de maneira caótica no centro da sala de meu apartamento mal iluminado.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;***&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Historiador de pouca inspiração, porém de formação teórica sólida e consistente. Aos poucos, entretanto, seus antigos alicerces estão desabando – que a verdade seja dita: em benefício da Arte! Sua graduação foi coroada por uma excelente monografia sobre o pensamento de Nietzsche a respeito da História, especificamente no seu primeiro período de fecundidade, na metade da década de 1870.&lt;br /&gt;Estudou diversos filósofos e escritores melancólicos. É igualmente um admirador profundo dos escritores russos, sobre os quais se debruçou inteiramente na primavera de 2005. Em última análise, não é um poeta, e pode-se argumentar que sequer é também um bom leitor de poesias, entretanto, nutre uma idolatria desmedida por Arthur Rimbaud, a quem enxerga como uma espécie de "alma gêmea" – como um autor que ultrapassa totalmente a barreira protetora da Arte.&lt;br /&gt;O autor se aventurou por diversas áreas do conhecimento e campos da Arte. Recentemente deixou a cidade de Florianópolis para se tornar um escritor. Até agora é um fracasso retumbante! Trabalha atualmente no setor de montagens e na administração de uma loja de móveis pertencente a seu irmão, com orgulho e dedicação.&lt;/span&gt; &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18644030-114986139712233492?l=danielbandini.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://danielbandini.blogspot.com/feeds/114986139712233492/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18644030&amp;postID=114986139712233492' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/114986139712233492'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/114986139712233492'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://danielbandini.blogspot.com/2006/06/esta-manh-antes-do-alvorecer-subi-numa.html' title=''/><author><name>Daniel Fontana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03210056785320952524</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://1.bp.blogspot.com/_oZVDfUEuReo/SiKM7vZ2bmI/AAAAAAAAAAQ/I4u2Tra0dqw/S220/DSC02719.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18644030.post-114658991283129523</id><published>2006-05-02T14:10:00.025-03:00</published><updated>2009-11-22T12:54:47.010-02:00</updated><title type='text'>[a psicologia religiosa]</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;O etéreo se solidificou sob o olhar cristalizador de biólogos, físicos, químicos, médicos, historiadores, antropólogos, etc. Terá a ciência esfriado o velho &lt;em&gt;sol&lt;/em&gt;?&lt;em&gt; &lt;/em&gt;E para quê precisamente a ciência? - se o seu efeito mais profundo é o vagar assombrado e abandonado a si próprio da humanidade. Será o raiar do homem &lt;em&gt;sem consolo&lt;/em&gt;?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;***&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;Estamos privados do sentimento religioso. A essência do sentimento religioso independe do império da religião; tal sentimento, ou, se quiserem, a presença do &lt;em&gt;divino &lt;/em&gt;e do &lt;em&gt;sublime&lt;/em&gt; no coração humano, não é uma hipótese racional, não é uma idéia, aqui não influi um juízo - na ausência de um termo melhor, creio que é uma espécie de &lt;em&gt;estado&lt;/em&gt;. O cristianismo, e todas as religiões positivas, é uma idéia. A construção de um deus é sua matéria bruta, o substrato primário, o primitivo mental em si. Temos então uma &lt;em&gt;teoria&lt;/em&gt;! um suporte, uma tábua - no sentimento, entretanto, há qualquer coisa impenetrável.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;*** &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;Como conferir a Deus a figura lamentável do homem – do ser desesperado, que tem sua felicidade coibida e ameaçada a todo momento por sua maldita condição perecível? Todos os vermes e bactérias da Terra testemunham a ultrajante condição humana! É compreensível, no entanto, que não sabendo a quem apelar, urre o homem a Deus como a um irmão, ou a um pai. Que excessiva baixeza de Deus, preocupado com toda a sorte de pequenos conflitos! Não é, todavia, sob esta sombra de Deus, repugnante e vil, que a nossa época se rendeu ao domínio do ateísmo.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;***&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;Escuta-se de bocas religiosas ser o individualismo imoderado de nossa época o principal inimigo da idéia cristã [e a idéia cristã é a idéia moral, &lt;em&gt;par excellence&lt;/em&gt;]. Tal evento explicaria a indiferença moral que nos move, e mesmo uma certa inclinação doentia em inverter a ordem moral. Embora subsista no fundo das ações, sem entretanto ousar impor-se, como uma ratazana, a moral não é mais a lei que disciplinava e orientava os homens, a espada que pairava sob o crânio da ação: ela sobrevive apenas como prova, como retrospectiva, e como juízo tardio. A consolidação das &lt;em&gt;idéias modernas&lt;/em&gt;, que representam a consagração da idéia moral e do instinto gregário,&lt;em&gt; &lt;/em&gt;acima de tudo a vitória da democracia,&lt;em&gt; &lt;/em&gt;teve um efeito demasiado ambígüo: o disfarce tornou-se excessivamente colorido - todas as cores agora merecem lugar na sua vestimenta! Tudo é passível de derrubada, destruição, adaptação, etc. A queda da &lt;em&gt;Igreja&lt;/em&gt;, a idiossincrasia moderna no terreno da moral, não a fez desaparecer - a velha ratazana -, porém, perder profundidade, espessura - e &lt;em&gt;sentido&lt;/em&gt;! A emergência do homem de mil peles, o ator moderno, transformou a religião em um abrigo precário, um templo de argila movediço, abandonado à mais caótica confusão. Ninguém mais está ao lado da moral - &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;ela não tem mais lados! e está em todos os lugares - como um fantasma. Oh, Lutero! Imaginou salvar a &lt;em&gt;Igreja&lt;/em&gt; com sua rebelião camponesa! Pobre puritanismo! Lutou como um tolo - porém, com boa consciência. Não poderia prever o cataclismo que se sucedeu. Onde florescer uma &lt;em&gt;Igreja&lt;/em&gt;, haverá festejos! [mas é da natureza aldeã interpretar o júbilo como corrupção, libertinagem e desvio.]&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;***&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;A persistência do homem religioso leva a crer que, apesar da expansão desenfreada do materialismo, houve aí uma adaptação. Como é comum entre charlatões, e todos os vendedores de idéias falsas, houve mútua fagocitose. O capitalismo e o sacerdote irmanaram-se. A relação comercial se intrometeu na religião a tal ponto, que hoje não é absurdo considerarmos as orações como um comércio divino, e fundamentarmos a nossa fé, ou a ausência dela, sob a aparência do contrato burguês - com a anuência &lt;em&gt;desinteressada &lt;/em&gt;dos bons pastores.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;***&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;A sociedade total, realizada sob a idéia de &lt;em&gt;mercado&lt;/em&gt;, impôs a lei da inteligibilidade. O gosto agora é medido pelo estômago do homem médio, esmiuçado e mastigado para que ele possa engoli-lo. E, por razões óbvias, pela experiência da fome, da miséria e da indigência, tal homem tem pressa em comer, e não aprendeu a ruminar. O alvo da democracia é conectar os extremos da pirâmide, reunir o senhor e o escravo tagarelando sob a mesma teia. Os &lt;em&gt;homens santos&lt;/em&gt;, os&lt;em&gt; políticos&lt;/em&gt;, e também os &lt;em&gt;sábios&lt;/em&gt;, expressam-se pelo idioma universal. A regra basilar da nossa &lt;em&gt;cultura &lt;/em&gt;é banalizar até os pensamentos mais elevados, torná-los indigentes, generalizá-los, superficializá-los. Nossos "eruditos" são magníficos sintetizadores cuja função é vulgarizar, achatar e rebaixar toda filosofia que exacerbe e ultrapasse o crânio atrofiado do homem medíocre. Eis o auge de desenvolvimento do instinto gregário e do rebanho: nada subentendido, sugerido, sutil, escondido, enigmático, ou oculto. Os &lt;em&gt;mistérios&lt;/em&gt; são revelados em uma vitrine, sob a luz fria do luar e do anoitecer, à vista de todos, como um concerto ordinário, com gosto de enciclopédia, com sabor de jornal. Com qual fastio não deve olhar tal homem para o mundo desencantado? Com qual bocejo não deve responder a uma tal &lt;em&gt;nouvelle&lt;/em&gt;?&lt;em&gt; &lt;/em&gt;E, entretanto, há tanto ainda a ser penetrado! tantos céus a serem explorados!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;***&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;Não somos, por acaso, uma nova aparição da sociedade mongol, descendentes de sua brutalidade, portadores do mesmo ímpeto devastador, influxo nômade, alucinante, cavalos guiados por guerreiros tribais, tomando de assalto o estrangeiro, e tomando de assalto o que surgir pela frente, em uma vontade ilimitada de derrubar barreiras, demolindo, arruinando, conspurcando, odiando e blasfemando, horrorizados contra tudo que é perene, duradouro, permanente e firme, saqueando a certeza de nossos precursores? Seremos, além disso, um povo? E caso sejamos, somos nós, os filhos bastardos da crença, também capazes de erguer nossos próprios castelos, nossas próprias fortalezas indestrutíveis, nossos templos sólidos, desafiar o poder usurpador do &lt;em&gt;Tempo&lt;/em&gt;? A qual remoto obscurantismo deveríamos então retornar!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;***&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;Não seria divino poder ignorar o caráter contraditório, omitir a luta permanente, esquecer-se, por um instante e com boa consciência, do combate contínuo e incessante que cada organismo trava entre si para preservar ou expandir sua própria força, todo este conflito eterno que organiza e rege, esta beligerância fundadora e polissêmica, e a disputa por comando, predomínio, preponderância e potência que move cada partícula viva? e também poder manter-se firme, não amedrontar-se ou hesitar diante da queda, da ruína, do declínio e da decomposição, interpretar serenamente o ocaso e o crescimento, reconciliando-os, unindo-os, irmanando-os como parte do &lt;em&gt;plano&lt;/em&gt;? e poder enxergar nas profundezas um reino justo, ver uma razão e um sentido para a desgraça, para a catástrofe e para o crime; sentir-se amado e protegido de forma incondicional, sem sofrer com o frio, com o desprezo e com a indiferença? Não deveríamos, todos os dias, orar ou até mesmo cantar em agradecimento, alegrarmo-nos, e, perdidamente, dançar em frenesi, por uma tal dádiva? Ah, se o nosso crente possuísse metade de tal confiança, valeria a mentira! E que crente temos nós? Quem é o homem contra o qual nos insurgimos? É o beato confinado em igrejas frias, fedendo a formol, sofrendo de reumatismo, amaldiçoando a vida e injuriando a natureza; o pálido e anêmico portador do grande desprezo! espalhando sua fumaça de incenso na relva verde: o defumador de corações! E, no entanto, aos olhos biônicos da ciência, aos nossos deuses dissecadores de rãs, são homens idênticos, os dois têm a mesma mente estreita, são míopes e igualmente obtusos. Suponhamos, por curiosidade, que tais olhos efetivamente vêem a verdade: n&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;ada repugna mais o espírito científico de nossa época do que a segurança, a certeza, a convicção, o grau de resistência, o doce conforto e, suponhamos outra vez, a ignorância satisfeita de tal fé: ao contrário, tudo deve ser pesado em sua balança, posto em cheque, criticado e diminuído. A revolução darwiniana que elevou e celebrizou o macaco, que contemplou maliciosamente a ascensão &lt;em&gt;histórica&lt;/em&gt; das massas, o triunfo organizado dos medíocres, mergulhando &lt;em&gt;o homem&lt;/em&gt; no desespero e na angústia, impulsiona, como uma surdina, abafada e camufladamente, a humilhação daquele homem criado à imagem e semelhança de Deus; captura-o como um animal através de iscas, subterfúgios, alçapões, chamariscos, ratoeiras, armadilhas. A ciência! Os dialéticos! Quanta superstição ainda existe arraigada em seus corações! Não será a verdade a sua superstição, sua idiotia permitida, sua fé imbecil, sua &lt;em&gt;necessária ilusão&lt;/em&gt;?