Sábado, Maio 30, 2009

[rosário infantil]

(num sonho iluminado) com os olhos semicerrados pelo estreito túnel de onde se podia inalar merda e sentir o cheiro do oceano – lendo nos lados os enigmas e diagramas regurgitados no muro, as exortações estéreis à revolução social, as trêmulas e desesperadas e ridículas declarações de amor, etc., toda esta rebeldia ingênua e suicida da juventude – e romântica! –; e onde é impossível não desejar cair no oceano como um alfinete e desaparecer nas profundezas, inundado de água por todos os poros, e tentar, lá embaixo, ver os rostos de todos os entes queridos que viraram pó e dos fantasmas do passado que nos mordem a alma com seus dentes de chumbo, e falar com eles num idioma feito de bolhas e gestos lentos estourando contra o turbilhão de ondas submarinas, um balbuciar mímico morto no silêncio em meio ao caos espectral, e dizer tudo o que devíamos ter dito alto enquanto ainda estavam vivos e respirando, e recitar um tomo inteiro de poesias desesperadas que estão ardendo confinadas nos nossos cérebros, e jogar pra fora num ruído inaudível todo o lixo degradável e podre que está nos comendo como um câncer, com um grito tonitruante e potente como um dínamo estrelado que vai morrer no silêncio puro, um grito que está enterrado como uma medula seca em nossos ossos, que não liberta, porém, alivia e esfria um pouco o caldeirão borbulhante e insuportável do nosso vazio, forjando uma frase perfeita atrás de outra, vê-las explodindo e se chocando contra o papel como uma bola de fogo, destampando o cérebro debaixo da sombra de uma nuvem cinzenta e fria, e ver a terra devorando e engolindo os arranha-céus com sua garganta sagrada, e o vento devastando os monumentos e estátuas e símbolos arcaicos da nossa civilização espiritualmente atrofiada e mórbida, etc. – uma história própria que parecesse digna de ser escrita e conhecida, lida, incorporada, repetida, copiada, espelhada, refletida, por todos os homens e por todos os animais e vermes rastejantes que oscitam sob o sol, suprimindo toda a suspeita sobre o caráter horrendo e a fealdade do mundo, uma idéia que está caindo no esgoto; e descortinar a barreira de ferro que nos impede de dar o próximo passo pra frente, e levar esta mensagem ao mais recôndito buraco, repartir o pão com os huguenotes, os persas, os sumérios, os amonitas, os eleatas (etc.), em todas as épocas, escrever na luz azul o surgimento de uma palavra, o fim de uma era de entorpecimento, o banho santo de um vulcão furioso fazendo ressoar como música no ar aquela matéria ígnea morta e inerte, preguiçosa e lânguida como barro no fundo do ser, jorrando como um gêiser, andando com os pés cheios de sangue sobre o chão nevado, fissurando e derretendo a camada de gelo fino que se alonga como um lago cristalizado no meio do deserto, e o sonho de ser um homem ilustre escoando pela privada como um cocô obsoleto, fluindo, desaparecendo, deslizando para dentro da Criação, como se estivesse se fundindo ao plano, à natureza, etc. e a ísis surgiria de dentro do crânio de um arcanjo exibindo seu torso desnudo e serpenteando seus braços como um deus indiano içado do Ganges esparramando amor sobre a terra, borrifando jovialidade e sarcasmo de dentro dos seus pulmões, e o gio cantando tristemente o kaddish em cima de um túmulo sórdido, lamentando os irmãos perdidos em manicômios, sofrendo choques elétricos, amarrados por tiras de couro em leitos deprimentes, doentes, caídos em desgraça, derrotados, murmurando para o teto no topo de seus cárceres um sopro de clemência, de serenidade, uma pausa na máquina de vomitar fatos, tudo isto para poder contemplar a obra imóvel e eterna que paira na consciência do Buda, e vendo o leo arrancar do seu ânus fumegante um poema latino remoto discorrendo sobre nossa ruína moral, nossa desordem política, a decadência de nossa arte, e nossas profecias e sonhos impuros virando excrementos no tempo, soterrados nus na torrente dos fatos que se sucedem e rodopiam vertiginosamente como um tipo de droga paralisante penetrando nas narinas, e mitigando o frio sentimento de perplexidade do indivíduo, só no centro da maquinaria como um pernilongo na cerveja choca, perdido no meio da fumaça das fábricas, subindo ao céu plúmbeo desmaiado do inverno, vendo a triste estrela do oriente calmamente se apagar e desaparecer ao raiar da manhã, e descendo, na sombra das aléias verdejantes, em um rio miserável que ruge e corta em dois pedaços grandes a cidade onde eu nasci, assombrando-me para sempre, e onde o joca empunhava um cajado como um pastor velho e sábio ou um dos doidos desbravadores e assassinos de civilizações, e nós o seguíamos peregrinando e roubando frutas, escalando montes cheios de terra dura que grudava nas botas só para pôr os olhos cansados no panorama pálido de inverno da nossa pobre cidade, ver os velhos esqueléticos deslizarem como formigas para o interior dos bares fedidos, como magnetismo amaldiçoado, escarrando no solo pedrinhas duras oriundas dos seus pulmões e delirando ao beberem os seus venenos para o fígado, morrendo como moscas eletrocutadas em uma luz púrpura; e, no topo gelado dos montes, víamos coelhinhos brancos como as nuvenzinhas do céu voarem e submergirem nos arbustos e se enlearem nas sebes densas soltando guinchos suaves que morriam no espaço e confluíam em espirais invisíveis ao peito de Buda, e ficávamos na névoa suspirando e esperando o orvalho cobrir as folhas ao entardecer, com a mente conectada ao cosmos contemplando o sol do crepúsculo definhar fracamente, até descermos o monte com o frio penetrando nossos ossos e o sangue congelando nas veias; e no início da noite, indo contra o vento cortante para o casarão obscuro caindo aos pedaços, onde, na soleira da porta, pelo vidro embaçado, eu enxergava mamãe exausta preparando o jantar, decifrando-a no meio do vapor quente espargido da frigideira, com os olhos brilhantes, recebendo-me de soslaio com afetuosidade e compreensão, enquanto papai cofiava o bigode negro e espesso ante um cálice de vinho, com o pensamento longe, num cômodo mal iluminado pelo lustre sujo e empoeirado – ah, prenhe de futuro! o futuro se abrindo numa torrente vertiginosa; e o único empenho que se exigia de mim, o mais difícil e crucial de todos, consistia em liberar os meus instintos a se engalfinharem uns com os outros, e fundarem a base do comando perfeito da natureza, e aguardar com paciência o meu justo lugar na escala dos seres; afastar-me, de todos os modos, de subordinar o meu destino, de apagar os meus dotes, de sufocar os meus anseios, em nome de qualquer idéia, de qualquer instituição, de qualquer homem: eu só obedeceria ao que a natureza ditasse. e, na noite profunda, titia tomada pelo câncer, ofegando e murchando, e nós prostrados ao pé do seu leito, orando e rogando na penumbra para que fosse poupada do sofrimento e vivesse em harmonia, com os olhos fundos e o cenho franzido, invocando o pacifismo mais profundo, a piedade mais doce e sincera que um coração poderá conceber. em vão! deus é uma calopsita defecando no sofá; é um viciado apertando um baseado à meia luz – vibrando o monocórdio drama da aniquilação suprema com seus dentes amarelos: pobre homem, com a boca repleta de espuma, rodando como um cão ao redor do próprio rabo, caindo na desgraça, entoando só o urro dos moribundos.