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;***&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;Não vos parece cômico nossos filhos tardios do pitagorismo [os mais admirados crentes entre nós] almejando provar a existência de Deus pela matemática, pela física qüântica, sustentando teses e criando teologias&lt;em&gt; &lt;/em&gt;baseados na regulação do universo, na complexidade dos &lt;em&gt;mecanismos&lt;/em&gt; primitivos, no grande geômetra do cosmos, na maquinaria astronômica, na perfeição do arranjo biológico, no protozoário primordial, no caldeirão químico, no anencéfalo, no deformado; enxergando Deus em cada causa explicada pelo homem, desvendada, descoberta, intuída, depositando desconfiança ao poder plástico do aleatório, duvidando da conformação acidental das coisas, com sua metafísica da &lt;em&gt;grande consciência&lt;/em&gt;, da intencionalidade, da racionalidade, excluindo tudo aquilo que não se enquadra nos seus procedimentos especulativos, que não pode ser reduzido e resumido em sua matéria mental, com o preconceito antigo que via na matemática a perfeição, uma linguagem celestial, uma simbologia superior? E por que tal ligeireza para encontrar-se com o &lt;em&gt;criador&lt;/em&gt;? Não é a pressa a pior inimiga da boa ciência? E, se o &lt;em&gt;homem do subsolo&lt;/em&gt; estiver correto quanto à aritmética ser meramente um arranjo e que &lt;em&gt;2x2=4 é uma sentença de morte&lt;/em&gt;, um muro, e não a fórmula da divindade, uma luz de Apolo, por que tal vontade de logo chegar ao fim de nosso enredo? Seria, talvez, &lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;por assombro e medo, pelo horror interno à estreiteza e provisoriedade de nossas teorias, pela condição precária de nossas verdades, continuamente reformadas, rejeitadas, dispensadas? É tão inacreditável que o homem veja precisamente nisto, nesta exatidão de relógio, uma marca do criador, uma assinatura, como uma permissão para ser esquematizado, interpretado e explicado por nossas regras fictícias e inaturais, que são metáforas da natureza, transposições, representações, signos - quão debilitada é uma tal fé! No fundo, também o cientista busca consolo, inércia e entorpecimento. O impulso democrítico, enfastiado de arrasar e derrubar, com o estômago cheio de saques e espólios, mira seu leme para o mar liso e calmo - cansado do mar crespo! -, vai descansar no azul profundo da crença. O monopólio da força, detido pelos grandes negadores, que agora expressa-se como &lt;em&gt;crítica&lt;/em&gt;, tem de ser tomado e surrupiado por nós, aves de rapina, os obscuros adoradores do desconhecido e aventureiros do amanhã, para que venham então os &lt;em&gt;grandes afirmadores&lt;/em&gt;!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;***&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;Nossa maldição é ter nascido num século no qual é impossível sonhar – senão onde estariam, então, os nossos profetas? Há pouco mais de dois mil anos, o que é um intervalo insignificante diante da imensidão do &lt;em&gt;Tempo&lt;/em&gt;, e que traz um alívio ao nosso tédio febril, mesmo os homens mais desprezíveis, e pertencentes às escalas mais baixas da sociedade, podiam formular suas alucinações com alguma convicção, com alguma esperança, sedimentados e loucos sobre um chão d’água na crença em algum &lt;em&gt;Livro &lt;/em&gt;maravilhoso e derradeiro, enquanto hoje, para nós, todas as portas estão fechadas, confinados, com os ossos espremidos, na casca primitiva de nossos desejos. Quem hoje teria a coragem de ordenar: “levanta-te e anda!”? Nossos paralíticos estão perdidos não porque precisam de pernas: eles precisam de fé! Não nos falta unicamente coragem e bravura, é certo; sobretudo, somos incapazes de flutuar como loucos, de vaguear como mendigos errantes à beira do precipício do Novo. O espírito moderno carece daquele sentimento artístico diante da vida, daquela confiança interior transbordante, daquele delírio despótico que percorre o artista ante o destino, ante a sorte dos acontecimentos, ante todas coisas ao seu redor e, mesmo sem possuir, pode crer firmemente boiar no ar, acima da própria morte: sua crença predomina sobre sua composição biológica, pesa mais do que a &lt;em&gt;verdade&lt;/em&gt; – e, em decorrência disto, o artista sempre está a um passo de mergulhar em Deus, porque a sua fé em si mesmo é, no fundo, um artigo religioso.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;***&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;O homem médio sempre raciocinou de forma demasiado bruta, rangente e pesada; julga, por haver florescido tantas religiões, e estas haverem originado tantos crentes, existir necessariamente um fundo de verdade na religião. O povo tem seu critério basicamente fundado sobre o efeito quantitativo, e raramente examina o que se apresenta diante de seus olhos com a frieza necessária; e assim, diante dos milagres, dobra-se sem opor a menor resistência, como faz também com as obras extraordinárias de seus profetas. Se uma horda de crentes loucos estiver disposta a oferecer seu sangue para atestar a veracidade de uma proposição milagrosa, o homem comum imediatamente se colocará a seu lado, esforçando-se ao máximo para a propagação do &lt;em&gt;Mistério&lt;/em&gt;, irrompendo como bárbaros pelo interior dos templos [e há sempre uma necessidade do oculto nas sociedades religiosas]. O &lt;em&gt;Mistério&lt;/em&gt;, assim como a &lt;em&gt;Arte&lt;/em&gt; nas sociedades pagãs, vivifica uma sociedade religiosa envelhecida, pois quando o império da doutrina enrijece uma cultura, e a história e a tradição prevalecem sobre os elementos dinâmicos, o véu da ilusão, ardendo da fonte fervorosa do engano, é absolutamente necessário, fecundo e estimulante, exatamente como nos casos em que a &lt;em&gt;Arte,&lt;/em&gt; quando o domínio do político congela o ânimo criativo, lembra aos homens a necessidade de renovar e se expandir – é assim, desta forma, que os fanáticos são artistas e libertinos, num grau popular e cômico.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;***&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;Os pregadores saíram-se melhor do que os artistas ao provarem suas &lt;em&gt;verdades&lt;/em&gt;. A mentira bem alimentada é mais robusta do que a &lt;em&gt;verdade&lt;/em&gt; precária [temporária, hipotética, inconclusa, incompleta, &lt;em&gt;refutável&lt;/em&gt;]: ela sabe impressionar o homem - e, com isto, o engrandece. Cremos ainda de bom grado nas histórias cujas testemunhas se fazem degolar. Quanto haverá de bravura e integridade no moribundo engolido pelas chamas? Quanto restará de coragem e de verdade no doente sufocado pela corda?... entretanto não são comoventes estes doentes em êxtase elevando os seus cantos aos céus, implorando piedade e ternura com os corações sangrentos, percorridos por um rio fervilhante de fé em seus altos de sacrifício? como trocá-los pelos nervos frouxos de nossos artistas?&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;***&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;Os nossos séculos têm também as suas próprias migrações religiosas. Os mórmons, por exemplo, se constituem na mais nova forma de pregadores ambulantes. De todas as partes da América, jovens crentes se espalham pelo mundo para divulgar a &lt;em&gt;verdade&lt;/em&gt; de sua fé cristã. A disciplina egípcia de sua crença fecunda o solo por onde passa, e o empenho destes servos tem feito germinar, sob todos os climas, os mais ricos templos. A piedosa administração dos superiores, aliada à rígida organização de suas missões de fé, entretanto, não é tão essencial quanto o grau de fé delirante que inflama os corações destes jovens religiosos. Um casal deles é suficiente para fazer multiplicar em cem vezes a sua fé: são como ratos; e, como ratos, onde se instalam tem princípio uma deterioração, e algo de podre infecta a atmosfera em que respiram. Se exibissem a mesma disciplina a respeito do prazer, como exibem em relação à &lt;em&gt;renúncia &lt;/em&gt;[embora a tolerância à riqueza material], teríamos rapidamente uma civilização de epicuristas, pois então encontrariam ouvidos flácidos às suas vozes sedutoras; porém, as rédeas que agora nos prendem são apertadas pelos laços cegos do prazer, de modo que nós, homens modernos, vagamos incertos com a língua de fora.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;***&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;Quem uma vez considerou o homem de perto, atenta e isoladamente sob uma luz solar, sabe o quanto é debilitada sua ciência e restrito o seu campo de visão. Alguém que haja se dedicado à análise correta e meticulosa do homem, e que tente provar a idéia de Cristo no homem por um estudo moral, incansável e isento de pré-julgamentos, inevitavelmente se decepcionará. Nas sociedades onde imperou uma cultura artística, um tal conhecimento do homem jamais vigorou. O florescimento desta ciência glacial, que se estabelece nas profundezas do homem, é impossível onde estão fundados os templos da &lt;em&gt;Arte&lt;/em&gt;; ali, onde prevalece uma arquitetura equilibrada da natureza, há calor para abrigar o homem e brisa suave para protegê-lo e amenizá-lo das chamas do excesso. Os cientistas, nestas sociedades, sempre foram considerados demônios marginais, párias relegados ao escárnio e aos quais se deveria manter preservado, ou mesmo privado do contato. Seus experimentos em relação ao homem permaneceram periféricos e ocultos naquele concerto engenhoso e cintilante erguido sobre a pedra primordial da &lt;em&gt;Arte&lt;/em&gt;. Em determinadas épocas, sem dúvida, devemos pesquisar e ir a fundo para evoluir no conhecimento da fisiologia e da moralidade do homem para que se evite que, semelhantemente a um balão muito cheio, estouremos à menor oscilação do ambiente. A manutenção da espécie humana e também o fortalecimento do indivíduo são de tal forma complexos, que exigem de nós a máxima atenção e o cumprimento rigoroso de uma série de normas estritas que proporcionem a harmonia adequada; porém, justamente quando tais regras nos parecem nebulosas, nos momentos em que somos arrastados como que por uma correnteza de dúvida, assolados pela tempestade, insurgem-se aqueles retumbantes estados de exceção no qual brilha uma única figura, luminosa e incandescente, cercada pela imensa penumbra que se estendeu diante de nosso juízo, então estamos mais aptos, mais flexíveis e vulneráveis, ao sentimento religioso ou à frigidez científica, a ponto de agarrarmo-nos nessa primeira embarcação maravilhosa, estupefatos por ela resistir enquanto boiamos vacilantes e sem rumo compreensível.