Terça-feira, Março 17, 2009

[gab]

eu estava sentado em um caminho de madeira refrescando os pés na água, olhando as gaivotas planarem em vôos rasantes sobre a lagoa calma e imóvel, e pensando por que diabos estava eu ali tão longe e tão remotamente só. enxuguei os pés para calçar os sapatos e levantei esfregando as minhas calças que estavam imundas e ásperas. era uma calça jeans de um azul claro velha e gasta. o chão estava totalmente salpicado de areia e formava uma enseada meio inverossímil em plena margem da rua e lhe cingia um contorno delicadamente fantástico. errei para cima e para baixo um pouco perdido e estonteado à procura de um bar no qual pudesse permanecer anônimo e sem ser perturbado por ninguém. escolhi um bar amarelo com uma mesinha vaga no fundo que, a despeito de ser bem movimentado, jazia completamente escuro e apagado entre uma série de outros bares deprimentes com letreiros em gás neon. suas paredes ainda cheiravam a tinta fresca. percorri o cardápio com os olhos, entretanto, estava alheio e sem fome e só desejava beber um bom trago. deixei o pensamento voar longe e desconectar-se da realidade; os braços pendiam, caídos, mortos e pesados sobre a mesa dura e fria; o olhar fixo e opaco, concentrando num ponto longínqüo. o gio veio de bicicleta. logo, ficamos ébrios e meio deprimidos. refletimos melancolicamente acerca de nossas vidas inúteis; sobre o destino ridículo e mesmo incompreensível que tivemos, em que fomos ultrapassados e superados, em todos os quesitos, por seres que, segundo nosso juízo, eram ínfimos e repugnantes, cujo sucesso era obra da boa consciência da sociedade, um tipo de prêmio à moralidade. nossos sonhos tinham morrido! sim, nos convertemos em párias e canalhas, desprezando e cuspindo na cara da sociedade - num gênero só para raros.
a noite desceu por completo. tínhamos que voltar para a costa e o próximo barco era o último. andamos até o barco enfrentando as luzes esbranquiçadas dos carros e, com medo de perdê-lo, chegamos uma hora adiantados. sob os postes, com uma sonolenta luz alaranjada, erguia-se o píer. lá havia toda a sorte imaginável de desajustados esperando para serem transportados para casa: trabalhadores fedendo à peixe; mulheres levando no colo criancinhas pálidas e inquietas, jovens selvagens loucos para vomitar, e velhos com o tédio colado na fronte, etc. exalava um fétido e insuportável odor de algas. a superfície da água parecia grossa e pardacenta. dane-se! era o único meio de retornarmos. a alternativa restante consistia em caminhar quatro quilômetros por uma vereda aberta na margem lateral da lagoa (o que, por evidência, rechaçamos de imediato). assim, o gio encostou a bicicleta em um muro e adormeceu. eu pedi para uma senhora negra que me parecia tristemente simpática e humilde para nos avisar no momento em que o barco fosse zarpar. enquanto isso, tive um excelente sono no chão gelado. a esta altura, o calor havia se dissipado e o ar era macio e azulado. a senhora negra nos alertou e subimos ao teto do barco onde se amarravam as bicicletas. abaixo, sob o teto ou na borda do barco, todos se espremiam sentados como pulgas. a noite estava incrivelmente agradável e sem nuvens. o reflexo da lua boiava na água tênue e plácida da lagoa delimitando a área observável na escuridão. na orla havia raras casas penetrando o breu espesso com uma pequena lâmpada opaca na floresta densa. sonhávamos olhando pro céu frio, deitados com as costas no teto de madeira do barco, quase a levitar suspensos por uma cama de fumaça, inalando um aroma de incenso que boiava em círculos, expelidos por turíbulos de prata que oscilavam e balouçavam-se sobre os nossos crânios, em um silêncio pavoroso unicamente interrompido pelo choque constante das ondas. e posso jurar que a gab estava lá, em algum lugar do céu, na noite estrelada, como um arcanjo iluminado derramando seu amor e sua graça em cascatas que jorravam de dentro dos seus olhos e desciam direto ao nosso pobre chão rachado. então subitamente o gio saltou produzindo um estrondo no assoalho e com uma manobra brusca fez o barco parar. e, quando descemos no posto 8, ermo e desolado, com um sentimento estranho e inconcebível de solidão e plenitude, na rampa do trapiche, ou monte acima, no barro e na trilha fechada, eu ainda sentia que gab estava ali sussurrando e lambendo o meu ouvido com seu hálito doce e perfumado.