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;***&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;C&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;omo certas plantas, as religiões florescem somente em terrenos propícios ao seu crescimento, e cada homem é um desses pedaços de terra, em cada criatura se desenvolve um micro-universo, e não raramente tais criaturas podem adotar muitas religiões durante o curso de suas vidas e até mesmo nelas coexistirem duas ou mais inclinações religiosas opostas, como se o ser do homem fosse verdadeiramente um campo de batalhas; e a paz temporária, com o predomínio de um pensamento religioso, por exemplo, constitui um cristão ou um budista, enquanto uma paz duradoura e ampla, e nem por isso não tensa, não vacilante, que abranja a totalidade do homem, forma os santos - os santos são antes precisamente aqueles a quem é necessário colocar-se à prova. É tão impossível transplantar uma orquídea para o deserto quanto converter um ateu; assim como não é dado a um homem apreciar Rembrandt, uma vez que não desfrute da visão. Um ateu só se converterá quando propriamente, em seu íntimo, já não for um ateu, e nisso não influem a persuasão do sacerdote ou as descobertas científicas; para compreender uma tal modificação é necessário observar com paciência as transformações neste &lt;em&gt;solo&lt;/em&gt;, e como a natureza ali trabalha, imperceptível e constantemente, gerando lentas mutações; ver em um microscópio a pré-história de nossos pensamentos conscientes. É preciso desconfiar das rápidas conversões! - no domínio religioso, a férrea mão do costume não se rende ligeiramente sem dissimular: uma tal pele de cordeiro, para o calmo explorador de entranhas, sempre impressionará por sua aparência de &lt;em&gt;enxerto&lt;/em&gt;, por sua artificial superação sobre si própria, por sua inescrupulosa &lt;em&gt;boa consciência&lt;/em&gt; ao enganar e falsear sua &lt;em&gt;natureza&lt;/em&gt;. Quando, assombrados por um &lt;em&gt;milagre&lt;/em&gt;, cremos ver tais homens saltar de um lado ao outro do abismo - antes que se lhes construíssem a ponte! -, não somos iludidos só pela limitação de nosso conhecimento, por nossos &lt;em&gt;preconceitos &lt;/em&gt;ou superstições, mas sobretudo pela utilidade de tais prestígios, por uma dura e inflexível &lt;em&gt;necessidade&lt;/em&gt; de sortilégios&lt;em&gt;.&lt;/em&gt; A raiz do erro fundamental de Schopenhauer, enternecido por haver a humanidade recorrido ao remédio das religiões desde o amanhecer do &lt;em&gt;Tempo&lt;/em&gt;, presumir existir no homem algo como um impulso primitivo à religião, por um cansaço iluminista, por estar habituado ao convívio com homens fracos e medrosos, foi julgar ser impossível o &lt;em&gt;tipo forte&lt;/em&gt;, o exemplar preparado para as mais duras missões, para os submundos sem Deus, onde em tais profundezas, o homem comum não alcança com sua ridícula vara de pescar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;***&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Um fato surpreendente em nossa época, e mesmo talvez anti-natural, é a inexistência daquela antiga equação, que sobreviveu até a expansão do cristianismo, a qual separava para cada povo uma religião própria, e em que cada cidadão identificava-se unicamente com os deuses de sua cidade. Esta equação que perdurou até o declínio do paganismo, e que o ímpeto de Roma já havia antes afrouxado com seu império babélico panteísta, permitia que o seu templo conservasse-se intacto mesmo contra uma calamidade de alta intensidade, contra invasões e contra guerras. A Grécia antiga assistiu à construção destes templos &lt;em&gt;despretensiosos&lt;/em&gt; e resistentes como fortalezas [por uma certa fatalidade artística na criação], enquanto hoje prevalece a enorme vaca híbrida da religião. Agora existem também inúmeros templos – &lt;em&gt;mas somente como ilusão de ótica&lt;/em&gt;! A velha Roma é ainda quem governa os nossos contemporâneos, sobretudo através da inoculação venenosa da moral em nossas concepções políticas [Paris, Washington ou Londres são satélites periféricos do Vaticano]. Quem olhar diretamente nos olhos de nossas personalidades políticas atuais, e também souber afinar suficientemente os seus ouvidos, perceberá que a raposa moral está viva, bem viva...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;***&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Que dois homens sejam capazes de uma mesma idéia sobre as coisas é uma suposição firmada em observações muito grosseiras. Não possuímos uma só prova que nos confirme tal conjectura. Evidentemente dois homens podem chegar a um acordo sobre as coisas, e podem entrar em consenso, por exemplo, sobre o deslocamento de um cavalo. Em último grau, entretanto, jamais poderemos deduzir que a descrição do movimento, segundo estes dois mesmos homens, coincidirá, ou que ambos tratem do mesmo cavalo, e que não fazem, cada um por si, uma idéia particular do cavalo. Tais suposições, como o consenso artificial sobre as coisas, são fundamentais para a saudável manutenção do convívio social – não é por isso, todavia, que devem corresponder integralmente à verdade. Foi a manutenção desta distância equilibrada entre duas entidades, este respeito mútuo pelo qual o individual é preservado [e o sentimento profundo é avaliado nas profundezas], e a comunidade restrita é solidificada, que mantiveram por um milênio acesas as chamas da antiga fé grega, sua separação e guerra sigilosa. Com isto, quero afirmar que a linguagem é a base de toda moral.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;***&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Imagine-se um homem que pudesse analisar a existência de um ponto fora do tempo, sentado em cima de uma Lua de onde medisse a validade absoluta de todas as ações humanas, como se pudesse desembaraçar o fio de Ariadne: não suspiraria ele, enfim, desconsolado, compassivo com o próprio homem, desolado pela inutilidade final de todos os esforços? Este homem, regressando de sua tribuna imparcial, e sem aqueles binóculos divinos, está necessariamente destinado a considerar o resultado de toda a sua contemplação como nulo; tudo aos seus olhos parece em vão, como que retornando ao ralo inicial. Sim, pois a morte engole todas as coisas! E se nada escapa à ruína, como então fornecer, estabelecer, ou apreender um conhecimento sólido das coisas; ou pior, se tudo retorna, se todo princípio, em última instância, é inválido e a morte se constitui na única verdade constante, cobrindo as duas extremidades da corda da existência, por que erigir qualquer monumento duradouro? Todos nós, e também todas as coisas, dançamos uma única e mesma música fundamental; cantamos, sem o saber, o hino eterno da morte e com ele embalamos o nosso sono! Mas se a morte é uma verdade tão regular, é porque a vida, o sopro primitivo, é o seu par simétrico: e nisto consiste todo o jogo exuberante do vir-a-ser. Compreenda-se aquele lamento indizível de nosso habitante lunar, quando, à noite, na véspera de seus sonhos, ora ao Criador em desalento: “Ó, Criador, que fizestes todas as coisas, e que proporcionalmente desmancha também todas elas: por que me deste tal entendimento precário e superficial sobre o Ser; por que oitenta e não mil anos, ou então menos, apenas cinco anos para atingir o fundo de meu alambique; por que este curso cego e não outro qualquer?”.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;***&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;Se ficasse claro, por um só instante no mundo, quais os propósitos mais profundos de um único órgão do homem, como o seu pé, por exemplo – porque os pés também têm o seu nível de pensamento -, a humanidade não resistiria! Todos os homens se lançariam uns contra os outros numa terrível carnificina. Teríamos, talvez, alcançado a profundeza – e não é assim que nos espera a Vida!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;***&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;O sentimento profundo da religião consiste na crença inabalável de que, sob os mais mórbidos e obscuros impulsos do homem, e debaixo de sua carcaça de lobo, sobreviva uma chama constante e estável de luz divina; que existe, malgrado as rebeliões episódicas do homem, e não obstante os cursos furiosos e esporádicos das intempéries naturais, um plano perfeitamente elaborado, simples e terno, mantido sob o cuidado e a sabedoria eterna da divindade.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18644030-114658991283129523?l=danielbandini.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://danielbandini.blogspot.com/feeds/114658991283129523/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18644030&amp;postID=114658991283129523' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/114658991283129523'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/114658991283129523'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://danielbandini.blogspot.com/2006/05/psicologia-religiosa.html' title='[a psicologia religiosa]'/><author><name>Daniel Fontana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03210056785320952524</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://1.bp.blogspot.com/_oZVDfUEuReo/SiKM7vZ2bmI/AAAAAAAAAAQ/I4u2Tra0dqw/S220/DSC02719.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18644030.post-113630263273444705</id><published>2006-01-03T13:29:00.002-02:00</published><updated>2008-09-22T17:20:12.543-03:00</updated><title type='text'>[utilidade pública]</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;Esta introdução é dividida em quatro partes, cada uma delas representando um grupo de idéias convergentes conforme minha opinião. O primeiro conjunto de reflexões trata mais precisamente da percepção do tempo histórico na modernidade; logo adiante, empenho-me em descrever a popularização da História e o império desta sobre as demais ciências sociais e humanas na atualidade; a terceira série de pensamentos é dedicada a demonstrar as minhas próprias inclinações espirituais, especialmente aquelas que me dirigiram ao conhecimento histórico; por último, procuro refletir sobre o processo de composição do trabalho, ou seja, o meu julgamento sobre a confecção da monografia, a seleção da ordem dos capítulos e suas subdivisões, além das motivações pessoais e meus objetivos.&lt;br /&gt;Espero que me tenha feito compreender, e seja possivelmente útil e objetivo – ainda que estes sejam problemas que não me digam respeito. Boa leitura!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;strong&gt;INTRODUÇÃO&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;“&lt;em&gt;É possível que estejamos condenados, que não haja esperança para nós,&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;em&gt;para nenhum de nós, &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;em&gt;mas se assim for, soltemos então um último&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;em&gt;e torturante uivo capaz de gelar o sangue nas veias,&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;em&gt;um berro de desafio, &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;em&gt;um grito de guerra! Fora elegias e réquiens!