Sexta-feira, Março 13, 2009

[avant la haine]

video

- Dans Paris [Em Paris], do diretor Christophe Honoré. -


isto é ao que eu chamo de Arte!... a raras obras posso classificar o filme como pretexto à uma só cena; como um contexto pálido composto para o apogeu comovente condensado em um intervalo. uma escalada aos céus! não há como não arrepiar os pêlos! - e não soltar uma lágrima cálida. eis um filme que me surgiu ao acaso: e para o qual permaneci totalmente despreparado. uma fortuna aleatória! quando rumei hoje cedo para o depósito, um pouco triste e melancólico, sentado em um ônibus sujo e recitando mantras, parecia ver alguém através dos vidros empoeirados, do outro lado da linha de telefone imaginária, sob os delicados vapores da manhã encobrindo o sol pungente, diluindo as nuvens baixas, recordando essas imagens inexprimíveis que parecem espargir sonhos fumegantes, embriagar a mente com gim - a arte é a bela petrificação da alma -, e que têm o mesmo som ao de uma noite em que minhas lágrimas frias caíam em um copo cheio d'água na penumbra. só o amor possui tal esperança sombria: que subtrai o horror inevitável pelo sentimento sublime; só o amor é esse puro heroísmo ante a tragédia, e antepõe a paixão ao inelutável, levando no dorso a bela morte. eu sussurava non, je t'embrasse et ça passe... - perdido no zumbido dos automóveis - e um murmúrio morria no silêncio do ar tépido (como um trem penetrando um túnel).

Segunda-feira, Janeiro 26, 2009

[mi próximo movimiento]

"voy a subir al techo a ver,
a mirar el desastre
bajo la luz de la luna gigante.
e
llos lloran abajo del árbol,
arriba del árbol,
detrás del árbol
tuve miedo pero ya se fue.
a
hora estoy arriba de mi casa con un rifle.
haré mi próximo movimiento."
* El Mato A Un Policía Motorizado


é impressionante a força e o lirismo emanados por "El Mato...". uma música como esta perturba qualquer indivíduo e o deixa estático e sem palavras. quando eu cruzava os antros de porto alegre meio bêbado jamais tive um vislumbre propriamente profundo inspirado pelas bandinhas tristes que aqui são ovacionadas. no extremo, permanecia imóvel em contemplação, deprimido e decepcionado; porém, sem mergulhos e sem poesia, seco e literalmente sugado por um aspirador de serragem. com os argentinos do "El Mato..." há algo completamente diferente! - como se eu fosse lançado no fundo de um oceano - e de lá pudesse enxergar algo real sobre as coisas, rodeado de um silêncio profundo e absoluto, vivendo só na mente, ou sutilmente interrompido por um zumbido distante, longínqüo, como o som de um diapasão oxidado, um ruído contínuo e abafado vindo de fora do tempo, ou, sei lá, de um local ermo e perdido que existe, sempre existiu, desde a eternidade e os primeiros símios, mas para o qual estamos terrivelmente surdos. acho que é uma sensação de harmonia total. eu sinto que sou um átomo dormente reduzido a pó, e, enterrado no colchão, eu miro o teto do meu quarto, quase levitando, em um estado flutuante e esplêndido, e posso enxergar através dele, atravessar todos os apartamentos assentados sobre o meu teto, e penetrar todo o firmamento e ir além dele, caindo com as estrelas; ou então eu observo inerte a paisagem pela janela e tudo fica subitamente escuro e pacífico, o breu profundo mais aprazível que alguém puder imaginar, e posso ficar mastigando por dias inteiros esta goma do nada, e soprando bolhas invisíveis que explodem no ar e emitem um ploc murmurante. eu não sei se isto é elevado, divino, ou qualquer coisa que o valha, mas particularmente creio que seja a experiência mais agradável que eu já tive com a arte depois de sonhar com nietzsche dançando com deus.

Sexta-feira, Outubro 17, 2008

[o fanatismo]

com muitas razões nobres e princípios sagrados adornamos a prática do assassinato em todos os tempos. a história da verdade é uma longa sucessão de homicídios e rituais de trucidamento. enquanto as gerações se sucedem, aumenta excepcionalmente o rastro de sangue. a arquitetura macabra de cemitério, de túmulos e tumbas corroídas, é a culminância e consumação da história. é muito comum, ao longo da história, surpreendermo-nos, da língua de nossos ídolos, ofensas como queimem, bruxas, no fogo demoníaco do fundo do inferno!; ordálio a vós, falsos cientistas!; guilhotina aos traidores do povo!; apedrejamento em praça pública para sacerdotes do diabo! difamação! difamação!... e tais ofendidos não raramente constituem uma nova casta de homens faróis, uma estirpe que servirá de lume à geração que aguarda na semente. suspeito de todos os grandes humilhados - se um homem vê a necessidade de provar a verdade amarrando-se em uma corda, aí já há muito de questionável, de intenções secretas, de astúcia subterrânea - embora esteja normalmente pronto a segui-los por suas trilhas fechadas e a subir com eles suas montanhas inverossímeis - talvez pelo prazer existente nas trilhas fechadas e no ar das montanhas: jamais pela verdade mesma. só os que os seguem saberão que lagos gélidos e belos jazem debaixo da névoa cinzenta que cobre os vales - é preciso tirintar de frio para enxergar a verdade! seus sermões inflamados são como um pequeno orifício onde atrás se acumulam ocultas muitas maravilhas - existem olhos para tais prodígios? sobraram narizes sadios para suportar tais fendas?

Quarta-feira, Setembro 24, 2008

[a desolação]

oh, vaga, lança outra vez este filho à terra!
de onde jamais haveria de deixá-lo livrar-se...
diga, irmão, uma só razão para permanecer,
e, então, eu permanecerei!
como hei de suportar?!
não está tudo caindo?!
não está tudo desmanchando?!
não são sepulturas que tremulam ali adiante?!
oh, obscenas miragens!
não é puro deserto o destino que me aguarda?!
sim - de deserto! -, exulta acelerado o meu coração

***

qualquer idiota vence neste mundo,
todo bufão é apto a fazê-lo,
e eu, no entanto, julgo-me incapaz.
sou um verme entre sete bilhões;
sou o pior entre todos!
- e isto lá diz respeito a homens racionais!

[a vaidade]

o autêntico sinal entre nossos gênios é um modo pervertido de vaidade, e inversão da vontade [ou fraqueza de vontade]. neles o grau de humilhação amplia o orgulho e, atingir a lama e a podridão, corresponde a um máximo de bem-estar. em cada sinistro exemplar desses ratinhos urbanos pulsa tal crença [ou tal niilismo!]. portanto, não é propriamente um deprimido o gênio de nosso tempo: seu modus vivendi é antes a reflexão da velha má-consciência, o gozo particular do ressentimento, a reserva individual de sofrimento como posse de uma riqueza sobre-humana - é ainda o "abandono de si". são os envenenadores do século! sobre eles, cairia perfeitamente bem aquela fábula do crucificado:
"vejam como sofro, vejam como suporto! não será um deus quem suporta tamanho martírio? não deve haver nele um monstruoso saber? estará guardando um grande segredo? - não serei, por acaso, o alvo e a expiação suprema de vossos pecados? eis o rio onde desagüam vossas faltas! a pura superfície de punição e penitência de toda uma época! - isto! admirem-me! louvem-me! posso resistir a todas as privações e castigos; não posso, entretanto, viver sem vosso amor e honra! - e aqueles por quê não olham? por quê justamente aqueles não tomam a sério? não está aqui algo digno a rebaixar-se? - pois a vocês estão reservados piores sofrimentos e piores labutas! e tarde será para arrependimentos! e, é certo, não neste plano baixo e aparente (que tenho eu com mundos inferiores?)! não, aqui as penas ainda são terrivelmente brandas! como tenho piedade deste vosso desprezo e arrogância! pobres almas!"
[e, talvez no íntimo, após suspirar, sussure de si para si: "mal sabem que a mim só a cruz causa prazer! só pregado na cruz inspiro afeto! como os invejo, tais desprezadores e superficiais! e a minha inveja é do tamanho da minha cruz.]

[o verme]

estou definhando. tenho o tamanho de um besouro pequeno. todos sentem nojo de mim. não me surpreende, uma vez que vivo sujo e famélico. não sou um escritor, e tampouco sou qualquer coisa. a vaidade impediu-me a educação para a virtude. estou flutuando no mundo sem noção moral, sem respeito e sem deus. não existe nenhum deus a quem eu possa humilhar-me de joelhos. eu observo a cidade desde a minha pequena janela e não enxergo nada; é como se o mundo tivesse se desintegrado, como tudo houvesse sido eliminado, e restasse apenas a mente. uma mente doentia!... e a morte se recusasse a colher-me. é possível sentir a covardia correr entre as veias e formar coágulos enormes como cogumelos a ponto de explodir e destruir o teto sobre o meu crânio.
***

só posso escrever em tom de despedida. um homem triste vive a lamentar-se e a dizer adeus a tudo: à amada, à poesia e à vida. e tudo é insuportavelmente hipócrita! em seu eu profundo quer dizer sim a tudo – até ao mais pequeno e ao mais desprezível. quando escreve, em terrível depressão, deseja afagar a si mesmo. na solidão, no desespero, na iminência do ato final, o poeta faz amor. seu discurso à humanidade é falso e alegórico. fala todo tempo como que diante de um espelho – e não se fala diante dos espelhos sem falsear. tudo, portanto, é exagerado [e, no fundo, excessivamente teatral]. no limite da expressão estética encontra-se o macaco. o simiesco é o fruto da expansão desmedida da consciência deprimida. a ordem perfeita exige do homem o suicídio – mas o homem é meramente um sonho...
***
a morte me surpreendeu muito prematuramente. mas mil vezes seria preferível o túmulo a esta morte vil: a morte social. houve uma época em que o pressentimento da extinção era motivo para belos dramas: o sofrimento valia a tragédia. hoje não há mais beleza ou fruição estética no aniquilamento, só existe o frio e o vazio... para onde desabaram as cores e as metáforas?! para onde embarcaram os sóis?! sobrou unicamente uma rocha dura, uma pedra gelada e cinza: um mineral morto. o que deixo aos homens além de meus ossos?! é tudo o que, no fim, a terra requer desta passagem vã.
***

em que contexto o homem abandona o mundo e entrega-se à dissipação?! eu pressinto o álcool comendo-me aos grãos, e nada me é capaz de impelir contra isto. é já a fatalidade quem brinca com o meu destino.
se a ordem trabalhasse no mesmo sentido; se a ordem desprezasse a morte do indivíduo, por exemplo, como a ordem cósmica; se eu não nadasse contra a corrente; sim, então tudo estaria consumado – e, talvez, não houvesse mais sofrimento. porém, a ordem, através de seus simulacros, sob a aparência do amor e a face da fraternidade, impõe a morte moral contra a destruição corpórea pura e simples.
antes uma vontade de nada do que nada de vontade - na opinião do homem fraco, a ordem é a verdadeira culpada da sua contínua amplificação de tibieza. ele, no limite de sua covardia, não mais admite em si um único indício de saúde; recusa-se a reabilitar-se e, por fim, só pode sobreviver da transgressão. o enigma vital do deprimido, e, no extremo, sua última possibilidade de existência como ordenação da vontade, é a morte voluntária - e a consciência de contribuir para sua própria danação.