&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;em&gt;Fora biografias e histórias, bibliotecas e museus!&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;em&gt;Que os mortos comam os mortos. &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;em&gt;Dancemos nós, os vivos,&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;em&gt;à beira da cratera, &lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;em&gt;uma última e agonizante dança.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;em&gt;Mas que seja uma dança!&lt;/em&gt;”&lt;br /&gt;HENRY MILLER &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;p align="center"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;strong&gt;I &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;“Clio parece ter adquirido cidadania universal”&lt;/span&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn1" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=18644030#_ftn1" name="_ftnref1"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;[1]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;. Nos últimos anos, houve um apelo mais ou menos geral à história. Desde o século XIX, uma tendência vertiginosa por melhoramentos tecnológicos, pela aceleração e otimização em todos os campos da vida social favoreceu uma percepção do tempo como efemeridade. A constante e “necessária” subjugação da natureza elevou a pressa das coisas. Sentir o tempo ficou muito mais evidente. A impressão de um espaço temporalmente pulverizado expõe dois problemas contraditórios: uma sensação de completa dissolução, de morte instantânea das coisas, proporciona um recuo de “consciência histórica” em favor do presente, de um presente momentâneo gratuitamente concebido; e também, um apego exagerado ao passado como pátria mítica, ou como necessária coerção da imaginação comprimida pelo presente.&lt;br /&gt;A obstrução do desenvolvimento de uma “consciência histórica” é sedimentada em um sólido investimento no instante. A ignorância de todo passado decorrente desta hipertrofia do presente, sob a lógica do massivo capitalismo, exige das pessoas um comportamento desesperador. A dupla face da modernidade, isto é, o capitalismo e a ciência, prometem para o amanhã o que para ontem era exigido uma vida inteira de martírio, sacrifício e privações. O instante torna-se o tempo ideal de sublimação. A percepção móvel e fluída do tempo faz as pessoas vagarem no etéreo, onde toda lembrança de superfície é associada à morte e à decrepitude. O turbulento ritmo que envolve as pessoas, como um vapor supersônico a empurrar-nos, faz a juventude rodopiar pelas ruas como piões frenéticos, superexcitada pela realidade deslizante, como se estivesse precipitando-se sobre um abismo insondável sugada pelo ralo do tempo. Os olhos parecem querer saltar para fora das órbitas, esfomeados pelas imagens que vagueiam vertiginosamente diante de si, tentando inutilmente deglutir os efeitos de suas visões tormentosas. O ser moderno, doente de uma hipertrofia do olhar fugidio, parece ter saído direto de uma fábula para a realidade; os horizontes se esfumaçaram para ele, parecendo deslocar-se num imenso vazio, sobre um infinito fantasmagórico:&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;Ser moderno é encontrar-se em um ambiente que promete aventura, poder, alegria, crescimento, autotransformação e transformação das coisas em redor – mas ao mesmo tempo ameaça destruir tudo o que temos, tudo o que sabemos, tudo o que somos (...) As pessoas que se encontram em meio a esse turbilhão estão aptas a sentir-se como as primeiras, e talvez as últimas, a passar por isso.&lt;/span&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn2" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=18644030#_ftn2" name="_ftnref2"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;[2]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;Neste último século, as coisas realmente parecem girar sozinhas. Tudo sugere a ausência de um eixo mais firme; todos os movimentos estão constantemente desafiando as leis da física. Uma força oculta, alguma mola que não se permite distinguir, parece animar as coisas que ameaçam subitamente se despedaçar e se consumir, enquanto as pessoas simplesmente se deixam levar “curtindo”. Sobre este ambiente peculiar, paira um sentimento catastrófico, simultaneamente sublime, delirante e onírico. O presente pulsa, contraindo-se e expandindo-se, indiferente ao passado; o tempo murcha e o passado é expurgado como uma grande dor a ser aliviada, as raízes são cortadas uma após a outra como resquícios deploráveis do vínculo vexatório com a “tradição”. Os inumeráveis e contínuos partos da modernidade, frutos da sua distintiva ânsia criativa, são compensados pelo rápido perecimento de todas as coisas – talvez jamais, em qualquer outra época, vida e morte estiveram tão indissoluvelmente ligados. E este drama de vida e morte parece ocorrer apenas no mais vago território, apreendido somente no terreno da impressão.&lt;br /&gt;A “alma moderna”, entretanto, está cingida entre dois pólos: a sensação de gratuidade e ubiqüidade do presente, do desprendimento com as gerações passadas, e uma confusa procura pela paternidade. A paternidade sendo uma condição passada que constantemente se exerce sobre o presente, que recorda os direitos que lhe cabem e os sacrifícios que lhe são desejáveis. Nesta perspectiva, em que há um mergulho na totalidade do tempo, a absurdidade do presente evapora como um pesadelo distante. O conforto oriundo de se saber não órfão, contudo, gera uma responsabilidade inexistente naquele ser que naufraga no presente e que contempla entorpecido a completa dissolução de todas as coisas: para este a morte não dói tanto. Este sentimento do tempo como um líquido mais viscoso empresta uma aderência maior às coisas e um sentido coletivo se forma em torno destas como uma camada explicativa. O jogo caótico de luz e sombras é substituído por uma iluminação mais sóbria, mais digerível aos olhos. O tempo é sentido com a mesma intensidade, só que apenas com uma outra ênfase. A abertura para o sentimento do coletivo dissipa a ilusão do princípio de individuação e expande os limites do compromisso ético; o favorecimento desta percepção ao convívio social põe sobre os ombros dos homens a pesada obrigação da pintura a fresco, onde é proibida a raspadura.&lt;br /&gt;O apego ao passado, como é perceptível, entretanto, não tem curado o vazio do presente. A inclinação imediata ao passado tem ocorrido justamente por essa sensação de absoluto vácuo. As pessoas parecem querer perseguir os velhos, prostrando-se apressadas a lhes recolher os cabelos que caem ao chão, como experiências que se esvaecem como tardias folhas outonais. Há uma pressa geral para deter o tempo; uma insana impaciência para conter o passado. O lema é não deixar coisa alguma se apagar, sendo o essencial a preservação das pegadas ao assalto do tempo:&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;Na falta de um presente que entusiasme e perante um futuro inquietante, subsiste o passado, lugar de investimento de uma identidade imaginária através dessas épocas, no entanto próximas, que perdemos para sempre. Essa busca torna-se mais e mais individual, mais local, na falta de um destino coletivo mobilizador. Todos abandonam os tempos extraordinários em troca da memória do quotidiano das pessoas comuns. &lt;/span&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn3" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=18644030#_ftn3" name="_ftnref3"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;[3]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;Diante de um presente deplorável, a história tornou-se uma espécie de passatempo relaxante onde se investe a esperança na ilusão. O passado aparece como uma pátria mítica onde o homem anseia enraizar-se. O homem moderno refugia-se num sítio ilusório onde a existência recebe um sentido; desesperado, ele afina seus ouvidos para saber de História – interessa-lhe agora o tempo, este drama da dissolução.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;II&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;O universo editorial brasileiro sofre ultimamente de um surto histórico. Atualmente, há um avanço sorrateiro da produção historiográfica voltada especificamente para esses fins. Uma produção acelerada de artigos, numa espécie de “vontade de enxugamento”, tem servido à proliferação dos trabalhos históricos em escala massiva. A compressão vertiginosa do espaço e do tempo impõe uma severa demanda por informações ao mesmo tempo em que as disponibiliza segundo novas práticas e novos instrumentos. Assim, o suor do historiador circula mais livremente e os historiadores parecem novamente enxergar a luz, após décadas de claustro sob o domínio das ciências naturais e matemáticas.&lt;br /&gt;Nas últimas décadas, a História havia se popularizado através da expansão educacional pelos tentáculos do Estado, sempre de mãos dadas com o lucrativo mercado dos livros didáticos. Hoje, o poder público influi diferentemente sobre o ensino histórico: a formação e o delineamento do caráter nacional, o fortalecimento dos princípios nacionais e dos sentimentos patrióticos, que antes nortearam as preocupações do Estado com a História, exprimem uma atmosfera confusa na atual sociedade brasileira: parecem agora sedimentados, inúteis, prejudiciais, ou por simplesmente não ser mais de interesse prioritário, não combinariam com a (des)ordem do mundo atual. A degradação do ensino público, e o conseqüente avanço do sistema privado de educação, sugere que os narradores da História são agora outros, e deixa paulatinamente sua hegemonia quase total. Tal decadência indica uma nova disposição dos “conteúdos históricos”, ou melhor, favorece uma nova percepção do tempo histórico e altera profundamente as prioridades históricas.&lt;br /&gt;A decadência do ensino público, todavia, é insuficiente para explicar a reordenação dos “conteúdos históricos”. Da percepção móvel e fluída da realidade, o homem moderno espera ansiosamente agora tirar lições através da História. Depois do confisco do monopólio do Estado sobre a produção historiográfica e da dissolução das fantasias totalizantes, resultado da ruína das ideologias e dos grandes sistemas teóricos, a História ainda se ressente, de forma geral, de um centro de gravidade. Há uma relação fundamental entre as novas práticas históricas e as estruturas cambaleantes da sociedade moderna. A condição atual do historiador é semelhante a do náufrago que assolado por seu delírio marítimo vago ainda desconfia de todo solo mais firme. A precariedade do historiador, entretanto, permite-lhe ser mais flexível à fugacidade, sendo que lhe cai muito bem a fantasia de camaleão. O poder de camuflar-se, a recente tendência ao mimetismo do historiador, tem inspirado as outras ciências sociais (e humanas) a fazer pactos de solidariedade com a História. O efeito destas recentes alianças ascendeu a História ao trono das ciências sociais.