[a arte pictórica]

o verdadeiro artista demonstra a fina percepção de que a arte pictórica pode cobrir o acontecimento histórico e retratar o cotidiano, e que, entretanto, para torná-la uma obra de arte universal, precisa preservar o fundo mítico do tema, conservar a onipresença do mito, que paralisa o Tempo e suspende a História, içando o homem a uma posição sobrenatural e divina; então, nestes acasos raros, a pintura não só enrijece e petrifica o acontecimento histórico, por natureza fugaz, porém o interpreta sob uma ótica elevada, ultrapassando o destino dos homens palpáveis e concretos, e atira um manto sobre todos os seus ancestrais e descendentes, para que estes, no futuro, repitam a dança eterna que emerge da tela.

Terça-feira, Setembro 23, 2008

PABLO NERUDA do "Poema 20" de "Veinte poemas de amor y una canción desesperada"

"De otro. Será de otro. Como antes de mis besos. Su voz, su cuerpo claro. Sus ojos infinitos. Ya no la quiero, es cierto, pero tal vez la quiero. Es tan corto el amor, y es tan largo el olvido. Porque en noches como esta la tuve entre mis brazos, mi alma no se contenta con haberla perdido. Aunque éste sea el último dolor que ella me causa, y éstos sean los últimos versos que yo le escribo."

[os mártires]

é como se eles expurgassem sozinhos as dores da Humanidade; protagonizassem sob a iluminação dos holofotes o drama que ocorre na penumbra e no subterrâneo dos seres, encarnando a tragédia de todos nós. Jamais existirão homens inteiramente imaculados. Os homens santos são aqueles que vencem a si mesmos, que conseguem superar a si mesmos. A nódoa que por ventura manche a história de um homem varia de indivíduo para indivíduo. Não existe uma referência que vigore para a totalidade do gênero humano e que possa medir a moralidade de todos os seus atos e suas idéias. No meu modo de enxergar as coisas, cada ser humano, logo que nasce, é dotado de uma balança específica e individual a qual durante todo o período de sua existência ele esforça-se por ajustar, tateando o seu próprio instrumento como um cego. Não existiu um só homem santo que tenha atravessado o mundo incólume, completamente imune ao desmedido, que em alguma oportunidade não tenha também sujado as mãos...

[os poetas modernos]

Os historiadores da literatura transformaram os poetas modernos em homens diabólicos, difundiram uma concepção ectoplasmática em que os poetas são verdadeiros injustiçados dos céus. Eu posso imaginar estes historiadores elaborando suas teses onde os poetas aparecem como mártires que agonizavam numa cruz imaginária, como mendigos imundos e maltrapilhos com crânios maravilhosos, ou homens muito magros que tinham vermes enormes nos estômagos, etc. Por serem um pouco necrófilos, os historiadores invocam essas imagens em que homens de carne e osso passeiam como mortos-vivos, como cadáveres andantes e etc. Eu não acho que isto seja verdadeiro: porque o poeta é um burguês, e um burguês nunca é totalmente honesto. Se por um lado é verdade que mergulharam nas profundezas, e conheceram a maldição de viver onde não existe luz, nunca arriscaram verdadeiramente suas vidas. Os burgueses nunca mergulharam muito fundo no oceano. Podemos sinteticamente dividi-los em três classes – imagine, como disse um filósofo grego, que a água é a vida: alguns, dentre eles, correm na praia e atiram-se na água rasa, onde ficam se desviando das ondas maiores, ora enfiando a cabeça para debaixo d’água, ora subindo a superfície assombrados; outros, mais curiosos e mais espirituosos, desabam no alto-mar cheios de paixão com escafandros e com cápsulas de oxigênio nas costas, contemplando o universo marinho encerrados na sua proteção hermética; enquanto a maioria, legitimamente denominados os superficiais, permanece deitada na areia da orla, com a pele untada de protetor solar, espantando um enxame de insetos que bóiam no ar. Os burgueses! – eles vivem com medo de se afogar... Os poetas que suportaram as profundezas são raros, geralmente eles aprendem a nadar e movimentam os braços na direção da praia; a imensa maioria sucumbe aos seus instintos de classe, e vai ensinar poesia na academia ou declamar versos em bares.

[esperança]

Indiscutivelmente Mandy sabia como me deixar deprimido. Tinha um prazer mórbido e dilatado em relembrar a minha esterilidade. Jamais vou compreender porque, justamente para ela, sempre me esforçava para me mostrar mais luminoso ou mais genial do que era na verdade. Se por um lado era visível que alguma parte minha apodrecia e que era pura carne putrefata – como se estivesse morta, como ela dizia –, eu juro que existia também uma outra parte, talvez imperceptível, insignificante, semi-oculta, minimamente quantificável, e que ela evidentemente desprezava, mas que se mantinha acesa, que ardia e crepitava entre os escombros, e que suficientemente friccionada, no futuro, explodiria como mil foguetes de artifício. Esta fração sobrevivente não tolerava que Mandy me espezinhasse. Embora fosse exteriormente incognoscível, a partícula de vida, o elemento de força e potência resistente em mim brilhava e reluzia como uma pira irreprimível e inesgotável.

[a perdição]

Quando o vejo – perdoe-me a franqueza –, posso vê-lo extinguindo-se como a cabeça de um palito de fósforo: muito cedo veremos a sua hora derradeira. Sim, você agora está como que inutilizado em um leito de hospital alojado no seu próprio cérebro, e repleto de enfermidades até o pescoço. Não é possível que não perceba as mãos de enxofre da História em volta de seu pescoço lhe estrangulando! As pessoas o abominam – eu preciso dizer – porque você é uma espécie de inválido moral, de libertino paraplégico que não se dispõe a dar o menor dos passos em direção a Deus ou ao seu próximo. Que monstro você é! Tanto o seu corpo como a sua alma se converteram em uma câmara escura. Você se transformou em uma caverna na qual é impossível um resquício de luz poder penetrar; nesse seu intelecto satânico, me parece, nenhuma chama de luz é capaz de freqüentar ou vigorar estavelmente – eliminando, por assim dizer, a sua densa partícula negra – a não ser que seja inevitavelmente um fogo destrutivo e amaldiçoado. Você é um homem perdido, eis a verdade! Nunca irá exclamar, como Goethe no fim da vida, que deseja mais luz, mas suspirará algo como ‘mais trevas e mais tormentas’... Eu juro por tudo que me é sagrado que jamais compreenderei a razão pela qual você ainda se julga um poeta! – embora creia que esta seja apenas uma parte da arrogância comum a todos os seus ‘anjos’ que caem do céu renegando a Deus.