&lt;br /&gt;As ciências sociais sempre permaneceram em constante batalha, instigando-se mutuamente ao combate, saqueando umas às outras. Cada hegemonia, como cada disposição hierárquica, tem sido puramente temporária, precária e instável. Diferentemente das ciências naturais, as complicadas relações humanas transformaram os conceitos das ciências sociais em aparências nebulosas e mestiças. Jamais se obtiveram as escrituras definitivas dos terrenos ocupados por cada uma das ciências sociais – tudo transcorreu sobre fronteiras movediças. A geografia temperada das ciências sociais contrastou com a aridez típica das ciências naturais, habituadas com a oscilação desértica que varia entre dois extremos: o certo e o errado. O tom acinzentado das análises sociais, a claridade duvidosa que paira sobre os estudos sociais, tornou-se uma objeção à esfomeada obtenção do selo da ciência que caracterizou o século XIX.&lt;br /&gt;A História herdou do tempo, da exuberante multiplicidade do vir a ser, a marca da singularidade que durante muito tempo lhe dificultou um lugar no jardim das ciências. Quando o gosto predominante optou pelas regularidades – pedras fundamentais das “ciências positivas” –, a História esteve ameaçada. O caráter caótico e desgovernado do tempo há de ser sempre a objeção dos homens da verdade: a história está sempre a desmenti-los, exibindo fissuras. Na transição para o século XX, houve uma intensa pressão para que a História enquadrasse seu discurso. Nos períodos de crise do discurso histórico, geralmente ocasionados por uma aversão às singularidades, a história tornou-se uma palavra vaga, quase náufraga no interior das demais ciências sociais, como se coubesse a uma grande força externa a tarefa de tomá-la sobre o colo e conduzi-la apropriadamente a seu destino. Esta força externa seria desempenhada pela filosofia ou pela nascente sociologia, a quem caberia imprimir as cores da sabedoria orientadora: direcionar e retalhar os propósitos da História, classificando as individualidades extraídas da história segundo seu monstruoso aparato teórico. O divórcio entre a singularidade e o teorema, portanto, foi o grande dilema enfrentado pela História. A disciplina histórica fez o possível para se afastar dos rótulos teóricos; tentou penosamente distanciar-se da filosofia da história e da metafísica.&lt;br /&gt;Durante certas épocas, como na modernidade, em que a sensação do tempo é extremamente volátil, a História tende a ser intimada a dar seu testemunho. Todas as outras ciências sociais parecem transformar-se em apêndice da disciplina histórica, de maneira que hoje são inconcebíveis uma filosofia não-histórica, uma antropologia e sociologia a-históricas, etc. A História absorveu o discurso das outras ciências sociais, diluindo-as em seu extenso lamaçal. As ciências sociais parecem ter se resumido a fenômenos esparsos do imenso atoleiro histórico, como devessem tributo à História para que lhes fosse concedida permissão para se pronunciar. Esta capacidade antropofágica que fez da História um grande monstro é a responsável pelo triunfo esmagador do método histórico; a consagração da História é o resultado direto de suas propriedades metamórficas, da sua habilidade em insinuar-se nos territórios mais inóspitos, e também igualmente nos mais hospitaleiros. O sucesso estrondoso da História deve-se a sua extrema ubiqüidade, seu lusco-fusco que a permite estar em todos os lugares simultaneamente sem realmente estar em lugar algum, sem fixar seu templo sobre qualquer terreno. A recusa de uma verdade ontológica, o abandono do “Ser”, permitiu uma movediça plasticidade.&lt;br /&gt;Houve, por assim dizer, uma adoção das outras ciências sociais pela História – que exerce em parte seus direitos de paternidade. A tendência cinzenta da História, contudo, a impede de desfrutar amplamente seu imperialismo – a História parece exibir um horror hierárquico, uma vocação democrática ao hibridismo. Com a ascensão da História, percebe-se um certo “ecumenismo epistemológico”. Exceto um ou outro dialeto, um ou outro aspecto regional, hoje todos parecem falar o mesmo idioma. A estrutura babélica das ciências sociais se dissolveu num maravilhoso templo ecumênico, como se um vulcão novamente se precipitasse sobre Pompéia e fundisse todos os desiguais numa mesma paisagem ocre, de modo que amalgamar o mais possível tornou-se o lema. Portanto, não raramente nos espantamos com nossas palavras saindo de bocas estranhas.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;strong&gt;III &lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;strong&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/strong&gt;De qualquer modo, para o bem ou para o mal, estou me tornando um historiador. Isto sempre soou como um enigma para mim. Há alguns anos, eu era um paralítico deprimente. Ocorria-me constantemente que este estado permaneceria indefinidamente; somente me dispunha ao movimento pelo choque de uma enérgica força externa, sacudindo os meus ossos e despertando os meus músculos de seu sono profundo. A matéria sempre foi um dos meus pontos fracos: uma vez colocado diante de formas sólidas e concretas, diante daquela esfera que rudemente denominamos de “física”, despedaçava-me em mil partes. As superfícies sempre foram um obstáculo intransponível para minhas mãos – não para meu pensamento. Na minha maneira estreita de enxergar as coisas, eu não podia conceber a hipótese de que conceitos venerados como “justiça” ou “virtude” proviessem de um ser dotado de intestinos e fígado, que fossem expelidas por um órgão como a boca, e que para este ínfimo evento, fosse necessária uma série de combinações, disposições e hierarquias de células – toda minha psicologia se limitava a partir de um espírito livre e soberano, de uma região abismal de um ser incorpóreo. Portanto, eu sempre dispus de uma terrível habilidade em manipular “essências”.&lt;br /&gt;A pressão e a expectativa disfarçada da minha família fez com que eu pusesse um pesado fardo também às suas costas, exonerando-me das questões práticas da vida. Esta coação dissimulada, aparentemente para o desenvolvimento de uma personalidade independente, de liberdade intelectual, das minhas aspirações no reino do pensamento e no domínio estético, obrigou-me a subitamente sentir necessidade de recompensá-los com o meu talento, presenteando-os com meus frutos; isto cada vez mais se configurava num compromisso religioso: mas como? com que forças? – tudo ainda era demasiado verde e imaturo. A incerteza, neste caso, me consumia por completo e não raramente eu despertava de uma profunda imersão em mim mesmo aos gritos e lamentos, derramando-me em lágrimas até a dissolução absoluta. Em última análise, a questão toda se resumia a me preservar o máximo possível do contato com a “realidade” – natural que minha primeira impressão do passado tenha sido sobre algo morto. Eu possuía uma certa crença na necrofilia dos historiadores. A complexa aversão ao presente, ao que denunciava vida com seus latidos, fez de mim um historiador. Havia uma vontade de contemplar a água parada e profunda contra a agitação e a turbulência que me cercava todos os dias.&lt;br /&gt;Eu jamais senti, entretanto, qualquer inclinação ao furor de toupeira do historiador; nunca pude compreender a necessidade de dispensar imensas energias às autópsias historiográficas. Os esforços dos historiadores sempre me pareceram perder-se no vazio do conhecimento, empregando uma linguagem completamente incompreensível, “uma linguagem esotérica só compreensível para os iniciados em seu próprio culto”&lt;/span&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn4" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=18644030#_ftn4" name="_ftnref4"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;[4]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;. Talvez fosse exatamente isto o que eu procurava: uma linguagem absolutamente particular para a qual a comunicação fosse totalmente acessória – tornar-me eu mesmo uma câmara de isolamento acústico.&lt;br /&gt;Este drama particular do isolamento e da morte se dissipou com a leitura de Nietzsche. Eu soube desde o começo que jamais o abandonaria. Tentei de todas as formas compartilhar este arrebatamento: frustrei-me completamente. Preferi seguir à margem, por um caminho próprio, alheio às associações eclesiásticas que se fundaram em torno do nome de Nietzsche. O delírio vertiginoso entre o aleatório e o necessário, entre o caos e a ordem, entre a barbárie e a cultura – todo o universo bi-polar (ou trans-polar) apolíneo-dionisíaco – extasiou-me. As fronteiras difusas entre o que anteriormente se considerava o avesso e o direito, entre os “opostos”, seduziram-me imediatamente. A precariedade da existência e a paupérrima face do mundo foram então cobertas por uma prodigiosa epiderme de beleza. O lusco-fusco nietzscheano convenceu-me a aceitar o equilíbrio instável da condição humana.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;IV&lt;/strong&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;“&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;em&gt;O homem é corda estendida entre o animal e o Super-homem: uma corda sobre um abismo; perigosa travessia, perigoso caminhar; perigoso olhar para trás, perigoso tremer e parar.&lt;br /&gt;O que é de grande valor no homem é ele ser uma ponte e não um fim; o que se pode amar no homem é ele ser uma passagem e um acabamento.&lt;br /&gt;Eu só amo aqueles que sabem viver como que se extinguindo, porque são esses os que atravessam de um para outro lado&lt;/em&gt;”&lt;/span&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn5" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=18644030#_ftn5" name="_ftnref5"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;[5]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A história que descreve o desenvolvimento do homem ocidental é uma corda que separa o animal e o além-do-homem, ou melhor, que se estende sem, no entanto, separar definitivamente a esfera da animalidade e o domínio do além-do-homem. Este “perigoso olhar para trás”, que se detém em profundidade no tempo, gerou-me uma profunda desconfiança no ofício do historiador, e é o motivo principal para esta monografia: não se trata de um estudo detido e exclusivo, portanto, do problema individual da História, mas de um ensaio geral, e despretensioso, sobre o declínio do Ocidente sob a força do impulso histórico. A indecisão nietzscheana entre o histórico e o a-histórico como apreciações humanas que negociam, ao invés de se excluírem, também é um dos principais objetivos desta investigação, assim como um exercício complexo – e provavelmente infrutífero – de auto-conhecimento.&lt;br /&gt;No primeiro capítulo, tento esboçar o nascimento da história como disciplina. Analiso rapidamente os embates entre as ciências sociais e a luta pela obtenção de um atestado de cientificidade à disciplina histórica. Também persigo o entendimento do equilíbrio de uma história que se alicerçou sobre a construção da “alma nacional” e o estatuto de verdade.