[objeção]

Eu prefiro imaginar os meus deuses voando no ar como serafins. Você não se comove com a visão daqueles anjos inocentes e puros pintados por Rafael? Não, é claro, você não deve se comover! porque detesta a paz, o amor, a beleza, a justiça, e tudo o que vem de Deus. O seu problema é a sua queda pela indecência. Não suporto a sua adoração ao que é horrendo e podre, sua predileção doentia às coisas que estão se degradando, se decompondo, se degenerando... Todo homem entretanto que for um perdedor completo, você o terá em alta conta. É por isso que você me odeia, porque não estou com você e seus ratos na cova de Satã!

[o poeta corcunda]

para bêbados - o significado de uma cerca para o ébrio, por exemplo, não é evidentemente o mesmo de um homem lúcido. No cérebro do bêbado, tudo está pendurado de cabeça para baixo; as idéias que faz das coisas dormem em seu teto como morcegos negros. Sim, ele altera o seu sono, o seu período de vigília – ele modifica o próprio ciclo da natureza! O bêbado não pode viver sem deformar, sem distorcer ou destruir o mundo; ele é o desagregador, o pária, a força individual em combate contra os elementos de coesão social, subvertendo a ordem superficial a serviço de uma divindade esquecida.
***
[O bêbado é uma segunda natureza do poeta. O poeta é aparentemente o bêbado primitivo - ou o ébrio com o estômago cheio. Em certas aparições, o poeta é somente uma farsa (uma fantasia incorporada ao bêbado original), ou a ausência de limites procurando expressão. Mesmo os bêbados têm ereções...]

[o grande desgosto]

Às vezes eu penso que o Homem é como uma vela acesa na História; sim, uma vela com uma chama impetuosa e voraz numa montanha alta onde ela bruxuleia e ameaça extinguir-se e que será, num dia muito frio, definitivamente apagada pelos ventos congelantes do Tempo. Então tudo o que consideramos como sólido, como duradouro e definitivo, e que foi construído por nossa civilização durante os últimos milênios, será simplesmente apreciado como um sonho perdido na grande noite da História.
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È um erro estabelecer a regra do movimento da História como sendo uma polarização entre a civilização e a barbárie, ou uma dualidade entre o pensamento racional e o caos embriagado, que o solapa e o dilui de tempos em tempos. A ausência de uma explicação teleológica para o desenrolar da história, para o fundamento do universo, marca uma divisão cega entre a grande noite, na qual o homem inexistia, aguardando confinado em uma semente, e o intervalo mínimo em que nos foi propiciado um estreito facho de luz e no qual nós bocejamos sob o sol. É parte de nosso orgulho e de nossa arrogância conceber o mundo do modo como até o momento o concebemos, pretendendo que à toda complexa regulação da galáxia corresponda alguma área do nosso domínio intelectual. Imagine se uma lhama ou um antílope, por exemplo, emergissem por um instante de seu silêncio e nos dirigissem uma única frase – nosso mundo não explodiria de imediato? (e quantos lhamas e antílopes ainda falam em nosso tempo!)
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Estamos à beira da ruína, é o que eu pretendo afirmar! A presunção de que trajetória do homem é uma eterna e contínua evolução não resiste à menor aferição isenta. O conhecimento dessa verdade dolorosa, o conhecimento da natureza perecível, curta, mesquinha e egoísta, que possuímos como se fosse a jóia mais delicada que existe, deve nos orientar nos próximos séculos como uma bússola do Ser. Não podemos temer quebrá-la! Estamos por demasiado tempo acorrentados na rocha em que se transformou o Iluminismo. O objetivo final da existência não pode ser unicamente a conservação doentia de nossa civilização, ou nossa satisfação com nós mesmos, uma vez que não é a nossa civilização que está em jogo na História, mas nós mesmos. Não é mais possível suportar tanta repressão e tantos crimes contra nós próprios em nome da civilização. Viver não é a conservação ridícula da vida, não se trata meramente de uma questão de sobrevivência. Como dizia Nietzsche, é chegado o momento de viver perigosamente, sempre para frente, rugindo, como um rio.
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Eu desejo, do fundo do coração, que os jovens que nos substituirão sejam mais felizes do que fomos até agora, e que a próxima geração possa martelar os próprios cérebros e dançar sobre a carcaça da nossa sociedade atual.

[o disfarce da Natureza; para Mandy]

Não me permitirei dar vazão ao impulso à verdade. Para quê? ‘Eis a vitória da lógica, o descanso da verdade... a dialética!’? A finalidade da dialética é a terra arrasada. O segredo da verdade é que ela não constrói. Não foi a verdade ou a razão quem erigiu os supostos “benefícios da civilização”, que você tão orgulhosamente celebra e difunde, porém, a ilusão da verdade. O trabalho de construir é sempre realizado pela arte, que é fundamentalmente enganadora. Todos os nossos monumentos estão sedimentados sobre a pedra essencial do erro. Em si, a verdade destrói, devasta e arruína; o procedimento da verdade, que pode ser comparado ao comportamento do pensador, é puramente de inspeção, de desconfiança, de suspeita e de exame. A lupa natural do filósofo serve para sondar e limpar o caminho, não para preenchê-lo: eis o método do Norte! Não é fortuito, por exemplo, que ali tenham crescido godos, visigodos, ostrogodos, vândalos, anglos, saxões, lombardos, vikings e borgundios. Na natureza, Mandy, nada é completamente aleatório, tudo surge por uma grande necessidade (uma necessidade que, entretanto, até agora, nos está oculta e que apenas tateamos). Na minha opinião, o destino do Homem é reconstruir Roma por toda a Eternidade – neste ponto, minha cara, somos tão infantis quanto aquela criança de Heráclito que erigia castelos de areia na orla; apesar de seu esforço jesuítico, ninguém alcançará maturidade suficiente para contemplar este reino completo, perfeito e acabado, que você julga nos esperar no futuro. A Civitate Dei prosseguirá um sonho irrealizável, especialmente porque, em meu juízo, a divindade não caminha igual ao macaco, como vocês supõem, mas gira, roda, dança em torvelinho, flutua em círculos esvoaçantes, e retorna. O paraíso não é apenas uma visão! Ele não está parado no horizonte. O paraíso é real e se movimenta dentro de uma enorme cápsula cilíndrica manejada pela Natureza; e nela a Humanidade desfila rodopiante e inebriada tal qual uma hélice sagrada e inteligente, onde dança e estremece, geme e solta um murmúrio frêmito. Acredite, Mandy, o Éden não está desenhado em uma tela estática, previsto ou esboçado em algum livro santo; o Céu não está pendurado na parede dura do futuro: ele não é o sítio no Tempo e no Espaço onde nos isolaremos da Vida – o paraíso, ao invés disso, é o mergulho profundo e demorado no mundo, no que há de podre e santo na Vida. O paraíso, ao meu ver, é o próprio trabalho do homem de compor a si mesmo, a sua construção incessante; ele existe e impera, em uma escala flutuante e variável, dentro de cada ser. Em cada comunidade, vigora um grau particular de níveis paradisíacos; e, em cada mônada do universo, a parte luminosa da Natureza brilha e fulgura incandescentemente – sim, é lamentável, apesar de tudo, que a fração observável, o grau visível, curto e restrito, de nossa jornada, demonstre-nos precisamente o inverso e realce, por todos os lados, o impreciso, o inacabado, o imperfeito: talvez tenha sido este o truque, o golpe e o subterfúgio, que a Natureza encontrou – truque para o qual contribuiu a nossa crença nos sentidos: e porque acreditamos tão solidamente em nossas impressões momentâneas. Porque não pesamos adequadamente os nossos frutos, temos esta idéia niilista e desfavorável acerca do homem, e, como castigo, colocamo-lo a trabalhar (como se ele já não tivesse trabalho o suficiente!). Em um enigma:
Em verdade vos digo que o Homem é um sopro. Não tocarás com as mãos jamais naquele que sopra.

[o pessimismo do Norte; diálogo imaginário]

Mandy analisava tudo atentamente, com sua sobrancelha arqueada, de dentro de seu frigorífico mental. Evidentemente, sob a sua temperatura ártica, eu sabia que ela era portadora de uma verdade e que, logicamente, minha elucubrações inflamadas não se sustentariam ao seu sopro de gelo: mas eu tinha o Sonho! Este fato lhe aterrorizava, porque, durante a sua vida inteira, Mandy se ocupou para que os sonhos infantis e inocentes da humanidade se dissipassem. Ela trabalhava para o engrandecimento moral do Homem – e tal caminho, segundo ela, só poderia ser alcançado através da repressão ao elemento individualista, desagregador e sonhador do homem. Possuía uma espécie de mantra interior: “ao Norte habita a Verdade! avante para o Norte, soldados da Razão!”.
Embora o Norte esteja por toda a parte, inconcluso e precário, disfarçado entre o Caos universal, sob a bandeira da Lei e da Ordem, o Sul permanece pulsante e latente, nos escaninhos de nosso desejo. Entretanto o Sul, apesar de representar uma tentação constante (talvez indestrutível!), é um abismo ao qual poucos homens sucumbem. Outrora, lembro, eu marchei junto àquele exército pálido seguindo o Norte; porém, enquanto todos dormiam como pedras, eu lutava contra a minha alma desertora. E os sonhos não têm pescoço, não se pode estrangulá-los! O sonho é impalpável e etéreo, não pode ser liquidado ou extraído da mente de um homem como se procede, por exemplo, com relação a um tumor. Eu estava cansado de dormir sobre o chão frio, sob o cobertor de neve da Razão, sonhando com meu cérebro de gelo. ‘Foda-se o futuro! Foda-se o imenso sol que se levanta no horizonte inalcançável! Prefiro ser um extravagante vagando entre as nuvens a um mendigo na terra!’. Por ventura me perguntarão ‘para onde seguir?’: ora, para qualquer lugar, para o fundo do Inferno, desde que não seja para frente e contanto que não marchemos mais. Não existe mais uma só causa que valha a nossa marcha! Sinto no rosto o vento morno do Sul, penetrando-me através de meus poros e me carregando embriagado nos seus braços invisíveis; posso espiar Helena dançando seminua na clareira de uma floresta; contemplar Ísis fumando um cigarro numa varanda de Floripa (sorvendo aquele perfume inesquecível!) ou ouvir Nietzsche declamando versos na baía de Nápoles numa tarde chuvosa de verão:

O Mediterrâneo jaz num sono branco
A não ser por uma única vela púrpura.
Rochedo, figueira, torre e porto mantêm
A sua inocência pagã; as ovelhas
Balindo nesta paz que nada quebra.
Cansado de todo o Norte estava eu
E do seu lento e metódico passo.
Pedi ao vento que me elevasse
E aprendi com todas as aves a voar
E para Sul sobre o oceano me apressei.