&lt;br /&gt;No segundo capítulo, dedicado mais precisamente à filosofia de Nietzsche, tento compreender a emergência da ciência no contexto da “morte de Deus”. Como questões pontuais, aparecem o aprofundamento do niilismo europeu e a “metafísica do artista”, esta última típica do primeiro momento da obra de Nietzsche. Finalmente, concentro-me na crítica da história nietzscheana, salientando três pontos que me parecem fundamentais: a constituição de uma “alma moderna” bipartida entre interior e exterior, o desmedido apreço pelo conhecimento que gera um saber sem fome e o desenvolvimento de uma “história vitalista” em que conceitos anteriormente negativos como destruição, esquecimento e injustiça são afirmados como potências essencialmente criadoras.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;***&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;Esperei por um longo período para dar vazão ao que se segue; deixei-me longas horas sob um silêncio aterrador, esperando algo como um raio que me caísse à cabeça. O duro processo de escrita, acompanhado da desgastante maturação dos pensamentos, ensinaram-me a não mais confiar na “inspiração”, nesse instante miraculoso em que Deus nos tocaria diretamente com as mãos. Cada frase deste trabalho foi talhada com enorme sacrifício e laborioso julgamento, assim como também passou pelo crivo de uma atormentada compulsão estética: isto equivale a dizer que foram precedidas por inúmeros balanços, rejeições e seleções, desfazendo uma ilusória crença de que as palavras surgiriam por si próprias, na descida da correnteza que eu erroneamente pressupunha existir. Da metade em diante, atacou-me um “fatalismo russo”, e deixei-me deitado sobre o gelo aguardando a morte. Pressenti diversas vezes estar à beira de uma congestão cerebral. O árduo esgotamento intelectual me transtornou a ponto de não mais dormir, de modo que não estou ainda completamente recuperado do parto. Espero fazer-me entender senão em tudo, pelo menos no que julgo essencial e não meramente acessório, o que ficará claro ao longo da exposição. Espero ter tido êxito em manter-me a um passo do historiador e do ensaísta, propositadamente em uma região de fronteira e eqüidistância, alternando entre um estilo curial e um outro mais intenso e incandescente.&lt;br /&gt;Basta de falatórios! É tempo de recolher as âncoras e enfim navegar com todas as velas desdobradas...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn1" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=18644030#_ftnref1" name="_ftn1"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;[1]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt; DOSSE, François. A História em Migalhas: dos Annales à Nova História. São Paulo: Editora Ensaio, 1994, p. 7.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn2" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=18644030#_ftnref2" name="_ftn2"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;[2]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt; BERMAN, Marshall. Tudo o que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade. São Paulo: Cia. das Letras, 2001.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn3" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=18644030#_ftnref3" name="_ftn3"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;[3]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt; DOSSE, François. Op. Cit,, p. 15.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn4" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=18644030#_ftnref4" name="_ftn4"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;[4]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt; MILLER, Henry. A Hora dos Assassinos: um estudo sobre Rimbaud. Porto Alegre: L&amp;amp;PM, 2003.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn5" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=18644030#_ftnref5" name="_ftn5"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;[5]&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt; NIETZSCHE, Friedrich. Assim falou Zaratustra: um livro para todos e para ninguém. São Paulo: Martin Claret, 2001, p. 27.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18644030-113630263273444705?l=danielbandini.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://danielbandini.blogspot.com/feeds/113630263273444705/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18644030&amp;postID=113630263273444705' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/113630263273444705'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/113630263273444705'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://danielbandini.blogspot.com/2006/01/de-utilidade-pblica.html' title='[utilidade pública]'/><author><name>Daniel Fontana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03210056785320952524</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://1.bp.blogspot.com/_oZVDfUEuReo/SiKM7vZ2bmI/AAAAAAAAAAQ/I4u2Tra0dqw/S220/DSC02719.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18644030.post-113153779989619196</id><published>2005-11-09T16:03:00.009-02:00</published><updated>2009-11-22T13:02:08.700-02:00</updated><title type='text'>[a flauta mágica - observações musicais]</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:'times new roman';"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;A música africana parece jorrar de um centro primitivo da terra. A freqüência insistente dos tambores demonstra um som grave, um rufar ansioso – é como a música eterna da humanidade à espera da partida, como os cavalos que antes de correr aguardam o açoite do jóquei. As melodias africanas compõem uma junção finalmente redentora após a proliferação e consagração das formas individuais. Sua sonoridade vibra tão intensamente como se o coração de toda a humanidade, condensado num único e mesmo coração indivisível, pulsasse direto de uma gruta básica, fundamental e primitiva; como se todos os nossos ancestrais cantassem juntos num ruído só, unidos em coro, e emitissem uma mensagem essencial cifrada em termos absolutamente originais, exprimindo uma oitava nota musical ainda incompreensível para o nosso entendimento, mas que ainda assim nos provoca, é por nós “entendida”; compreendida ao nível dos poros, conforme uma linguagem radicalmente sensualista – é “incorporada”; entretanto, que continua intraduzível para o nosso idioma atual.&lt;br /&gt;Tudo parece se desenrolar no alvorecer. A peça completa se prolonga apenas até o meio-dia da História, como se a África nunca houvesse conhecido a noite...&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:'times new roman';"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:'times new roman';"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:'times new roman';"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;*** &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:'times new roman';"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:'times new roman';"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Mas pode acontecer que tudo isto seja meramente um preconceito; que o negro, como os africanos em geral, não constitui o arquétipo fundamental da humanidade. Hoje, de acordo com nossa ciência atual, demonstrou-se ser improvável que exista uma identidade primeira. Nossos estudos históricos são unânimes em negar essa igualdade primordial. A elegia de um princípio uniforme, em que prevaleceu a equidade mais absoluta, talvez não passe de uma quimera que mantém o homem africano escravizado à origem – inerte no estado inicial onde supostamente permaneceu estacionado como testemunho cabal do passado. Os africanos são os pais de quem desejamos esquecer. Consideramos a África o continente materno, impondo-lhe uma condição em que se esgota toda sua criatividade posterior. Pois o antigo é imediatamente associado à maternidade, e igualmente à morte! Nosso canto europeu expira seus influxos produtivos, e o homem africano é uma semente apenas por não compartilhar da beleza da estrutura pronta, aprimorada e bela da Civilização. Agora homenageamos nossa descendência africana para extinguir a dor que os imputamos. O europeu deseja abolir do povo africano os sentimentos diabólicos que lhe disseminou; quer extinguir o pecado que inflama seu ser. A brutal dizimação do povo africano é o dilema edipiano do homem civilizado – é a vergonha de Adão de nossa civilização cristã... &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:'times new roman';"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:'times new roman';"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;*** &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:'times new roman';"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;A música japonesa traz suaves recordações da infância. Os sons agudos, não por acaso, são geralmente identificados com a infância. A exacerbada profusão de tilintar de sinos, característica constante das composições orientais (mas especialmente japonesas), recorda em mim uma inocência perdida. Oculta-se nos pulmões do cantor a ilusão do regresso. Essa natureza poética da música japonesa, entretanto, não a impede de conter em si um compasso cronometrado e uma geometria mecânica das notas com a precisão absoluta de engrenagens. Sua melodia exprime um extravagante diálogo com as paredes, a fronteira polar de um isolamento precoce, como se a canção fosse jogada contra um bloco de concreto, causando um ricochete muito particular. E a impressão é de que não as cantam pessoas de carne e osso, mas bonecas de porcelana, ou estátuas animadas – resumidamente é uma cantiga de seres feitos de gelo abordando temas pueris ou questões triviais da existência.&lt;br /&gt;As cordas dos instrumentos soam semelhantemente a cercas de arame farpado sendo dedilhadas. O corpo parece vergar-se ao contato das cordas. Cada movimento, cada toque é como um golpe profundo de acupuntura, apertando uma parte ínfima do corpo, mergulhando profundamente em alguma região do corpo sobre a qual não pairava ainda qualquer conceito, qualquer noção que anteriormente existisse ou que fosse tão sensível e essencial. A música exprime uma atmosfera clara, completamente alva, em que todas as dúvidas são dissipadas. A sensação mais comum é de uma paz indescritível na alma, de uma mística acomodação zen. Somos transportados aos distantes locais da infância, desfrutando com a mente purificada a atmosfera libertadora das crianças.&lt;br /&gt;Esse universo mítico, porém, é ameaçado com a interrupção abrupta dos tambores. A gravidade das pancadas suscita surpreendentes terrores. Os aparentes deslizes na ordem harmônica do mundo simbolizam uma súbita revolução da natureza. Semelhante ao efeito posterior à grande catástrofe, estende-se sobre os nossos sentidos um repentino e funesto clima, simultaneamente sombrio e melancólico. Paira acima de nós o tenebroso e milenar espetáculo da calamidade. A contemplação silenciosa dos escombros revela a terrível visão de quem sobrevive ao flagelo. A voz sussurra dolorosamente a perda das raízes com um murmúrio cortante; sente-se um amargo perecimento do passado sob a aparência da comunidade, do esforço coletivo para erguer colunas sólidas e duradouras sobre o chão do tempo, agora em ruínas. O som grave e profundo dos tambores cava um abismo sob os pés dos homens; suprimindo radicalmente, e de um único golpe, o que possuem de certo e verdadeiro. A expressão, para isto, torna desnecessário o conhecimento do idioma. Todo o homem há de entender – pois o tremor da voz comunica mais que o próprio significado das palavras... &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:'times new roman';"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;*** &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:'times new roman';"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;Uma linguagem imediata entre os homens! É a linguagem universal da Morte... A sublimação do prazer é ainda um sonho embrionário dos homens – ninguém teve até agora a audácia suficiente para encarar de frente a Vida, contrariamente ao que fizeram os sacerdotes com a Morte. A música nos embalou demasiadamente no sono da Morte, faltam por enquanto as notas peculiares que nos embalarão na Vida...&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:'times new roman';"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span&gt;&lt;em&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:'times new roman';"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Música irlandesa&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:'times new roman';"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt; – uma alegre cantoria de camponeses deslizando por longas e estreitas estradas de pedra, contornados por um vasto oceano de copas verdes sob um céu outonal do fim da tarde. O crepúsculo declinando lenta e pausadamente sobre suas cabeças. As cabeleiras ruivas e louras esvoaçando ao ritmo e ímpeto da brisa morna. Os irlandeses seguem dançando contentes, desprezando completamente a lei da gravidade, saltitando e flutuando sobre o caminho sinuoso; totalmente ignorantes quanto ao destino. Estão festejando! Celebram a chegada da colheita; e, por conseguinte, abençoam a ordem estática e benfazeja da natureza.&lt;br /&gt;Estou convicto de que a humanidade viveria muito mais feliz, como é desejável, em um estado de quase completa ignorância – que o saber, no fim das contas, torna o homem carrancudo e que, por fim, morre tão inválido quanto um inseto. Mas a estes irlandeses tal morte é desconhecida! Os casais circulam de braços dados em gancho, envoltos na densa névoa do olvido, libertos de toda a melancolia. Há um prenúncio divino de que a qualquer instante todos possam se fundir em uma unidade suprema. O enorme coração irlandês palpita azafamado, sem perder, no entanto, sua cadência singular, respeitando sincronicamente uma certa regularidade dos batimentos...&lt;br /&gt;Mas alguém os conduz. Não é uma procissão com rumo aleatório. A peregrinação se dirige embriagada a um local sagrado. O flauteado ao fundo indica vagamente o caminho a ser percorrido pelos ouvintes bêbados. O cortejo é escoltado por um flautista, por um iniciado, que os convida a seguir a canção exultante. O flautista cumpre a missão de levar com segurança os dançarinos a uma dimensão incógnita – mas estranhamente não paira aquela faminta curiosidade fáustica que acompanha o mistério. Seu resultado, todos o sabem, é indefinível – que alguns creiam, e que outros duvidem, é absolutamente compreensível.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span class="Apple-style-span"  style="font-family:'times new roman';"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;*** &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;A marcha de repente cessa substituída por uma calma e serena espera pelo crescimento das formas naturais, pelo desenvolvimento dos campos e o efeito dos cuidados agrícolas com as plantações. O florescer, assim como o definhamento, abrange a universalidade das coisas, e espera-se, com ansiosa apreensão, a recompensa de todo o esforço, de todo o martírio e sacrifício dedicados à labuta de perpetuar a espécie. O homem deposita toda a sua fé na esperança de obter a permissão de continuar subsistindo, por seu amor incondicional ao sofrimento – que não escapa a uma investigação psicológica mais detalhada.&lt;br /&gt;Paulatinamente os tambores lançam-se em homenagem fervorosa à fertilidade dos solos, e igualmente à fertilidade das donzelas. A sôfrega e insistente batida, a pancada muda e seca é como a representação do ato sexual em si, que é violento e bruto, mas que é apaziguado e ludibriado pelos poderes de sedução e amansamento que emanam dos outros instrumentos. Os sons estridentes e angelicais duelam com a constância grave dos tambores. As composições expressam uma necessidade cíclica em tensão, mas que, por fim, naturalmente, abençoa a agressão. &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;***&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;span&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;Eis que surge uma ópera matrimonial! Sente-se na carne a despedida melancólica. É uma passagem cerimonial e triste do núcleo da família à sociedade. Um vínculo sólido e consistente se rompe, como se a cauda familiar fosse amputada. A transição assemelha-se à alteração das estações do ano: a primavera familiar dissolve-se no inverno indiferente e constante da sociedade civil, onde cada um é um estranho absoluto e impessoal. A voz aqui parte de uma fonte gutural, descobrindo um núcleo anteriormente camuflado, um centro escondido que apenas se insinuava conforme a intensidade das tempestades, que também assolam as famílias. &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;*** &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;&lt;span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-size: small;"&gt;Mas isto pode se configurar meramente como notas folclóricas, pobres e diletantes. Eu mesmo tenho diversas objeções a tais reflexões, que mormente são absolutamente improfícuas e fúteis. O que aconteceria, entretanto, caso se tratassem de observações a respeito de Wagner ou de Brahms? Certamente a tradução seria mais penosa, uma vez que o material me é muito mais escasso, e pouco sedimentado pelos séculos. Porém, parece-me ser essencial que se faça da música uma construção sólida e perene, que se escreva no firmamento as impressões derivadas de seu canto sublime – em direção sempre ao império da Arte!...&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18644030-113153779989619196?l=danielbandini.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://danielbandini.blogspot.com/feeds/113153779989619196/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18644030&amp;postID=113153779989619196' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/113153779989619196'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/113153779989619196'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://danielbandini.blogspot.com/2005/11/flauta-mgica-observaes-musicais.html' title='[a flauta mágica - observações musicais]'/><author><name>Daniel Fontana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03210056785320952524</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://1.bp.blogspot.com/_oZVDfUEuReo/SiKM7vZ2bmI/AAAAAAAAAAQ/I4u2Tra0dqw/S220/DSC02719.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18644030.post-113136916286095520</id><published>2005-11-07T11:06:00.004-02:00</published><updated>2008-10-02T20:56:03.799-03:00</updated><title type='text'>[o artista desesperado]</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;preferia ficar calado – é um sintoma da época –; porém, é demasiado feio que uma estátua não queira ir além de si mesma. o mutismo tornou-se uma condição intolerável. portanto, vou cantar! cantarei com a minha boca suja; embora possa desafinar, ou ser o canto demasiadamente esganiçado. é preciso entretanto levantar-se uma voz! e liberar um grito profundo e fervilhante da alma, a ponto de arrebentar os próprios intestinos, o pâncreas, o estômago e toda a constituição orgânica.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;outrora exigia-se do &lt;em&gt;ser&lt;/em&gt; o infinito, numa tal profundeza e amplitude, que fora impossível animar-se para a ação. deixava-se o tempo fluir, observava-se a natureza naufragar no espaço incógnito, ao encontro de um cemitério onde sepultava-se os ossos sem dispêndio de energias. é insustentável permanecer sob esse estado! estamos agarrados à cadeia da sobrevivência, contemplando o fluxo de nossas vidas mesquinhas, como filhotes às tetas da mãe.&lt;br /&gt;é preciso soltar um grito capaz de romper o silêncio sepulcral que paira sobre nossos cérebros podres; quebrar o invólucro e a máscara de nossa apatia confortável. que se quebre de uma vez com a monotonia e a comodidade! que se ponham em movimento crimes bárbaros e hediondos, mas que não se mantenha esse pacto deprimente de não-violência. não existe mais lugar para beatniks – para bêbados zens contemplando a ínfima alegria e a felicidade transbordante de um átomo. não! é chegada a hora dos incendiários, dos discípulos loucos e maníacos de Nero.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;que se mate, eu digo e repito! que se perpetre o assassinato como um direito nobre e tradicional à vida! é a dor o solo primitivo de nossa &lt;em&gt;grande alegria&lt;/em&gt;. não há mais como sobreviver detrás das grades de nossas jaulas. é tempo de explodir esse campo de força colorido! eu clamo à pirotecnia do espírito! há de se derramar sangue sobre a terra para que o ciclo inominável da vida seja outra vez desejável. eu prego a apostasia geral; prego a derrocada de todos os conceitos idolatrados: um novo e revigorado crepúsculo dos ídolos para que se sorria com entrega e loucura - uma vez que a loucura, hoje, é infinitamente preferível à sanidade mental.&lt;br /&gt;rompamos os invólucros de nossos consultórios! levemos ao cadafalso nossos analistas! é um apelo que eu faço aos seres criativos deste planeta que se agitam inconformados, depressivos e mórbidos em suas pequenas jaulas. saiam seus covardes assassinos! saiam de suas câmaras sombrias! tomem de assalto estas ruas lúgubres que se transformaram em um imenso deserto. fujam de seus matadouros de si mesmo, de seus açougues cotidianos, para morrer à luz do dia. não, isto não é um manifesto. isto é um basta! isto é DESESPERO! o pior desespero existente. é a vontade louca que precede a queda no abismo, é a dança agonizante à beira da cratera. amigos! ergamos nossas casas à beira do Vesúvio! - ele despertará sobre nós, a &lt;em&gt;beleza&lt;/em&gt; irromperá em nossos corações de aço! eternizaremos belos e divinos corpos sobre a planície do &lt;em&gt;Tempo&lt;/em&gt;! fruiremo-os da abóbada, deitados ao comprido, como deuses pendurados nos céus...&lt;br /&gt;precisamos educar a ânsia indescritível a agitar nosso &lt;em&gt;Ser&lt;/em&gt;. não extingui-la! não permitir a morte do fogo! emerge uma piromania desenfreada? uma vontade de viver como a um passo da sepultura? chame-se a isso de futurismo, tal missão eterna e inabalável!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;br /&gt;***&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:Times New Roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;E assim como se pode proceder com a Beleza, e com a Estética em geral, também pode suceder com todos os demais conceitos: poderíamos, se houvesse força o suficiente, queimarmos todos os velhos livros, ocultar todo o passado da humanidade sob uma imensa labareda de fogo. Somente a criação então seria uma força positiva, e nada seria menos desejável do que uma memória prodigiosa. A atmosfera de mofo de nossa geração requer uma imensa e excelsa fogueira – tal é a única salvação da Arte; qualquer comportamento diverso propagará o esforço histórico, e sempre em prejuízo à originalidade: presos ao passado como a uma dívida impagável. Avante, já que somos nós as rosas do porvir!