E, por alguns instantes, permaneci imerso nestes pensamentos. Embora a atração irresistível dos ventos do Sul tenha me suspendido os neurônios por certo tempo, Mandy ainda estava postada no centro do hall, ereta e concentrada, expressando com o canto da boca o seu descontentamento e o quanto zombava do meu ar sonhador. Eu percebi que a minha aptidão mongol para devastar não encontrava consentimento em seus olhos, que Mandy personificava o totem da velha sociedade (um imenso espantalho com o rosto da Morte!). Sob sua ótica, de seu observatório nortista, eu havia me desligado à veneração do templo, corrompido os ícones sagrados, dissolvido os monumentos simbólicos e renegado à minha descendência primordial: era um filho bastardo, um desviado. Ela pensava em silêncio: “oh, pobre órfão!”. Via-se na penosa e dilacerante obrigação do juiz e do sacerdote de nosso tempo. “Afinal somos todos irmãos! Gostaria de abrigá-los todos sob o calor de meus braços, mas definitivamente não posso. É a Lei! A Lei sob a qual todos estamos subjugados, a qual todos devemos respeitar – e com o máximo de zelo. Não pense que é fácil julgá-los! Mas não sou surda ao dever... Saiam, saiam daqui, seus corvos assassinos!”. Isto transparecia em seu semblante, simultaneamente severo e duro, tão pesado quanto deve ser o Norte, porém, misturado a uma compaixão indolente, que reconhece o quão impotente é perante as coações do Norte. Todavia, ela despertou de seu silêncio complacente e austero, recuperando a expressão que a férrea mão da Necessidade supostamente exigia dela – com uma voz rouca e aveludada, saída de uma gruta escondida no espaço:
“Era o que eu imaginava: sua descrição do Poeta corresponde a de um vagabundo luminoso! Deus, como você é previsível (e asqueroso)! Você despreza o trabalho, o raciocínio regrado e a responsabilidade coletiva; rejeita a possibilidade do poeta, como um camelo, carregar algo nos ombros, é avesso a todo o tipo de opressão; não vê uma importância social no ofício do poeta – ao invés disso, você determina unicamente que ele fique distanciado da massa, protegido, isolado em um apartamento de marfim imaginário. E ainda assim considera-se moderno! É por isso que você é uma nulidade! Considera-se um poeta – e verdadeiramente o é, na sua concepção da poesia. Porque, na sua concepção de poesia, o poeta está liberado de escrever, está autorizado a se calar. Não é incrível? Eu sinceramente acredito que tudo o que você disse é muito belo, mas é estúpido e não faz o mínimo sentido. Entre as suas proezas não consta razoabilidade. Você defende uma vertente de anarquismo que idolatra o ócio e a preguiça, e não a Poesia! Está no século errado ou será que é cego - e não pode remover os seus antolhos? Não é possível que não veja em toda a volta os benefícios oriundos do trabalho organizado, o triunfo da Razão em cada vitória de nossa civilização... Imagine que sua representação do poeta se generalizasse: não desabaríamos no Caos? Sim, pois posso prever, nessa condição, homens e mulheres lutando uns contra os outros dentro de uma bacia, no fundo de uma cratera, trocando ofensas e matando-se mutuamente pelos bens mais comuns e pelas migalhas mais desprezíveis. É a sua visão do Paraíso! É o seu Natal sobre a Terra!”.
Eis revelado o pessimismo sobre o homem! – a propósito, subjacente à toda consciência burguesa do mundo. O ideal burguês que ordena: ‘Não deixai o homem livre! Somos todos responsáveis pela segurança e preservação do coletivo!' Cada um deve impedir que se materialize a máxima bellum omnium contra omnes. O homem solitário e livre, que dança nos sonhos dos poetas, é um verdadeiro lobo – o qual devemos exterminar! Temos a missão, como rebanho, de evitar a formação destes predadores. O contrato está em jogo. Nada pode ser mais repugnante, para quem vem do Sul, do que tais fórmulas mortais, tais premonições negras e doentias proclamadas com ares catilinários.

[as igrejas modernas]

O comércio da ilusão não é mais exclusividade de Roma. As igrejas se multiplicaram na era da propaganda. Onde o homem se sentar poderá ver o paraíso desenhado no teto.
Os mercadores de sonhos estão camuflados e diluídos na imensa fauna social originada pelas teses liberais. Tudo é interpretado sob a ótica dos mercadores / Tudo cheira à feira!... E quanta coisa é em vão desperdiçada!
Onde reina a democracia, reina a bagunça. O platonismo popular se terrificou. Forjam-se ídolos artificiais projetando sombras na rocha gelada do nosso cérebro. Os nossos melhores poetas, os poetas perdidos, estão submersos pela imensa camada de bosta cultural que a indústria caga sobre nós.

[gio]

Ele sentava e permanecia em completo silêncio. Sempre lendo e bebendo café preto. O cara necessitava tanto de café quanto de oxigênio. Juro que se ele permanecesse um dia inteiro sem café preto, no outro dia o encontraríamos morto no chão, como um peixe que passasse o dia do lado de fora do aquário. Assumia uma postura eloqüente e, dali a pouco, estava certo que ele emitiria um grande juízo sobre a existência. Tinha esta impressão todos os dias, mas ele sempre se manteve mudo. Nunca me disse nada. Não sei se ficou calado por humildade ou qualquer coisa que o valha. A verdade é que ele tinha uma expressão de quem realmente ia ao fundo das coisas, de alguém que não se deixava levar pelos nevoeiros. Quando ele despertava da profunda imersão em que se metia, dizia algo pela metade, soluçava, suspendia o pensamento em pleno desenvolvimento e se concentrava na parede, como se estivesse lendo algo escrito nos tijolos que somente ele era capaz de enxergar. Eu era pródigo em teorias, exemplos e viagens mentais. Perdia-me nadando entre a espuma, enquanto o Gio parecia querer morrer afogado lá no fundo. Tenho certeza de que ele é um grande gênio da nossa época. Só eu vou saber disso. Ele nunca saberá disso: é muito sábio pra ter uma conclusão desta espécie.