&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18644030-113136916286095520?l=danielbandini.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://danielbandini.blogspot.com/feeds/113136916286095520/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18644030&amp;postID=113136916286095520' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/113136916286095520'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/113136916286095520'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://danielbandini.blogspot.com/2005/11/o-artista-desesperado.html' title='[o artista desesperado]'/><author><name>Daniel Fontana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03210056785320952524</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://1.bp.blogspot.com/_oZVDfUEuReo/SiKM7vZ2bmI/AAAAAAAAAAQ/I4u2Tra0dqw/S220/DSC02719.JPG'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-18644030.post-113111361063354931</id><published>2005-11-04T12:08:00.003-02:00</published><updated>2009-11-22T20:36:52.438-02:00</updated><title type='text'>[tentativa de autoconhecimento]</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;Estou no verão de meu quinto ano em Floripa. Ainda não pude compreender a razão para um afastamento tão definitivo. O passado tornou-se um ruído inaudível e incompreensível; tenho sido uma câmara de isolamento acústico, surdo a todas as coisas que não dizem respeito ao presente.&lt;br /&gt;Como podem perceber, tornei-me um erudito, um intelectual – embora eu pense ser um artista. Quanto ao resto, tenho sido o mesmo bêbado de sempre. Tenho tentado inutilmente me desvincular do alcoolismo; suportei quarenta dias completos sem experimentar uma só gota de álcool, sabe-se lá Deus se para o bem ou para o mal. No período de sobriedade, tive a impressão de que o homem é capaz de qualquer coisa, e que qualquer um pode, a seu modo, tornar-se uma espécie de Jesus Cristo - se bem que felizmente as pessoas têm encontrado outros caminhos e se tornado Joãos e Marias...&lt;br /&gt;Agora desembestei a ponto de me considerar um artista consumado, um escritor. Joguei todas as coisas para o alto mais uma vez e estou cogitando seriamente a hipótese de não me tornar um professor de História, embora essa seja uma carta que eu guarde na manga.&lt;br /&gt;Há também, entretanto, a possibilidade de me transformar em um santo. Peregrinar pela Índia, ou por qualquer confim oriental, é minha última idéia fixa, tão insistente como qualquer necessidade física – como a fome ou a vontade de cagar, por exemplo. Acho que é um retorno à espiritualidade da infância, ainda que não esteja certo de que este seja o termo correto.&lt;br /&gt;Tenho pressentido que algo grande está para acontecer. Pode ser mesmo que uma natureza profética esteja emergindo, embora eu desconsidere ainda o teor dos vaticínios.&lt;br /&gt;Estou prestes a explodir. Tenho a sensação desconfortável de que estou para parir um monstro terrível, que debaixo da carcaça delgada e serena agita-se um piromaníaco, um louco incendiário com uma chama na mão e sangue nos olhos.&lt;br /&gt;Para encurtar, sendo o mais sincero e honesto possível, sou um gênio - ou sou completamente louco e retardado.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;em&gt;Fevereiro de 2005.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;Jamais imaginei poder regressar: o fato, entretanto, é que o útero primitivo exerce um estranho e incompreensível magnetismo. A permanência em Floripa se tornou absolutamente insustentável. A despedida da cidade ocorreu sob tempestades e sucessivos e monótonos dias chuvosos. Todo o ambiente que me circundava  convergiu inexplicavelmente ao aspecto sombrio e nebuloso que minha alma assumiu, de forma que eu me fundi à paisagem até o desaparecimento total de qualquer substância que indicasse uma individualidade viva e pulsante. Lembro-me descendo as ladeiras sob a chuva incessante, grossa e constante, correndo e saltando sobre enormes poças d'água, chegando em casa totalmente molhado. A casa sempre apresentava um fedor de cachorro insuportável. Em raros momentos, enquanto fitava as luzes brandas da cidade se acenderem lá embaixo, este cheiro se mesclava ao suave vapor que subia da rua que invadia a casa pela janela. Eu não agüentava mais. Entoei um prolongado réquiem de indizível sofrimento e parti.&lt;br /&gt;A ilusão de pertencer ao seleto grupo dos gênios se dissipou totalmente. No fundo, não passo de um selvagem. Houve um tempo em que imolava um carneiro por dia ao desregramento. Somente o equilíbrio hoje agita o meu ser mais profundo, com uma ânsia inextinguível pelo ponto médio. Eu sou um destes homens que se perderam na vida pelo sonho da cultura; que preferiram tornar-se extravagantes nas nuvens a serem mendigos na terra – para os quais a vaidade intelectual é ainda o único grampo que os prende à terra, não obstante considerem-se, na maior parte do tempo, entes inúteis para quem obra alguma há de sossegar o espírito faminto.&lt;br /&gt;As condições inóspitas entretanto não tornam a Terra um lugar inabitável. Se o firmamento exibe um interminável eclipse (que está desabando, caindo, comprimindo-me contra mim mesmo) – quem saberá se amanhã não há de sobrevir igualmente uma grande saúde! Estou sofrendo com a possibilidade de precocemente tornar-me estéril. Quando um prodígio já não sente força suficiente para a criação - quando todo o barro parece ter secado -, o homem criativo está para perecer. O presente é estreito demais. Estou aqui por obra do acaso.&lt;br /&gt;Em Porto Alegre, vivo uma nova temporada de isolamento após uma grave e obscura debilidade mental. Natural que sendo os sonhos ambiciosos demais se instalassem no limiar da escuridão: porém, existe a música inconfundível que parte do centro da Terra, e de sua flauta emanam os acordes que inflamam nossa primitiva natureza quadrúpede – e vivemos! &lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;***&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;br /&gt;Eu estrangulei o Desespero! "Morte! tens agora um adversário instruído". Que sensações incógnitas eu experimento. Para ti, Beleza, eu preparo o meu altar! Sou incapaz de terminar um só livro. Fatiguei-me de todos. Mastigo-os um pouco e logo me precipito sobre os meus próprios vermes. Adquiri um idioma próprio e exumei todos os cadáveres do passado. As palavras soam castas, puras e virgens! Com que frêmita e inaudita alegria vibra a ave ao pôr seus ovos!&lt;br /&gt;Há alguns dias havia escrito profeticamente: “Decerto, a geração mais fabulosa deste início de século ficará calada, por absoluta coerência”. Mas lhe falta unicamente um guia, um homem ou uma idéia elevada. Isto é algo que escapa aos leigos, que pouco compreendem do coração dos poetas. O homem leigo imagina que o o poeta canta como caga. Espera que o poeta acomode-se e imediatamente se ponha a cantar, como se as melodias surgissem abruptamente do movimento de seus músculos ou do seu intestino...&lt;br /&gt;Acima de todos está Rimbaud! Não especialmente por ser o mais verdadeiro entre todos, mas o mais cruelmente sacrificado. Creio que sua (auto)mutilação guarda um mistério sobrenatural, a medida exata de uma fronteira espiritual em que se transita entre dois tipos de vida, e igualmente entre dois tipos de morte. Jamais poderemos concluir se o seu destino foi um sucumbir ou um ascender, sobrou-nos meramente como certeza que, não importa a direção pela qual percorreu sua escada, atingiu o fundo, e que uma parte dele se despedaçou todas as vezes que se encostou às bordas – como deve ocorrer com todo homem que tiver persistência e bravura suficientes para olhar nos olhos do Inaudito.&lt;br /&gt;Rimbaud, como Nietzsche, encarnou sua obra. Personalidades completas, intactas e íntegras, como as deles, não exibem a dualidade aparente entre interior e exterior. Exatamente por serem pura exterioridade, talvez sejam tão caros à Civilização – os cavaleiros prematuros de um futuro Apocalipse. A magnitude de suas obras, reconhecidamente sublimes, e a precariedade e insustentabilidade de suas vidas, próprias de dois demônios marginais, sem aquela oposição diametral em que se divorciam o centro e a periferia do Ser, em que não existem propriamente máscaras, mas uma severa, coerente e radical justaposição de corpo e alma, exibem o horror de uma condição ultrajante – de certa forma, o ser completo e íntegro expia um sofrimento universal, é a superfície de penitência da humanidade trapaceada, urrando um hino primitivo e fundamental: o mesmo canto com que deve ter sonhado Lúcifer caindo do Céu...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;/span&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;***&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;br /&gt;O grande poeta nunca exprime uma irreconciliável subjetividade, porém, o estrato subjacente e a matéria primordial da qual são constituídos todos os homens, proporcionando um sentimento elevado e superior quanto à natureza humana. Um escritor original, apesar da atmosfera de impenetrabilidade, é sempre um intermediário; escrever não é uma prática de incomunicabilidade – é o seu instinto de profeta, entretanto, que é obscuro quanto a seus vaticínios. Não existe um método infalível de profetizar, nem o profeta é o proprietário individual de suas premonições. Ele é percorrido por uma inspiração sem freios - e se escreve em versos ou em prosa, se é um poeta ou um romancista, é uma divisão absolutamente improfícua e irrelevante que, de resto, não explica nada.&lt;br /&gt;Deposito todas as minhas derradeiras esperanças no gênio e considero ainda a Arte como um artigo de fé – são minhas “sombras de Buda”. Estou convicto, como os meus contemporâneos, de que Rafael não é tão útil quanto uma bota; preferiria entretanto viver descalço, contanto que Rafael houvesse pintado, como afinal pintou. Em nossa época, todos aqueles exemplares perfeitos são reputados supérfluos; segundo meu ponto de vista, sofremos de uma iconoclastia terrivelmente desregrada. Que se pode fazer? Somos modernos, conseqüentemente somos enfermos...&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;&lt;span style="font-family:times new roman;"&gt;Novembro 2005&lt;/span&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/18644030-113111361063354931?l=danielbandini.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://danielbandini.blogspot.com/feeds/113111361063354931/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=18644030&amp;postID=113111361063354931' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/113111361063354931'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/18644030/posts/default/113111361063354931'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://danielbandini.blogspot.com/2005/11/tentativa-de-auto-conhecimento.html' title='[tentativa de autoconhecimento]'/><author><name>Daniel Fontana</name><uri>http://www.blogger.com/profile/03210056785320952524</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='24' src='http://1.bp.blogspot.com/_oZVDfUEuReo/SiKM7vZ2bmI/AAAAAAAAAAQ/I4u2Tra0dqw/S220/DSC02719.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry></feed>
